sexta-feira, junho 01, 2007

O forró do senado

Villas-Bôas Corrêa, Jornal do Brasil

O senador Renan Calheiros tem todos os motivos para descansar a cabeça no travesseiro e varar a noite no sono tranqüilo de quem atravessou a pinguela de um constrangimento, mas sabe, com a mesma certeza de que a soma de 2 e 2 não vai além de 4: não corre o menor, o mais remoto risco, nem mesmo da apresentação de documentos comprometedores.

O presidente do Senado foi absolvido por antecipação, antes de ser julgado ou submetido ao incômodo de responder à impertinência de perguntas da minoria que se espreme no canto da oposição: a turma do PSOL, o senador Jefferson Peres.

A esmagadora maioria não exprime apenas a solidariedade generosa da tripulação do barco com o companheiro que escorregou no tombadilho e quase despenca no oceano. Sugere especulações que rodopiam ao redor de obviedades, como da eficiência da máquina governista, recentemente azeitada com o rateio de mais da metade dos 37 ministérios e secretarias e que se completa na partilha de milhares de vagas no segundo escalão, com milhões para a distribuição de verbas para as obras do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC).

A oposição foi sendo roída pela beirada pelo desânimo, as deserções, o troca-troca de legendas, além da paulada na moleira com a cooptação por atacado do PMDB, que pulou o muro obediente à voz de comando do seu presidente, deputado Michel Temer.

É, portanto, natural que a platéia aplauda ou vaie a retreta e que os críticos analisem o desempenho do elenco com contraditórios julgamentos. O que não dá para engolir é a troca do gênero da peça. Comédia não se confunde com tragédia.

E seria até injusto com a impecável atuação do elenco. Todos seguem o roteiro e recitam as falas decoradas. E rejubilam-se com o sucesso.

No dia seguinte ao retumbante sucesso no plenário do Senado, com a fila de congratulações de senadores, deputados, amigos, parentes, admiradores, o senador Renan Calheiros, presidente do Senado e galã da novela, apareceu nos bastidores para os comentários e explicações. Explicou, por exemplo, por que não tem como provar que pagou, com os seus suados reais, parte das doações à jornalista com quem teve uma relação extraconjugal, durante o período da gestação. A origem do dinheiro é um mistério que poderá ou não ser desvendado nos capítulos finais.

Por enquanto, a atenção da platéia deve concentrar-se nas reuniões de austera solenidade do Conselho de Ética do Senado, presidido pelo implacável senador Romeu Tuma (DEM-SP) - que se despede no fim do mandato - detentor do recorde de ter cassado até hoje um único senador, o empresário Luiz Estevão. Nos dois casos polêmicos que envolveram os senadores Magno Malta (PR-ES) e Serys Slhessarenko (PT-MS) as absolvições demonstraram a magnanimidade de quem sabe punir e perdoar.

O senador Renan Calheiros insinuou a deixa para prolongar o suspense: confessou o temor de "ficar sangrando no Conselho de Ética do Senado" se for chamado a prestar esclarecimentos. São truques para manter a audiência e alimentar o interesse do público.

Lá é verdade que algumas vozes desafinam do coro da unanimidade. O senador Jefferson Peres (PDT-AM) voltou a reclamar do presidente do Congresso as provas de que pagou com os seus próprios recursos a assistência à jornalista, mãe de sua filha de três anos de idade.

A turma está atenta e anuncia as próximas atrações, como o financiamento público das campanhas, a fidelidade partidária e outras bugigangas.

Nada de bulir na caixa-preta das intocáveis mordomias, vantagens e privilégios. Os trouxas não são reeleitos.