UM PAÍS COM DOIS POVOS.
Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia
A última reportagem que publicamos na primeira edição de hoje do COMENTANDO A NOTÍCIA, tratava da questão da educação, e demonstrava o quanto o prazer da leitura anda distante das escolhas dos jovens brasileiros. Pelo menos, de sua maioria.
Se a gente tomar por base o número de universitários em relação à população jovem, saberemos que se trata de uma minoria. Então, quando 20% desta minoria sequer tem na leitura sua ação predileta ou prioritária, imagine-se logo o restante que estão fora das universidades !
Onde estamos querendo chegar ? Nas pesquisas que estão sendo realizadas, há um foguetório intenso em torno da popularidade de Lula, da aprovação do governo medíocre que ele realiza ser recorde, que o assunto “apagão aéreo” além de pouco conhecido está perdendo interesse, que o povo aceita ter apenas Lula comandando o país por entenderem dispensáveis Câmara e Senado, e por aí afora.
Sobre os dados estatísticos, ainda se debruçam para tentarem entender do por quê, diante de tantos escândalos, a popularidade de Lula sequer fica arranhada.
Já em 2006, durante a campanha eleitoral, mesmo diante de casos escabrosos de corrupção e incompetência, sequer todo o lixo era remexido nos bate papos. Por quê?
Eis aí a constatação: o brasileiro não lê nem quando é obrigado, muito menos ainda, para se informar sobre o que se passa no quintal do seu país.
Se vocês observarem bem, perceberão no transporte lotado do início da manhã e do final da tarde, que a maioria sequer leva um jornal, uma revista, um livro como meio de distração. Isto, nos países de primeiro mundo, seria impensável. Pelo contrário, são poucos os que lotam metrôs, ônibus e trens, que ali não estão lendo alguma coisa.
Isto nos leva a concluir que, toda a popularidade de Lula, até a aprovação de seu governo, é fruto sim de uma colossal desinformação do povo brasileiro. Faça-se qualquer enquete, sobre os assuntos mais corriqueiros e que estejam “bombando” na mídia. Pouco além de 30% dos consultados terão tomado conhecimento deste ou daquele assunto. Talvez se a matéria tratar de futebol, a depender do universo pesquisado, os índices de informação serão maiores. E podem incluir aí as telenovelas. Mas se o pesquisador tentar abordar um escândalo, um projeto em discussão no Congresso, acreditem, o índice de conhecimento será bastante baixo.
E aí se percebe que o Brasil é um país realmente dividido entre o poder de um lado, que cuida de se abastecer e enriquecer com a riqueza do país arrecadada nos impostos, e outro, a da imensa maioria que trabalha, paga impostos, tenta sobreviver, e vive para sustentar a camada do poder. Você dirá: é só isso ? É, por mais doloroso que isto possa parecer, o país ainda não conseguiu tornar-se uma comunidade de cidadãos, em busca de objetivos comuns. Cada um ao seu modo, tenta ser feliz, tenta conseguir trabalhar, tenta ser alguém: nos juntamos apenas para discutir futebol e o capítulo da telenovela do momento. E, pelo menos uma vez por ano, tem carnaval. Agora, andam inventando até carnaval fora de época. Teremos mais momentos de “união”. E só. Daí pra frente, só em casamento, batizado, enterro. Ninguém quer se meter com política, ninguém quer se incomodar em cobrar do deputado, do senador, do vereador ou do prefeito algum direito, ou alguma atenção para os problemas da comunidade. De quando em quando, aparece algum jornalista dando soco na mesa, metendo a boca no trombone. Irremediavelmente, ele acaba ou na Câmara de Vereadores ou na Assembléia. Muitas vezes, uma coisa sucede a outra. E ficamos por aí.
Reparem no condomínio do prédio da esquina. Vá lá e tente saber do síndico como são as reuniões de condôminos. Grande parte dos “proprietários” sequer dão as caras para tratar dos assuntos relativos ao seu interesse de valorizar e preservar seu próprio patrimônio. E isto acaba sendo a cara do próprio país.
Votamos porque somos obrigados. Se fosse facultativo, a abstenção seria enorme, e acabaria por demonstrar o quanto estamos alienados e distantes de exercer nosso direito e até o dever de influir nos destinos do país em que nascemos, moramos e vivemos. Por isso, não me espanta os resultados das tais pesquisas de opinião. Na verdade, elas são prova provada de um descaso preocupante de um povo em relação ao Brasil.
