quinta-feira, julho 12, 2007

ENQUANTO ISSO...

Gaúcha de 25 anos é a nova presidente da UNE

Lúcia Stumpf pede R$ 200 milhões para Plano Nacional de Assistência Estudantil

A nova presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Lúcia Stumpf, eleita ontem, faz muitas ressalvas à política do governo federal para a educação e, em entrevista, reivindicou uma rubrica específica do Ministério da Educação "para um Plano Nacional de Assistência Estudantil, com verba orçamentária superior a R$ 200 milhões". O ministro da Educação, Fernando Haddad, prometeu há duas semanas uma verba de R$ 150 milhões, mas só para 2008, sem vinculação orçamentária.

Lúcia Stumpf, 25 anos, gaúcha de Porto Alegre, e estudante de jornalismo pelas Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), de São Paulo, apresentou-se como candidata única à presidência da UNE, durante o biênio 2007-2009. Eleitora de Lula, ela é a quarta mulher a presidir a entidade e sua eleição quebrou uma hegemonia masculina de 15 anos.

A eleição coincide com a realização do 50º Congresso da entidade, que aconteceu de quarta-feira até ontem, quando os estudantes comemoraram os 70 anos de fundação da agremiação estudantil universitária, em 11 de agosto de 1937. Lúcia Stumpf substitui Gustavo Petta, que foi presidente da UNE por dois mandatos seguidos (2003-2007).

Para Lúcia Stumpf, o governo deveria "investir mais na educação, com uma maior interiorização de universidades públicas, com um plano de assistência aos estudantes, como bandejão, vale-transporte e moradia universitária".

Segundo ela, o governo deveria regulamentar as universidades privadas, "que ditam suas próprias regras, sem dar satisfações ao governo, e agem muitas vezes contra o aluno, como a criminalização dos estudantes inadimplentes, proibidos de entrar nas faculdades quando estão devendo".

Ela afirmou que a UNE apóia as políticas de cotas do atual governo, como previstas no projeto de lei em tramitação na Câmara dos Deputados, segundo o qual em cinco anos 50% de todas as vagas nas universidades públicas serão destinadas a estudantes de baixa renda oriundos do ensino público fundamental e de primeiro grau e, dentro desse percentual, haverá uma destinação racial (negros e índios), conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A nova presidente da UNE disse que a entidade também apóia a inciativa do governo de criação do Programa Universidade para Todos (ProUni) - que distribui bolsas em universidades privadas para estudantes carentes -, mas também com ressalvas. Segundo ela, "é preciso dobrar o número atual de cerca de 300 mil bolsistas e que o programa seja acompanhando de uma ampla fiscalização do governo e uma política de assistência estudantil, para que os estudantes possam permanecer nas universidades".

Nova gestão defende invasão de universidades
A nova gestão da União Nacional dos Estudantes (UNE) promete trabalhar nos próximos dois anos para retomar a trajetória de luta que caracterizou a entidade no passado. Para isso, quer intensificar as passeatas e manifestações, o que inclui a invasão de universidades públicas como forma de reivindicar melhorias no ensino.

"A UNE nos próximos dois anos vai ser a UNE da ocupação das universidades públicas", afirmou Lúcia Stumpf, a nova presidente da instituição para 8.000 estudantes em Brasília.
Em junho, estudantes conseguiram ocupar as instalações de algumas universidades públicas. Na USP (Universidade de São Paulo), a invasão da reitoria durou 50 dias.

De acordo com Lúcia, a agenda da Jornada Nacional de Lutas, marcada para agosto, ainda não está definida, mas ela afirmou que novas ocupações são uma alternativa da entidade. "Não descartamos as ocupações. A ocupação é um formato legítimo de reivindicação. É um formato legítimo de manifestação dos estudantes. Vamos amadurecer essa idéia ao longo dos próximos meses durante a organização da jornada.''

A jornada de lutas foi aprovada no 50º Congresso da UNE, encerrado ontem. Ela será feita em conjunto com movimentos sociais e servirá para comemorar os 70 anos da instituição.

ENQUANTO ISSO...

Para ex-presidente, UNE padece de certo oficialismo

A União Nacional dos Estudantes (UNE) padece hoje de "certo oficialismo", afirma o ex-presidente da entidade (1966/68) e ex-deputado federal José Luiz Guedes, filiado ao PC do B. Ele diz que isso já prejudicou a UNE à época de sua fundação, em 1937 (quando a entidade aderiu à ditadura getulista), e no pré-1964, quando ela se confundiu com o governo João Goulart. Esses ciclos, segundo Guedes, sufocam a rebeldia. "E sem rebeldia não há movimento estudantil", arremata.

A UNE completa 70 anos no dia 13 de agosto e encerrou ontem seu 50º congresso, que acabou sendo um desfile de posições radicais entre partidos de esquerda que compõem o seu espectro, como o PC do B, o PT, o PSOL, o MR-8 e muitas pequenas tendências trotskistas. Ontem, a gaúcha Lúcia Stumpf foi eleita presidenta para o biênio 2007/09. Ela é a 10ª dirigente do PC do B que ocupa o cargo seguidamente.

Outro ex-presidente, Cláudio Langone (1989/91), ex-secretário executivo do Ministério do Meio Ambiente, vinculado ao PT, afirma que a UNE tem grande dificuldade de modernizar sua agenda. Para ele, há dois pontos essenciais que hoje seriam do interesse da grande massa de estudantes - qualidade do ensino e inserção no mercado profissional. "Mas a UNE tem insistido na luta político-ideológica e na questão da reforma universitária", observa.

O ex-presidente Aldo Arantes (1961/62), ainda vinculado ao PC do B, discorda e afirma que a UNE persiste na agenda da reforma universitária - que é sua principal reivindicação desde 1937 - com o conteúdo sempre renovado. "A reforma que a UNE cobra hoje tem outra cara", salienta. Para ele, a eleição de Lula permitiu uma nova articulação do movimento social; a UNE tem de apoiar esses "avanços" mas guardar distanciamento crítico do governo.

Jean Marc van der Weid (1969/71) - que seria eleito no congresso de Ibiúna e só tomou posse meses depois - diz que a UNE hoje tem peso político bem menor. "E isso é bom", sublinha. Mas ele sente falta de ver a entidade discutindo objetivamente um projeto para o País. Ele, hoje consultor de agronomia, aponta um envolvimento excessivo da UNE com o governo Lula: "Quem critica o governo é logo tachado de direita. Não pode ser assim."

O deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP), presidente no biênio 1980/81, acha que a UNE criou a tradição de defender, ao longo do tempo, bandeiras históricas, embora reconheça que o perfil dos universitários brasileiros mudou. Ele discorda das eleições diretas - embora tenha sido eleito numa - porque não haveria fiscalização eficaz.

Guedes condena excessos do movimento estudantil atual. "Não existe esse negócio de mídia golpista. Insistir nisso é ridículo", comenta ele, um dos presos de Ibiúna. Langone critica a hegemonia dos partidos na UNE. "Os líderes acabam representando as tendências de seus partidos, de uma maneira pouco qualificada, porque são inexperientes", diz. Ele pede eleições diretas para a direção.