sexta-feira, junho 22, 2007

BC, se quiser, evita que dólar caia abaixo de R$ 1,90

Luiz Sérgio Guimarães, Valor Econômico

O Banco Central (BC) tem totais condições de evitar que o dólar caia abaixo de R$ 1,90. Não se trata de condenação cármica inevitável. Basta querer. Em junho, o BC vem se caracterizando pela passividade. No mês, até ontem, adquiriu diretamente do mercado US$ 5,95 bilhões, ou seja, média de US$ 496 milhões em 12 dias úteis. Em maio, ele comprou US$ 16,57 bilhões, o equivalente a US$ 753 milhões por dia útil. A média diária recuou 34,13%.

E isso ocorre justamente quando o BC passou a ter mais liberdade para tornar efetivos os seus leilões diários de compra de dólares. Não se trata mais de "enxugar gelo", como gosta de ironizar o mercado. O constrangimento fiscal diminuiu depois da queda da dívida líquida como proporção do PIB.

Pelos dados divulgados ontem, a correlação caiu de 45% em março para 44,4% em abril. O número permite ao BC se esquecer um pouco do diferencial de 7% de rentabilidade entre o que recebe pelas reservas e o que paga na compra dos dólares. Se o custo fiscal das operações nunca foi um sério impeditivo à construção de reservas - só neste ano, até ontem, o BC já comprou US$ 57,145 bilhões -, não será agora, quando a dívida líquida não parece ser problema, que ele irá frear seu impulso de compra.

As novas regras cambiais também ampliaram o poder das intervenções diárias. Ao limitar em 30% do patrimônio de referência a formação de posições "vendidas" pelos bancos, o BC inibe o mecanismo de estimulação de ingressos de capitais como efeito contraditório de atuações mais vigorosas de compras.

Até o mês passado, se o BC secasse severamente a liquidez do mercado à vista, a falta de dólares provocava um aumento do cupom cambial. Para aproveitar a alta, os bancos tomavam recursos emprestados no exterior, ampliando as posições vendidas. Ou seja, quanto mais o BC comprava, mais entrava dólar no país. Este rebote nefasto foi contido pela redução à metade das posições "vendidas".

As intervenções de compra do BC tendem a se tornar eficazes também porque diminuíram muito as operações especulativas fechadas por investidores estrangeiros no mercado futuro de dólar da BM&F. Desde o dia 11, piso recente, quando as posições líquidas "vendidas" de investidores não residentes caíram a US$ 2,8 bilhões, até o dia 18 - último dado oficial disponível -, elas cresceram de forma expressiva, para US$ 4,92 bilhões, mas ainda estão longe do total de US$ 10,99 bilhões, auge da especulação, atingido no pregão de 16 de maio.

Se o BC agir vigorosamente à vista para elevar o preço da moeda atuará para bloquear a constituição de novas posições "vendidas" no futuro. Mas, para isso, o BC precisa querer. Se ele persistir em suas atuações anódinas e autenticadoras de preços em queda, como ontem - aceitou nove propostas, adquiriu apenas US$ 210 milhões e pagou R$ 1,9030, uma taxa inferior ao fechamento da véspera, de R$ 1,9070 -, logo o mercado irá testar seriamente a barreira de R$ 1,90. Ontem foi apenas o segundo dia de testes tímidos da fronteira. E a moeda fechou com pequena baixa de 0,05%, cotada a R$ 1,9060. Se o BC não mostrar logo o seu novo poderio cambial poderá ser colhido por uma outra avalanche de dólares. Ontem foi o terceiro dia seguido de queda dos juros dos títulos de 10 anos do Tesouro americano. A taxa, que estava em 5,22% na quinta-feira passada, caiu a 5,16% na sexta-feira, a 5,1330% na segunda e a 5,08% ontem. Os "hedge funds" perdem rapidamente o medo de alta dos juros básicos americanos e logo retornarão com vontade aos mercados emergentes.

A reabertura da captação em reais, a terceira do ano, pelo Global 28, foi considerada estranha pelos analistas pois anda na contramão dos esforços feitos pelo BC para conter a apreciação cambial. O Tesouro captou ontem R$ 750 milhões, com retorno para o investidor de 8,626%, taxa inferior às três anteriores, de 8,938%, 10,279% e 10,68% da captação original, feita em fevereiro. "Em um momento em que o BC e a sociedade discutem a melhor forma de evitar uma apreciação maior da taxa de câmbio, o Tesouro aumenta ainda mais as pressões sobre a autoridade monetária. Essa política do Tesouro reforça ainda mais a tese de que o dólar pode cair ainda mais, faça o BC o que fizer", diz o economista-chefe da Gradual Corretora, Pedro Paulo B. da Silveira.

O BC não está precisando de câmbio mais apreciado ainda para continuar amortecendo a inflação e reduzindo gradualmente a taxa Selic. Dólar a R$ 1,95 no fim do ano produz IPCA um ponto percentual abaixo da meta de 4,5%. O mercado futuro de juros da BM&F persistiu engessado ontem. As projeções para as viradas de 2008, 2009 e 2010 ficaram estáveis em 11,17%, 10,48% e 10,31%, respectivamente.