Reinaldo Azevedo
Por falar em editorial, excelente o do Estadão desta quinta, que trata justamente do impasse na Reitoria. Com o decreto declaratório, qualquer dúvida que pudesse haver está dirimida. E a situação de ilegalidade não pode se prolongar indefinidamente, ainda que possa haver algo de tolerância estratégica nisso tudo. Segue texto.
Por falar em editorial, excelente o do Estadão desta quinta, que trata justamente do impasse na Reitoria. Com o decreto declaratório, qualquer dúvida que pudesse haver está dirimida. E a situação de ilegalidade não pode se prolongar indefinidamente, ainda que possa haver algo de tolerância estratégica nisso tudo. Segue texto.
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Panorama visto da Reitoria
Panorama visto da Reitoria
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Faça o que tiver de fazer para erradicar de uma vez por todas as suspeitas de que pretendia, com os seus decretos na área, “flexibilizar” a autonomia das universidades estatais paulistas, o governador José Serra não poderá fazê-lo antes de uma preliminar. Trata-se da remoção de um obstáculo que cresce e se expande sob outras formas e em outros ambientes na mesma medida em que permanece intocado para todos os efeitos práticos: a ocupação do prédio da Reitoria da Universidade de São Paulo (USP), que completa hoje 28 dias.
Faça o que tiver de fazer para erradicar de uma vez por todas as suspeitas de que pretendia, com os seus decretos na área, “flexibilizar” a autonomia das universidades estatais paulistas, o governador José Serra não poderá fazê-lo antes de uma preliminar. Trata-se da remoção de um obstáculo que cresce e se expande sob outras formas e em outros ambientes na mesma medida em que permanece intocado para todos os efeitos práticos: a ocupação do prédio da Reitoria da Universidade de São Paulo (USP), que completa hoje 28 dias.
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Desde que a Justiça, em 20 de maio, concedeu à instituição o mandado de reintegração de posse já tardiamente requerido, o governo parece ter adotado a estratégia da paciência, como indica a conduta de Serra, na expectativa de resolver o problema pelo diálogo. Uma atitude em princípio compreensível, considerando as abrumadoras implicações da alternativa do ingresso de força armada no campus para desalojar os invasores da sua principal instalação administrativa e símbolo maior. A última vez que policiais entraram na USP foi no ano de 1969, de triste memória.
Desde que a Justiça, em 20 de maio, concedeu à instituição o mandado de reintegração de posse já tardiamente requerido, o governo parece ter adotado a estratégia da paciência, como indica a conduta de Serra, na expectativa de resolver o problema pelo diálogo. Uma atitude em princípio compreensível, considerando as abrumadoras implicações da alternativa do ingresso de força armada no campus para desalojar os invasores da sua principal instalação administrativa e símbolo maior. A última vez que policiais entraram na USP foi no ano de 1969, de triste memória.
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A opção pela estratégia da paciência teria sido sensata, fossem outras a mentalidade e as intenções dos ocupantes, e não estivessem, como sempre, apostando no quanto pior melhor os setores marginais da comunidade acadêmica - atuantes notadamente no sindicato dos funcionários -, que a eles se aliaram, oportunisticamente, para expor o tucano José Serra ao maior desgaste político possível. Já se disse que a insensibilidade do governador para as previsíveis reações das direções universitárias aos decretos que entenderam ser lesivos à instituição ressuscitou o que há de mais obscurantista e autoritário no campus da USP. Dizemos ressuscitou porque as forças desse grupo pareciam esvaídas por inanição.
A opção pela estratégia da paciência teria sido sensata, fossem outras a mentalidade e as intenções dos ocupantes, e não estivessem, como sempre, apostando no quanto pior melhor os setores marginais da comunidade acadêmica - atuantes notadamente no sindicato dos funcionários -, que a eles se aliaram, oportunisticamente, para expor o tucano José Serra ao maior desgaste político possível. Já se disse que a insensibilidade do governador para as previsíveis reações das direções universitárias aos decretos que entenderam ser lesivos à instituição ressuscitou o que há de mais obscurantista e autoritário no campus da USP. Dizemos ressuscitou porque as forças desse grupo pareciam esvaídas por inanição.