Claro, você, amigo leitor, que está lendo este artigo, talvez tenha motivos para discordar. Saiba, porém, que você é uma parcela ínfima da população que consegue ler. É um talvez 10,0% daqueles que se pode dizer ou classificar de “bem informados”. O restante, os 90,0 % de desinformados, formam um exército de “apenas” 162 milhões de brasileiros. Sem dúvida, é muito desinformado para um país com os problemas que temos para enfrentar e resolver.
Portanto, não estranhe nenhum um pouco o resultado das pesquisas. Leia não aquilo que foi perguntado, mas o quanto representa de atraso e de falta de cultura, de educação e de cidadania que se estampa no resultado final. E creia ainda mais que, para aqueles realmente preocupados, com retidão de propósitos, que ficam preocupados com tais “resultados”, existem uma camada enorme de pessoas para as quais tais “resultados” fazem uma tremenda festa. São os apóstolos da mediocridade: formam o contingente de uma elite, tanto política quanto econômica, para quem, quanto maior nossa alienação, maior e mais longo será o reinado de suas indecências. Quanto menos os preocuparmos, quanto menor a cobrança que lhes fizermos, menos preocupações eles terão. Poderão continuar por um bom tempo a governar-nos da forma imoral como há muito tempo têm feito. Continuaremos a ser seus escravos e a servi-los na sua ganância e promiscuidade.
Infelizmente, constatamos, de forma dolorosa, que o Brasil é feito por brasileiros, alguns poucos, que se acham seus donos, e pela imensa maioria, que são os outros, para quem o país ainda não lhes pertence. Aqui, nestes rincões da América, vivem e moram dois povos. Um, imenso, que trabalha, tenta levar o barco, mas que nasceu para servir o outro, pequeno, privilegiado, que vive de se servir e ser servido pelo outro. Talvez um dia ainda nos tornemos uma nação. E o marco divisório desta transformação será quando o povo menor entender que sua existência só se justifica a partir do momento em que ali está para servir o povo maior. E neste dia, por favor, me avisem: desejarei ser brasileiro também. Quero reclamar minha cidadania.
Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia
A última reportagem que publicamos na primeira edição de hoje do COMENTANDO A NOTÍCIA, tratava da questão da educação, e demonstrava o quanto o prazer da leitura anda distante das escolhas dos jovens brasileiros. Pelo menos, de sua maioria.
Se a gente tomar por base o número de universitários em relação à população jovem, saberemos que se trata de uma minoria. Então, quando 20% desta minoria sequer tem na leitura sua ação predileta ou prioritária, imagine-se logo o restante que estão fora das universidades !
Onde estamos querendo chegar ? Nas pesquisas que estão sendo realizadas, há um foguetório intenso em torno da popularidade de Lula, da aprovação do governo medíocre que ele realiza ser recorde, que o assunto “apagão aéreo” além de pouco conhecido está perdendo interesse, que o povo aceita ter apenas Lula comandando o país por entenderem dispensáveis Câmara e Senado, e por aí afora.
Sobre os dados estatísticos, ainda se debruçam para tentarem entender do por quê, diante de tantos escândalos, a popularidade de Lula sequer fica arranhada.
Já em 2006, durante a campanha eleitoral, mesmo diante de casos escabrosos de corrupção e incompetência, sequer todo o lixo era remexido nos bate papos. Por quê?
Eis aí a constatação: o brasileiro não lê nem quando é obrigado, muito menos ainda, para se informar sobre o que se passa no quintal do seu país.
Se vocês observarem bem, perceberão no transporte lotado do início da manhã e do final da tarde, que a maioria sequer leva um jornal, uma revista, um livro como meio de distração. Isto, nos países de primeiro mundo, seria impensável. Pelo contrário, são poucos os que lotam metrôs, ônibus e trens, que ali não estão lendo alguma coisa.
Isto nos leva a concluir que, toda a popularidade de Lula, até a aprovação de seu governo, é fruto sim de uma colossal desinformação do povo brasileiro. Faça-se qualquer enquete, sobre os assuntos mais corriqueiros e que estejam “bombando” na mídia. Pouco além de 30% dos consultados terão tomado conhecimento deste ou daquele assunto. Talvez se a matéria tratar de futebol, a depender do universo pesquisado, os índices de informação serão maiores. E podem incluir aí as telenovelas. Mas se o pesquisador tentar abordar um escândalo, um projeto em discussão no Congresso, acreditem, o índice de conhecimento será bastante baixo.
