quinta-feira, junho 07, 2007

Números que envergonham

Mauro Braga e Redação da Tribuna da Imprensa

Mais de 150 pessoas que trabalhavam na colheita de cana-de-açúcar na região de Ribeirão Preto, em São Paulo, morreram em 2006. A causa da morte dos bóias-frias, como são conhecidos, é o trabalho exaustivo em condições precárias. A denúncia consta do Relatório Nacional de Direitos Humanos, Econômicos, Sociais e Culturais, lançado na semana passada em Brasília.

"Os trabalhadores não têm água potável, equipamentos de primeiros socorros, ambulância. Eles freqüentemente desmaiam e têm desidratação. Moram em alojamentos precários sem nenhum tipo de condições habitáveis", conta Cândida da Costa, relatora de direito ao trabalho da publicação.

No ano passado, ela visitou as cidades da região de Ribeirão Preto, noroeste paulista, para investigar as condições denúncias de morte de cortadores de cana de açúcar. Constatou casos de morte súbita, que eram diagnosticados como morte por acidente cardiovascular cerebral e parada cardio vascular, sem registrar, no óbito, a ligação com o trabalho excessivo. Mas, segundo Cândida, há essa ligação.

Um dos motivos que embasam sua denúncia é que os trabalhadores que morreram eram relativamente jovens, entre 20 e 45 anos. "Sem histórico de problemas cardíacos", explicou Cândida. (AB)

COMENTANDO A NOTÍCIA: Faz coisa de um mês publicamos aqui uma reportagem do Financial Times denunciando o regime de escravidão vivido nas lavouras de cana de açúcar no interior do Brasil. Seria interessante que o ministro Carlos Lupi começasse a justificar sua contratação ou nomeação para o Ministério do Trabalho. O trabalho escravo no país, e não apenas nas lavouras de cana de açúcar, é uma chaga que precisa ser extirpada como prioridade número um, assim como o trabalho infantil. Afora isto, é preciso que o governo federal imponha um regime de fiscalização para reduzir ao mínimo, no prazo mais curto que puder, as condições sub-humanas e degradantes a que é submetido o trabalhador. Não se justifica todo este estardalhaço em torno do etanol como o combustível do futuro, se ele for conseguido sobre vidas e mais vidas humanas que se perdem por trabalharem com tamanha precariedade. E a lembrar que os usineiros contam com toda a sorte de benefícios que é possível uma atividade dispor. Sendo assim, nenhuma razão plausível poderão apresentar como desculpa para não se engajarem num amplo movimento que vise tornar as condições de trabalho nas lavouras as melhores possíveis, assegurando segurança e saúde para os milhares que dele dependem.