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Pois a cada dia que passa - e com o apoio também da minoria de docentes grevistas, carbonários de avental branco - elas parecem se robustecer no incentivo aos invasores da Reitoria a não arredar pé das suas disparatadas exigências para pôr fim à ocupação. Não foram uma nem duas as reuniões de autoridades com os alunos para uma solução pacífica do impasse. E cada uma, além de desembocar numa seguinte igualmente inócua, produziu dois adversos resultados que se complementam. De uma parte, a desmoralização do governo. De que adianta um secretário estadual afirmar que “eles têm de cumprir a lei, antes de mais nada”, se não a cumprem e fica por isso mesmo?
Pois a cada dia que passa - e com o apoio também da minoria de docentes grevistas, carbonários de avental branco - elas parecem se robustecer no incentivo aos invasores da Reitoria a não arredar pé das suas disparatadas exigências para pôr fim à ocupação. Não foram uma nem duas as reuniões de autoridades com os alunos para uma solução pacífica do impasse. E cada uma, além de desembocar numa seguinte igualmente inócua, produziu dois adversos resultados que se complementam. De uma parte, a desmoralização do governo. De que adianta um secretário estadual afirmar que “eles têm de cumprir a lei, antes de mais nada”, se não a cumprem e fica por isso mesmo?
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De outra parte, o saldo - por assim dizer - das negociações é o robustecimento da convicção dos ocupantes de que o tempo joga a seu favor: quanto mais tempo permanecerem entrincheirados, não só mais arriscado será retirá-los com intervenção da PM, como mais disseminado será o efeito da demonstração de sua resistência, atingindo, como de fato já atinge, a Unicamp e a Unesp.
De outra parte, o saldo - por assim dizer - das negociações é o robustecimento da convicção dos ocupantes de que o tempo joga a seu favor: quanto mais tempo permanecerem entrincheirados, não só mais arriscado será retirá-los com intervenção da PM, como mais disseminado será o efeito da demonstração de sua resistência, atingindo, como de fato já atinge, a Unicamp e a Unesp.
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Esse fortalecimento, além do mais, pode encorajar os transgressores da lei a fazer novas exigências. Amanhã eles poderão perfeitamente dizer que só sairão depois que a Justiça se manifestar sobre a ação em preparo sobre a alegada inconstitucionalidade dos decretos da discórdia.
Esse fortalecimento, além do mais, pode encorajar os transgressores da lei a fazer novas exigências. Amanhã eles poderão perfeitamente dizer que só sairão depois que a Justiça se manifestar sobre a ação em preparo sobre a alegada inconstitucionalidade dos decretos da discórdia.
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É claro que não se pode saber com certeza qual o momento ótimo para a decisão de forçar os alunos a sair com o menor risco possível de incidentes maiores. Mas claro está que já se passou daquele ponto, provavelmente cristalizado no final da semana passada, quando era de “fim de festa” o clima percebido pela imprensa no prédio da Reitoria.
É claro que não se pode saber com certeza qual o momento ótimo para a decisão de forçar os alunos a sair com o menor risco possível de incidentes maiores. Mas claro está que já se passou daquele ponto, provavelmente cristalizado no final da semana passada, quando era de “fim de festa” o clima percebido pela imprensa no prédio da Reitoria.
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A esta altura, a hipótese de vencer os invasores pelo cansaço, mantendo a posição de discutir as suas reivindicações apenas depois da desocupação espontânea, se torna menos provável a cada dia que passa. Tendo chegado até aqui acumulando forças para prosperar na ilegalidade, por que haveriam os alunos de aceder às exortações da autoridade?
A esta altura, a hipótese de vencer os invasores pelo cansaço, mantendo a posição de discutir as suas reivindicações apenas depois da desocupação espontânea, se torna menos provável a cada dia que passa. Tendo chegado até aqui acumulando forças para prosperar na ilegalidade, por que haveriam os alunos de aceder às exortações da autoridade?
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Além disso, eles estão sendo incentivados pela deplorável conduta de professores que se dizem democratas e legitimam a invasão pela recusa de se pronunciar sobre ela. A estratégia da paciência só se justificaria se, numa avaliação realista, a demora para agir prometesse resultados melhores do que uma rápida ação da polícia. Mas esse não é o panorama visto da seqüestrada Reitoria da USP.
Além disso, eles estão sendo incentivados pela deplorável conduta de professores que se dizem democratas e legitimam a invasão pela recusa de se pronunciar sobre ela. A estratégia da paciência só se justificaria se, numa avaliação realista, a demora para agir prometesse resultados melhores do que uma rápida ação da polícia. Mas esse não é o panorama visto da seqüestrada Reitoria da USP.