terça-feira, junho 26, 2007

Um país isolado

Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa

Continuando o caos no tráfego aéreo e nos aeroportos como vai, quanto tempo o leitor imagina que vai demorar para as grandes empresas aéreas estrangeiras suspenderem seus vôos para o Brasil? Pode não passar do Pan, se durante esses jogos mais do que ameaçados os controladores e o governo continuarem batendo cabeça. Porque uma coisa é certa: já estão examinando a hipótese. Não se trata, para as companhias aéreas internacionais, de romper relações com a Infraero e similares, mas, apenas, de proteger seus passageiros e seu patrimônio do horror mostrado nas telinhas do mundo inteiro.

Nesse caso, da suspensão temporária dos vôos que vêm e vão para fora de nossas fronteiras, como fará o passageiro com necessidade absoluta de vir de Nova York, Paris ou Tóquio, ou para voar daqui para lá? Sempre restará a possibilidade de os cidadãos viajarem de ônibus para Montevidéu ou Buenos Aires, lá embarcando para seus destinos. Ou, quem sabe, indo a cavalo para Assunção, La Paz ou Caracas? Trata-se da suprema desmoralização de um País com a economia da prosperidade em plena ascensão. E de um governo que se julga o melhor de todos, desde a Proclamação da República. Com o Brasil isolado, imagine-se os efeitos do isolamento...

Décima-primeira
Faltou uma, entre as dez medidas de emergência anunciadas pelo comandante da Aeronáutica para tentar reduzir a crise no tráfego aéreo. Porque se não cuidarem de enquadrar as empresas aéreas nacionais nos limites da lei e da ética, nada feito. Adiantará muito pouco afastar e prender controladores, colocar esquadrões de sobreaviso, criar corredores especiais de tráfego, rever rotas, modernizar centros de controle e sucedâneos.

Torna-se necessário, em paralelo, proibir, multar, intervir e até cassar a concessão de empresas que nada informam aos usuários, vendem mais bilhetes do que poltronas em suas aeronaves, distribuem apenas barras de cereal durante os vôos e deixam de providenciar alimentação e hospedagem para quantos permanecem cinco, dez ou vinte horas nos aeroportos, aguardando iniciativas que não chegam. Elas são tão responsáveis pelo caos quanto os controladores, mas comportam-se como se nada tivessem a ver com os atrasos e suspensões. Pior, como se os passageiros fossem uns chatos que só atrapalham seus funcionários...

Tucanos em festa
Das crises recentes, envolvendo o caos aéreo, acusações contra o PMDB de Renan Calheiros e agora de Joaquim Roriz, a inércia do PT, mais os efeitos das operações Navalha, Hurricane e outras, de tudo isso, qual o maior prejudicado? Por mais que se tente salvá-lo, alegando popularidade ímpar, a resposta não pode ser outra: o maior prejudicado é Lula.

Não haverá como essa cascata incessante de escândalos deixar de atingir o presidente, aliás, já atingido, por envolver seus aliados tanto quanto as estruturas de seu governo. A melhor prova está na interferência de cidadãos comuns no trabalho executado pelos repórteres de televisão, a cada momento, nos aeroportos.

Ao comentar com imagens ao vivo o horror dos atrasos, dos cancelamentos e de gente dormindo no chão, mesmo sem querer os jornalistas não conseguem evitar que populares se coloquem nas câmeras, explodindo, gritando e criticando a autoridade pública. O telespectador não é bobo, geralmente presta mais atenção ao ambiente do que aos comentários. Sobre quem recaem as diatribes e os protestos de quantos se sentem humilhados? Sobre o governo, ou seja, os que exercem o governo, ou melhor, aquele que maiores responsabilidades enfeixa, como seu chefe e responsável: Lula.

Continuando as coisas como vão, o reflexo de tantos desmandos e sofrimentos não deixará de chegar às eleições. O primeiro teste acontecerá em 2008, na escolha dos prefeitos das capitais. Deve cuidar-se o presidente, se tiver candidatos. Acresce que a onda de revolta popular não se interromperá, caso não se interrompa o festival de lambança encenado no País inteiro.

Quem lucra? As oposições, com o PSDB à frente, por tratar-se do partido que maiores e mais densas alternativas dispõe para a alternância no poder. Aquilo que não conseguiram realizar através de seus próprios esforços logo cairá no ninho dos tucanos como presente de Papai Noel, nesse Natal permanente em que parece ter se transformado a política nacional. Também, bem feito...