quinta-feira, junho 07, 2007

Reduzir a meta? Pra quê?

José Paulo Kupfer, NoMínimo

Dois anos de inflação abaixo da meta parecem ter assanhado os economistas-chefes e estrategistas de bancos e as consultorias econômicas do grand monde financeiro. Às vésperas da reunião do Conselho Monetário Nacional (CMN), marcada para 30 de junho, na qual, por obrigação legal, terá de ser definida a meta de inflação para 2008 e 2009, a artilharia em favor de um aperto geral no sistema de metas ficou intenso.

A idéia é aproveitar os tempos de abundância na economia internacional e acelerar o passo no caminho… do que mesmo? Difícil entender as razões de verdade para reduzir a meta de 4,5% para 4%, bem como do intervalo de tolerância de 2 pontos porcentuais, acima ou abaixo do centro da meta, para 1,5%, como querem os financistas.

Entre as vantagens, a maioria não traz vantagem alguma diante da possibilidade de que o Banco Central continue mantendo a inflação abaixo da meta, ainda que dentro do intervalo de tolerância. Os defensores da redução da meta, num acesso populista muito interessante, consideram que, quanto menor a inflação, maior o benefício para a população de menor renda. Bem, se afirmação depende de uma série de variáveis e condicionantes para ser verdadeira, complicado entender porque a inflação, continuando abaixo da meta, não beneficiaria, se beneficiasse, as populações mais pobres.

Um argumento menos hipócrita e um pouco mais técnico é o de que, com a redução da meta, seria possível prever melhor a definição de taxas de juros reais mais baixas, o que facilitaria o movimento de alongamento da dívida pública e de sua parcela lastreada em títulos prefixados, encurtando o caminho para o tão sonhado grau de investimento.

De fato, a única real vantagem de apertar o sistema de metas de inflação é dar sinais ao mercado – e às agências de risco – de que o caminho da ortodoxia não teria volta, abrindo assim espaço para que a economia recebesse o selo de segurança exigido por grandes fundos de investimento estrangeiros. O resto é a desvantagem da rigidez, num mundo envolto em bolhas especulativas, que nunca se sabe quando vão estourar, sendo certo, porém, sobre quem recairiam seus efeitos danosos.

É curioso observar que os mais ardorosos defensores da flexibilidade em variados campos da economia sejam, justamente, os primeiros a sugerir um enrijecimento no sistema de metas de inflação. Destaque entre eles para o FMI. Uma equipe da instituição, embora tenha passado quase despercebida, acabou de encerrar uma visita de rotina ao Brasil, aviando, talvez pela força do hábito ou por incompetência mesmo, uma patética lista de sugestões ao governo brasileiro – entre elas um aperto nas metas de inflação e nos superávits fiscais. Trata-se de uma afoiteza que deixa uma pulga atrás da orelha.

Implantado, pioneiramente, na Nova Zelândia, em 1990, o sistema de metas de inflação é a moda atual, ainda que seguida com cautela, na economia mundial. De lá para cá, pouco mais de duas dezenas de países, em todos os continentes, adotaram metas de inflação explícitas e há notícia de estudos para sua implantação em outros 40 países.

Introduzido no Brasil em 1999, depois da explosão da âncora cambial, o sistema de metas, em seus quase nove anos de existência já teve de tudo. De estouros monumentais, como em 2002 (meta de 3,5% - inflação de 12,5%), a mudanças amplas no centro da meta (fixada em 8,5% para 2003) e até mesmo o acerto bem no alvo (meta e inflação em 6%, no ano de 2000), o sistema registrou resultados dentro dos limites máximo e mínimo estabelecidos em seis anos. Caminha para também ficar dentro dos intervalos de tolerância em 2007.

A bola está com o CMN, uma estranhíssima entidade, que de nacional ou representativa da economia hoje em dia não tem nada. Seu formato atual, desenhado no primeiro governo FHC, se resume a três personalidades – o ministro da Fazenda, o do Planejamento e o presidente do Banco Central, que também responde pela secretaria do órgão.

A ver se o zunzum sobre o aperto na meta é só zunzum, como quer fazer passar o ministro da Fazenda, Guido Mantega, que assegura nem ter ainda discutido o assunto internamente. Caso, porém, o zunzum se confirme, isso, de verdade, tem sim uma grande vantagem, mas só para uns tantos: frear o ritmo de redução das taxas de juros.