Augusto Nunes, Jornal do Brasil
O poeta federal eternizado nos versos de Carlos Drummond de Andrade tirava ouro do nariz. O pensador oficial Marco Aurélio Garcia, incumbido por Lula de ajudá-lo a entender o que vai pelo resto do planeta - e, eventualmente, falar por ele sobre complicações ocorridas em outras paragens e outros sotaques - é tão inventivo como a criatura de Drummond. Em vez de ouro do nariz, tira leite de pedra.
É o que tem feito há quatro anos o inquilino do gabinete reservado, segundo o maiúsculo cartão de visita, ao "Assessor Especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais". Garcia sempre exerceu com aplicação o ofício de explicar o inexplicável. No Planalto, aprendeu a desfiar, com a naturalidade de quem avisa que o outono precede o inverno, raciocínios tão desalinhados quanto sua dentição inferior.
O acervo de lições implausíveis ministradas por esse professor de Mundo com PhD em América Latina foi engrossado nos últimos dias por aulas sobre a Venezuela de Hugo Chávez, um dos seus temas prediletos. Redesenhado pelo conselheiro de Lula, o berço da revolução bolivariana é muito mais bonito que o enxergado pela gente comum. "Andei não poucas vezes por lá", credencia-se Garcia. "Em raros países eu vi a imprensa falar com tanta liberdade quanto na Venezuela".
E a extensa procissão de jornalistas agredidos fisicamente por partidários de Chávez, como castigo por terem criticado o chefe? "Não sei de nenhum caso concreto", desconversa Garcia. E a decisão de não renovar a concessão para o funcionamento da RCTV, única emissora de televisão de dimensões nacionais que ousava discordar do governo? "Chávez não fez nada de ilegal", ensina o pensador federal.
A legislação venezuelana, explica o professor, determina que concessões de canais de rádio e TV têm data de vencimento, certo? Esse prazo de validade, ao esgotar-se, pode ser prorrogado ou não, certo? Ao optar pela segunda alternativa, o governo não feriu a lei, certo? Simples assim, conclui o imaginoso explicador. Pode até parecer um enunciado acadêmico. É apenas uma discurseira malandra.
Ao fechar a emissora líder de audiência, Chávez amputou um dos últimos braços com autonomia de movimentos. Garcia sabe disso. Ao substituí-la por outra emissora controlada pelo governo, o ditador em gestação implantou mais um tentáculo no polvo da propaganda bolivariana. Garcia sabe disso. Se não tivesse a visão turvada pela poeira espalhada pela Queda do Muro de Berlim, esse veterano de guerras contra o imperialismo ianque enxergaria uma paisagem pouco parecida com seu paraíso imaginário.
Aos olhos dos democratas, a Venezuela real vai incorporando matizes que forjam um painel decididamente perturbador. Favorecido pela miopia política da oposição, que boicotou as eleições parlamentares, o presidente transformou o Congresso num clube de devotos. Emasculado o Legislativo, Chávez demitiu todos os juízes independentes, substituiu-os por doutores em vassalagem e reduziu o Judiciário a uma filial do Executivo. Hoje, o presidente chefia os três poderes.
No tempo das repúblicas bananeiras, os ditadores latino -americanos dispensavam camuflagens: eles eram a lei. Republiquetas petroleiras requerem alguma sofisticação: neste começo de século, os tiranetes dos trêfegos trópicos cumprem as leis. Mas só depois de retoques nos códigos que legalizam a ilegalidade. Alguma coisa aprenderam com os avós europeus. Na Alemanha hitlerista, por exemplo, o extermínio dos judeus foi formalmente autorizado pelo Congresso.
Os nazistas condenados em Nuremberg perderam uma boa testemunha de defesa. Para Garcia, todos cumpriram a lei. Como tem feito Hugo Chávez.
O poeta federal eternizado nos versos de Carlos Drummond de Andrade tirava ouro do nariz. O pensador oficial Marco Aurélio Garcia, incumbido por Lula de ajudá-lo a entender o que vai pelo resto do planeta - e, eventualmente, falar por ele sobre complicações ocorridas em outras paragens e outros sotaques - é tão inventivo como a criatura de Drummond. Em vez de ouro do nariz, tira leite de pedra.
É o que tem feito há quatro anos o inquilino do gabinete reservado, segundo o maiúsculo cartão de visita, ao "Assessor Especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais". Garcia sempre exerceu com aplicação o ofício de explicar o inexplicável. No Planalto, aprendeu a desfiar, com a naturalidade de quem avisa que o outono precede o inverno, raciocínios tão desalinhados quanto sua dentição inferior.
O acervo de lições implausíveis ministradas por esse professor de Mundo com PhD em América Latina foi engrossado nos últimos dias por aulas sobre a Venezuela de Hugo Chávez, um dos seus temas prediletos. Redesenhado pelo conselheiro de Lula, o berço da revolução bolivariana é muito mais bonito que o enxergado pela gente comum. "Andei não poucas vezes por lá", credencia-se Garcia. "Em raros países eu vi a imprensa falar com tanta liberdade quanto na Venezuela".
E a extensa procissão de jornalistas agredidos fisicamente por partidários de Chávez, como castigo por terem criticado o chefe? "Não sei de nenhum caso concreto", desconversa Garcia. E a decisão de não renovar a concessão para o funcionamento da RCTV, única emissora de televisão de dimensões nacionais que ousava discordar do governo? "Chávez não fez nada de ilegal", ensina o pensador federal.
A legislação venezuelana, explica o professor, determina que concessões de canais de rádio e TV têm data de vencimento, certo? Esse prazo de validade, ao esgotar-se, pode ser prorrogado ou não, certo? Ao optar pela segunda alternativa, o governo não feriu a lei, certo? Simples assim, conclui o imaginoso explicador. Pode até parecer um enunciado acadêmico. É apenas uma discurseira malandra.
Ao fechar a emissora líder de audiência, Chávez amputou um dos últimos braços com autonomia de movimentos. Garcia sabe disso. Ao substituí-la por outra emissora controlada pelo governo, o ditador em gestação implantou mais um tentáculo no polvo da propaganda bolivariana. Garcia sabe disso. Se não tivesse a visão turvada pela poeira espalhada pela Queda do Muro de Berlim, esse veterano de guerras contra o imperialismo ianque enxergaria uma paisagem pouco parecida com seu paraíso imaginário.
Aos olhos dos democratas, a Venezuela real vai incorporando matizes que forjam um painel decididamente perturbador. Favorecido pela miopia política da oposição, que boicotou as eleições parlamentares, o presidente transformou o Congresso num clube de devotos. Emasculado o Legislativo, Chávez demitiu todos os juízes independentes, substituiu-os por doutores em vassalagem e reduziu o Judiciário a uma filial do Executivo. Hoje, o presidente chefia os três poderes.
No tempo das repúblicas bananeiras, os ditadores latino -americanos dispensavam camuflagens: eles eram a lei. Republiquetas petroleiras requerem alguma sofisticação: neste começo de século, os tiranetes dos trêfegos trópicos cumprem as leis. Mas só depois de retoques nos códigos que legalizam a ilegalidade. Alguma coisa aprenderam com os avós europeus. Na Alemanha hitlerista, por exemplo, o extermínio dos judeus foi formalmente autorizado pelo Congresso.
Os nazistas condenados em Nuremberg perderam uma boa testemunha de defesa. Para Garcia, todos cumpriram a lei. Como tem feito Hugo Chávez.