sexta-feira, junho 22, 2007

Coisas estranhas na política cambial

José Paulo Kupfer, NoMínimo

Em sua coluna de quarta-feira, 20 de junho, o experiente jornalista Luiz Sérgio Guimarães, que há anos acompanha o dia-a-dia do mercado financeiro para o “Valor Econômico”, mostra que a valorização excessiva do real frente ao dólar não é obra de algum espírito santo que preside os movimentos de mercado. É barbeiragem mesmo ou, para sermos elegantes, falta de apetência para tomar uma atitude para evitar mais distorções no lado produtivo da economia. Mas, pensando bem, será que não é uma ação deliberada para derrubar ainda mais a moeda americana?

Até recentemente, explica Luiz Sérgio, se o BC secasse severamente a liquidez do mercado à vista, a falta de dólares provocava um aumento do cupom cambial e, paradoxalmente, maior desvalorização da moeda americana. “Para aproveitar a alta do cupom”, escreveu ele, “os bancos tomavam recursos emprestados no exterior, ampliando as posições vendidas”. Assim, quanto mais o BC comprava, mais entrava dólar no país.

A ciranda foi agora contida com a redução pela metade da exposição cambial dos bancos, limitando a 30% do patrimônio de referência da instituição a capacidade de formar posições vendidas. Pode não parecer aos que só olham para o curto prazo das cotações do mercado cambial à vista, mas há sinais de que as operações especulativas fechadas por investidores estrangeiros no mercado futuro de dólar da BM&F estão em fase de recuo.

Nas contas apresentadas pelo jornalista do “Valor”, do dia 11 de junho, quando as posições líquidas “vendidas” de investidores não residentes atingiram um piso de US$ 2,8 bilhões, até o dia 18 (último dado oficial disponível) elas quase dobraram, atingindo US$ 4,9 bilhões. Mas permanecem estão longe do total de US$ 11 bilhões, alcançado no auge da especulação, no pregão de 16 de maio.

Com a redução das operações especulativas, as intervenções de compra de dólares do BC no mercado tendem a se tornar mais eficazes. Mas, como lembra Luiz Sérgio, o BC tem de querer estancar a valorização excessiva do real. Escreve ele: “Se ele persistir em suas atuações anódinas e autenticadoras de preços em queda, como ontem – aceitou nove propostas, adquiriu apenas US$ 210 milhões e pagou R$ 1,9030, uma taxa inferior ao fechamento da véspera, de R$ 1,9070 –, logo o mercado irá testar seriamente a barreira de R$ 1,90”.

Além da atuação frouxa do BC, há outras coisas estranhas na atuação do governo na área cambial. O Tesouro, por exemplo, voltou a captar divisas com a venda de títulos em reais, como havia feito em fevereiro. Colocou, como na vez anterior, R$ 750 milhões, mas agora a taxas de retorno de 8,62%, inferiores às conseguidas anteriormente. Antes, porém, que os mais ingênuos encham o peito com o “força” da moeda brasileira, é bom lembrar que a operação equivale a trazer mais uma enxurrada de dólares para o mercado.

Para quê? Como destacou Luiz Sérgio Guimarães, o BC não está precisando de câmbio ainda mais valorizado para controlar a inflação. Dólar a R$ 1,95 no fim do ano produz IPCA de 3,5%, um ponto percentual abaixo da meta de 4,5%.

Não é possível encontrar uma resposta simples e direta. Pode ser que não seja uma derrapagem do BC e do Tesouro. Pode ser que não seja só falta de vontade. Pode ser que a idéia seja continuar derrubando o dólar. Mas aí, pela falta de necessidade e pelos estragos que, deliberadamente, causariam nas cadeias produtivas, já seria caso para uma CPI.
COMENTANDO A NOTICIA: O artigo do Luiz Sérgio Guimarães a que se referiu o José Paulo, segue na íntegra no post seguinte.