E aí se percebe que o Brasil é um país realmente dividido entre o poder de um lado, que cuida de se abastecer e enriquecer com a riqueza do país arrecadada nos impostos, e outro, a da imensa maioria que trabalha, paga impostos, tenta sobreviver, e vive para sustentar a camada do poder. Você dirá: é só isso ? É, por mais doloroso que isto possa parecer, o país ainda não conseguiu tornar-se uma comunidade de cidadãos, em busca de objetivos comuns. Cada um ao seu modo, tenta ser feliz, tenta conseguir trabalhar, tenta ser alguém: nos juntamos apenas para discutir futebol e o capítulo da telenovela do momento. E, pelo menos uma vez por ano, tem carnaval. Agora, andam inventando até carnaval fora de época. Teremos mais momentos de “união”. E só. Daí pra frente, só em casamento, batizado, enterro. Ninguém quer se meter com política, ninguém quer se incomodar em cobrar do deputado, do senador, do vereador ou do prefeito algum direito, ou alguma atenção para os problemas da comunidade. De quando em quando, aparece algum jornalista dando soco na mesa, metendo a boca no trombone. Irremediavelmente, ele acaba ou na Câmara de Vereadores ou na Assembléia. Muitas vezes, uma coisa sucede a outra. E ficamos por aí.
Reparem no condomínio do prédio da esquina. Vá lá e tente saber do síndico como são as reuniões de condôminos. Grande parte dos “proprietários” sequer dão as caras para tratar dos assuntos relativos ao seu interesse de valorizar e preservar seu próprio patrimônio. E isto acaba sendo a cara do próprio país.
Votamos porque somos obrigados. Se fosse facultativo, a abstenção seria enorme, e acabaria por demonstrar o quanto estamos alienados e distantes de exercer nosso direito e até o dever de influir nos destinos do país em que nascemos, moramos e vivemos. Por isso, não me espanta os resultados das tais pesquisas de opinião. Na verdade, elas são prova provada de um descaso preocupante de um povo em relação ao Brasil.
Claro, você, amigo leitor, que está lendo este artigo, talvez tenha motivos para discordar. Saiba, porém, que você é uma parcela ínfima da população que consegue ler. É um talvez 10,0% daqueles que se pode dizer ou classificar de “bem informados”. O restante, os 90,0 % de desinformados, formam um exército de “apenas” 162 milhões de brasileiros. Sem dúvida, é muito desinformado para um país com os problemas que temos para enfrentar e resolver.
Portanto, não estranhe nenhum um pouco o resultado das pesquisas. Leia não aquilo que foi perguntado, mas o quanto representa de atraso e de falta de cultura, de educação e de cidadania que se estampa no resultado final. E creia ainda mais que, para aqueles realmente preocupados, com retidão de propósitos, que ficam preocupados com tais “resultados”, existem uma camada enorme de pessoas para as quais tais “resultados” fazem uma tremenda festa. São os apóstolos da mediocridade: formam o contingente de uma elite, tanto política quanto econômica, para quem, quanto maior nossa alienação, maior e mais longo será o reinado de suas indecências. Quanto menos os preocuparmos, quanto menor a cobrança que lhes fizermos, menos preocupações eles terão. Poderão continuar por um bom tempo a governar-nos da forma imoral como há muito tempo têm feito. Continuaremos a ser seus escravos e a servi-los na sua ganância e promiscuidade.
Infelizmente, constatamos, de forma dolorosa, que o Brasil é feito por brasileiros, alguns poucos, que se acham seus donos, e pela imensa maioria, que são os outros, para quem o país ainda não lhes pertence. Aqui, nestes rincões da América, vivem e moram dois povos. Um, imenso, que trabalha, tenta levar o barco, mas que nasceu para servir o outro, pequeno, privilegiado, que vive de se servir e ser servido pelo outro. Talvez um dia ainda nos tornemos uma nação. E o marco divisório desta transformação será quando o povo menor entender que sua existência só se justifica a partir do momento em que ali está para servir o povo maior. E neste dia, por favor, me avisem: desejarei ser brasileiro também. Quero reclamar minha cidadania.