Augusto Nunes, Jornal do Brasil
É provável que os mais velhos da tribo tenham roubado com a mesma volúpia, em ritmo igualmente intenso. Mas não dispensavam cautelas aparentemente revogadas pela nova geração de bandidos federais. A desenvoltura de uns e outros trai o atrevimento dos crentes na eterna impunidade. Mas os antigos delinqüiam com alguma discrição, evitavam deixar rastros e, surpreendidos por acidentes de percurso, recorriam a um estoque de álibis forjados com método e minúcia.
O desempenho dos sucessores informa que nem a bandidagem engravatada escapou dos estragos provocados pelo advento da Era da Mediocridade. Sabe disso o senador Romeu Tuma, que convive com a nova safra depois de ter conhecido de perto, como delegado e, mais tarde, superintendente da Polícia Federal, os craques da velha guarda.
Quando caçava bandidos, Tuma sabia que, se fosse encarregado de seguir o dinheiro exportado por um Paulo Maluf, não iria além de descobertas geográficas. Descobriria, por exemplo, que as Ilhas Jersey existem mesmo. Têm até bancos. Mas também descobriria que o dinheiro já não estava lá. E ouviria do pecador profissional juras de inocência capazes de comover um carcereiro de campo de concentração.
O xerife sabia que era muito difícil reunir provas que pudessem levar à cadeia malfeitores cinco estrelas. Mas sempre tentava. O corregedor-geral do Senado sabe que poderia juntar montanhas de evidências sem sair do gabinete. Mas o xerife foi demitido pelo político. Tuma agora se dedica a absolver liminarmente pecadores amigos e livrar do castigo meliantes de estimação. Sorte da bancada dos fora-da-lei.
O chefão da Polícia Federal, por exemplo, demoraria poucas horas para tornar inevitável a aplicação de sanções aos senadores Renan Calheiros e Joaquim Roriz. (Em seguida, espantado com o amadorismo do elenco, incumbiria algum estagiário de concluir a investigação). Em dois dias, implodiria as histórias contadas por Calheiros e Roriz para safar-se de punições.
Para justificar ganhos financeiros inverossímeis, Calheiros engordou e vendeu, em menos de 15 dias, milhares de reses imaginárias. Roriz, confrontado com a divulgação de uma conversa telefônica, gravada pela Polícia Federal, que escancara sua participação num esquema de desvio de dinheiro do Banco de Brasília, também buscou refúgio no mundo rural.
Jurou que, da bolada de R$ 2,3 milhões, embolsara apenas R$ 300 mil. A quantia lhe fora emprestada pelo empresário Nenê Constantino, que subscreveu o cheque milionário. E o restante? Seria devolvido ao dono da Gol, garante Roriz. O senador tem dinheiro para emprestar, mas preferiu tomá-lo emprestado. Para comprar uma vaca. Talvez inspirada pela mansidão bovina dos brasileiros, talvez por falta de imaginação, essa gente só pensa em gado.
Tuma já mostrou que lida bem com rebanhos suspeitos. Nos anos 80, quando o fiasco do Plano Cruzado operou o sumiço de maminhas e picanhas, o presidente José Sarney confiou ao delegado a missão de localizar animais escondidos por pecuaristas insensíveis. O vaqueiro improvisado logo emergiria nas primeiras páginas, pilotando boiadas no lombo de um cavalo. A carne bovina continuou em falta, mas muita gente gostou daquilo. E o detetive dos campos virou senador.
Com as portas arrombadas pelas acusações a Renan Calheiros, o saloon do Senado exibiu-se por inteiro aos olhos dos brasileiros. Na única mesa reservada aos mocinhos, nunca passam de meia dúzia as cadeiras ocupadas. Pedro Simon e Jefferson Peres sempre estão por lá. Tuma andou aparecendo no início do mandato. Há muito tempo prefere outras mesas.
No momento, só freqüenta a dos amigos de Renan.
