quinta-feira, junho 07, 2007

Para entender Lula - antes e depois

Wilson Figueiredo, jornalista, Jornal do Brasil

A maneira como o Brasil vem se exibindo, sem respeitar faixas etárias, deixou a porta aberta à Lei de Murphy e, em conseqüência, o que tiver de dar errado, mais cedo ou mais tarde, dará. Tudo indica que mais cedo. Não há tempo a desperdiçar. Não é razoável atribuir ao jeito Lula de governar toda a falta de resultados para a qual deputados e senadores têm dado contribuição valiosa. Mais uma vez, a reeleição, tão sobrecarregada, não decolou (nada a ver com controladores de vôo). Quanto ao presidente, nada a acrescentar nem a subtrair.

A Lei de Murphy adaptou-se à versatilidade brasileira desde que Millôr Fernandes, sem fazer concessões a otimistas, formulou corolários nacionais para a aplicação de um princípio universal ao Sul do Equador. Assim, o que vinha dando errado não será interrompido e o que se entender favorável estará sujeito a solução de continuidade. Por exceção, ficará mais difícil o que puder dar certo.

Há duas gerações o brasileiro só ouviu falar de desenvolvimento alheio. O pior já não depende apenas de maiorias parlamentares variáveis com a flutuação do câmbio. Pode perfeitamente se dar o caso de que este país venha a sair dos trilhos na aceleração do crescimento da rapinagem pública. O que tiver de ser, será. E o que não tiver de ser, também - desde que seja para pior, o velho inimigo do ruim. Nada depende mais de impressões digitais do PT nem da assinatura de Lula.

Afinal de contas, de 1960 a 1989, o brasileiro ficou sem votar para presidente da República e, depois de 29 anos de abstinência, seu maior prazer eleitoral não foi satisfatório. A margem de erro (para cima e para baixo) ficou maior e o cidadão tem de se contentar com reeleições compensatórias. Até hoje, desde que fez as pazes com o voto direto, o brasileiro não sabe em que eleição fez a escolha menos ruim.

Claro que a reeleição não veio ao mundo para corrigir erros cometidos na eleição. Em algum lugar já devia estar escrito que o segundo mandato sempre será pior que o primeiro. A segunda oportunidade dos que não aproveitaram a primeira é fonte de desgosto, por alguma razão que a ciência política ficou devendo e não pensa em pagar. A reeleição de Lula, nas condições em que se deu, é o melhor exemplo de que Galileu merece reparação: pois não é que, depois de tudo que o mensalão ajeitou, o presidente demonstrou ser perfeitamente possível "cair para cima"? Mais do que um modo de dizer, pode oferecer até emprego para a oposição que está verificando que um petista no governo consegue ser tão inútil quanto um social-democrata na oposição, depois que Lula abarrotou de votos as urnas. Calada na campanha eleitoral e reprovada nas urnas, a social-democracia não se animará mais a depor presidente da República. Aprendeu. No mais, nivela-se por baixo.

Moral da história: golpe frustrado tem custo dobrado. Graças ao malogro da conspiração de novembro de 1955, JK fez um senhor governo. Bom para o Brasil e melhor para o brasileiro. Agora que a oposição localizou gente sua na conspurcação geral, as pesquisas escancararam para Lula. Que, pelo visto, continua devendo por não ter como pagar, à oposição e ao primeiro-ministro José Dirceu, a quem, numa reavaliação pela metade, deve o mandato inteiro. E pode precisar novamente dos seus préstimos (digamos) parlamentaristas. Nada impede que, mais adiante, se reconheça que Lula foi apanhado na malha fina da fatalidade histórica.