quarta-feira, junho 06, 2007

TRAPOS & FARRAPOS

CRESCIMENTOS E INVESTIGAÇÕES INVISÍVEIS
Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia

Uma investigação e um aviso atrasados
Claro que para qualquer pessoa, ter um parente próximo seu envolvido em “trapaças”, ou sendo indiciado por ações suspeitas, é bastante desagradável. Ainda mais quando a pessoa em questão é nada mais nada menos do que o presidente da República.

Não se deve negar os méritos do trabalho da PF no seu trabalho de combater contrabando, tráfico de drogas, jogos, sonegação, etc. Precisamos disto mesmo. Mas este trabalho não pode ser feito ao arrepio da lei. Tanto a Justiça quanto diversas entidades de classe, OAB à frente, não cansam de criticar que, em muitas de suas operações, a Polícia Federal tem se colocado acima da lei. Nenhum abuso deve ser contemporizado por quem deve combater justamente a desobediência à lei. Assim, por mais que a PF reúna provas e evidências de culpabilidade das pessoas que indicia, não pode negar-lhes o amplo direito de defesa, a de tomarem conhecimento do que são acusadas e a de serem assistidas por advogados de defesa. É da lei, é do estado de legalidade, e assim deve ser.

Agora, quando a investigação chega às portas da autoridade máxima do país, no caso Lula, por haver um irmão seu envolvido, o cuidado deve ser redobrado e não se pode permitir leviandades. Há muito que se suspeita que existam muitas facções dentro da corporação. Dentre elas, umas agem como que escorando o governo para ver atendidos seus pleitos na questão salarial. Porém há um limite: se a questão é salário, então que se negocie abertamente, e sem prejuízo à atividade fim que justifica a existência da própria PF. Esperar que o presidente se ausente para atacá-lo como no caso do irmão Vavá, não colabora em nada.

Preocupa-me é o fato do uso que se faz de uma investigação do porte da Operação Navalha, para logo em seguida iniciar-se uma operação de greve. E no meio disto tudo, ataca-se, mesmo que por vias indiretas o próprio presidente. Algo está fora de sintonia, a começar pelo comando do ministro da Justiça, que muito embora tenha afirmado ter avisado Lula, o que se sabe é que o presidente, na verdade, foi tomado de surpresa. Conforme já informamos no boletim do TOQUEDEPERIMA, Tarso Genro terá que dar muitas explicações. E acho que terá que ouvir poucas e boas.

O outro lado desta história é o seguinte: desde 2005, quando Vavá foi notícia pela primeira vez e acusado de tráfico de influência (crime pelo qual é agora indiciado), ele deveria ter sido investigado, independentemente de seu grau de parentesco com quem quer que seja. Da mesma forma, Lula deveria ter advertido o irmão de que não poderia encobrir suas ações, em razão do cargo que ocupa. Agora, ei-lo de volta envolto com as mesmas encrencas. Que se investigue e se apure dentro da lei. Mas seria bom que a oposição não ficasse muito assanhada: ela está atrasada há pela menos dois anos. Portanto, não há proveito algum para ser tirado agora.


Falou demais e antes da hora
Se a gente tomar o cuidado de ler o recado enviado pelo Senado Federal para Hugo Chavez na questão da RCTV, não encontrará absolutamente nada de mais grave, e que justificasse a reação do ditador venezuelano. Pedia-se uma reanálise, de forma educada e cordial. Nada além disso. Chavez poderia ter respondido no mesmo tom. Mas se assim fosse, não seria o boquirroto que conhecemos. Achou-se no direito de agredir o Congresso Nacional como um todo, e forma descabida.

Primeiro, porque é um direito de qualquer pessoa ter sua própria opinião e expressá-la, mesmo que seja contrária tanto à maioria quanto às autoridades. Vê-se que Chavez não é muito chegado ao pensamento discordante. Nós também os nossos “Chavez” por aqui.

Porém é preciso um certo cuidado que o assunto escorrega para o perigoso terreno das relações internacionais. Chavez foi grosseiro, inconveniente e acabou com seu desequilíbrio, criando um atrito desnecessário. Muito embora Lula tente abafar uma crise que não lhe interessa, o fato pode ter repercussões continentais e atrapalhar ao próprio Chavez.

Acontece que pra consumar-se o ingresso da Venezuela no Mercosul, o convite feito por Lula precisa ser referendado pelo parlamento dos países membros. Argentina e Paraguai já disseram sim. Brasil e Uruguai ainda não se manifestaram. E O PSDB e os DEM já anunciaram que irão obstaculizar esta aprovação. Por certo, que se consumado na prática a intenção dos oposicionistas, teremos novos capítulos de ataques de imbecilidade a conta do caudilho venezuelano.

Convém que Chavez lembre-se de uma coisa: o Brasil precisa muito menos da Venezuela do que o contrário disto. Aliás, sequer fomos algum dia dependentes deles. Portanto, ter relações no nível em que Lula e Chavez sonham para os dois países, não pode apenas se concretizar pela vontade de ambos. Regra geral, o brasileiro nunca se sentiu muito ligado ao continente. Reparem que as nossas referências são voltadas para ou Estados Unidos ou Europa. Para nós, ter a Venezuela como parceira comercial tanto faz como tanto fez. Conviria, neste caso, que Chavez baixasse um pouco o tom de seu discurso. Ele sim precisa ter o Brasil como um parceiro estratégico. É uma questão de bom senso.

Se o PIB não cresce, vamos inchá-lo artificialmente.
Publicamos hoje uma reportagem da Revista Exame onde fica demonstrado que o tal grau de investimento, sonho de consumo dos economistas do governo, não pode ser encarado como uma panacéia. O upgrade é bem vindo, mas não é tudo, e sequer assegura o crescimento que se deseja. Aquele que invejamos nos demais países emergentes pelo acontece lá, e nos aborrecemos pelo que não acontece por aqui.

Também publicamos a revisão da projeção do governo de que o PAC, em 2007, ficará aquém das projeções iniciais do governo. Já se admite que no, cômputo geral, o governo se contentará se puder cumprir com 60 % de todo o pacote.

Vimos, também, o quanto a infra-estrutura está a exigir urgentes investimentos, e que no campo da energia, está aceso o sinal de alerta.

Pois bem, tudo isto nos desenha um cenário pouco animador para o crescimento do PIB que, pelas projeções do governo, deveriam ser de 4,5% este ano e 5,0% a partir de 2008. Reparem que já atingimos metade do ano e sequer a equipe que se responsabilizará por tocar o pacote todo, está completa. Há muito trabalho parado, hoje se contam 100,0 mil servidores em greve em diferentes áreas da administração pública. Não é pouca coisa, considerando ainda os entraves existentes no campos dos licenciamentos ambientais.

No final do ano passado, o governo encomendou ao IBGE uma arrumação nos critérios de cálculo do PIB. Isto fez com que artificialmente o crescimento pífio do primeiro mandato passasse de ridículo para pífio. Pois, antevendo o fiasco que se anuncia, e diante de tanta pompa e majestade além da publicidade custosa, tudo para engordar o PAC, se vê que ele não sai do lugar, o que o governo Lula fará? Vai mudar de novo o cálculo do PIB, os seus critério como que serão engordados para apresentar um resultado final menos ridículo.

Assim, agora serão computadas as tarefas ditas “não remuneradas”, como cuidar da casa, dos filhos, de um parente doente. Isto em nada acrescenta “crescimento econômico”, mas na publicidade um PIB maiorzinho um pouco, pode fazer uma enorme diferença. Pelo menos é o que pensam os marqueteiros...