É provável que os mais velhos da tribo tenham roubado com a mesma volúpia, em ritmo igualmente intenso. Mas não dispensavam cautelas aparentemente revogadas pela nova geração de bandidos federais. A desenvoltura de uns e outros trai o atrevimento dos crentes na eterna impunidade. Mas os antigos delinqüiam com alguma discrição, evitavam deixar rastros e, surpreendidos por acidentes de percurso, recorriam a um estoque de álibis forjados com método e minúcia.
O desempenho dos sucessores informa que nem a bandidagem engravatada escapou dos estragos provocados pelo advento da Era da Mediocridade. Sabe disso o senador Romeu Tuma, que convive com a nova safra depois de ter conhecido de perto, como delegado e, mais tarde, superintendente da Polícia Federal, os craques da velha guarda.
Quando caçava bandidos, Tuma sabia que, se fosse encarregado de seguir o dinheiro exportado por um Paulo Maluf, não iria além de descobertas geográficas. Descobriria, por exemplo, que as Ilhas Jersey existem mesmo. Têm até bancos. Mas também descobriria que o dinheiro já não estava lá. E ouviria do pecador profissional juras de inocência capazes de comover um carcereiro de campo de concentração.
O xerife sabia que era muito difícil reunir provas que pudessem levar à cadeia malfeitores cinco estrelas. Mas sempre tentava. O corregedor-geral do Senado sabe que poderia juntar montanhas de evidências sem sair do gabinete. Mas o xerife foi demitido pelo político. Tuma agora se dedica a absolver liminarmente pecadores amigos e livrar do castigo meliantes de estimação. Sorte da bancada dos fora-da-lei.
O chefão da Polícia Federal, por exemplo, demoraria poucas horas para tornar inevitável a aplicação de sanções aos senadores Renan Calheiros e Joaquim Roriz. (Em seguida, espantado com o amadorismo do elenco, incumbiria algum estagiário de concluir a investigação). Em dois dias, implodiria as histórias contadas por Calheiros e Roriz para safar-se de punições.
Para justificar ganhos financeiros inverossímeis, Calheiros engordou e vendeu, em menos de 15 dias, milhares de reses imaginárias. Roriz, confrontado com a divulgação de uma conversa telefônica, gravada pela Polícia Federal, que escancara sua participação num esquema de desvio de dinheiro do Banco de Brasília, também buscou refúgio no mundo rural.
Jurou que, da bolada de R$ 2,3 milhões, embolsara apenas R$ 300 mil. A quantia lhe fora emprestada pelo empresário Nenê Constantino, que subscreveu o cheque milionário. E o restante? Seria devolvido ao dono da Gol, garante Roriz. O senador tem dinheiro para emprestar, mas preferiu tomá-lo emprestado. Para comprar uma vaca. Talvez inspirada pela mansidão bovina dos brasileiros, talvez por falta de imaginação, essa gente só pensa em gado.
Tuma já mostrou que lida bem com rebanhos suspeitos. Nos anos 80, quando o fiasco do Plano Cruzado operou o sumiço de maminhas e picanhas, o presidente José Sarney confiou ao delegado a missão de localizar animais escondidos por pecuaristas insensíveis. O vaqueiro improvisado logo emergiria nas primeiras páginas, pilotando boiadas no lombo de um cavalo. A carne bovina continuou em falta, mas muita gente gostou daquilo. E o detetive dos campos virou senador.
Com as portas arrombadas pelas acusações a Renan Calheiros, o saloon do Senado exibiu-se por inteiro aos olhos dos brasileiros. Na única mesa reservada aos mocinhos, nunca passam de meia dúzia as cadeiras ocupadas. Pedro Simon e Jefferson Peres sempre estão por lá. Tuma andou aparecendo no início do mandato. Há muito tempo prefere outras mesas.
No momento, só freqüenta a dos amigos de Renan.