quinta-feira, julho 12, 2007

Os neocorruptos traem a história de nossa corrupção

Arnaldo Jabor, Jornal A Gazeta (Cuiabá/MT)

"Ah...que saudades da boa e velha corrupção d´antanho... Nem tinha esse nome....Era o quê? "Bons negócios", bons ventos para um reino de prazeres , era uma troca justa entre o privado e o publico. Não víamos mal nisso; havia uma certa beleza nesse casamento, nesta simbiose entre crime e progresso. Quem trabalharia apenas pelo abstrato "interesse publico" que intelectuais cismaram que existe? Não há isso. Só o interesse pessoal , privado, só os egoismos casados constroem um futuro. O "desprendimento" romântico é hipocrisia, narcisismo, talvez até uma forma de masoquismo. Através dos contratos superfaturados, do favores clandestinos, se construiu um país e as instituições se ergueram.

Nós, políticos ladrões da antiga, fomos semeados na Colônia, regados no Império, desabrochados na Primeira Republica. Éramos tradição cultural. Por isso, achamos que a coisa mais grave que aconteceu ultimamente no Brasil foi a desmoralização da politica. Nem falo do desrespeito pela verdade, pois a verdade ninguém sabe o que é, mas a desmoralização da mentira. Essa raça de vagabundos não tem respeito nem pela mentira.

Éramos do tempo em que tudo era a aparência, em que havia a pose. Ahhh..como era importante a pose. Uma de nossas habilidades era justamente "aparentar"; podíamos ter no bolso do paletó um "jabá" recente, ali, quentinho...há há, "jabá", como vocês chamam, mas a pose era imprescindível. O importante não era ser honesto; era parecer honesto. Saudades do Lupion, do Ademar, do buraco do Lume, tantos...Vocês viram o discurso do Roriz, fingindo honradez? Nem mentir sabem mais...Ele parecia um mamulengo bebedo, berrando fora de sincronismo, os gestos descolados das palavras, falando na Virgem Maria, numa patética imitação de nossas hipocrisias clássicas. Sabíamos roubar de fronte alta, com dignidade. Um de nossos presidentes uma vez recebeu uma mala cheia de dólares dentro do Alvorada e passou uma descompostura no corrupto ativo: "Deixe a mala preta ai e ponha-se daqui para fora!" Hoje, não. Essa gentalha lamentavel aí do Senado não tem noção da "poética da corrupção", não têm um mínimo de elegância, de postura parlamentar, não têm oratória, não se cuidam, vestem-se mal, nos chocam com suas carantonhas sórdidas. Falta a estes neocorruptos a capacidade de ocultar suas perversões, se atiram aos roubos com uma fome desabusada, sem dissimulações. São cheques falsos, assinaturas mal-forjadas, desculpas esfarrapadas. Roubar é também uma arte. Antigamente, os ignorantes chegavam a dizer: "Ele rouba, mas faz". E fazíamos mesmo, quase nada, mas fazíamos. Hoje, os viadutos morrem no ar, as placas de obras não -feitas dormem no meio das caatingas. Havia laivos de amor pelo bem que o povo nos fazia, deixando-se roubar. Dávamos algo em troca. Hoje não, veja o Maranhão, por exemplo, desertificado, milhões de famintos vagando, vejam os bilhões, sim, bilhões desviados pelas ONGs do mal no Estado do Rio, vejam Alagoas, com os bebês morrendo sem incubadeiras...Ainda tínhamos um pouco de cuidado, nos davam prazer os aplausos dos desdentados, algo se movia em nossos corações diante dos analfabetos. Ao menos, executávamos as obras. Hoje, nem isso.

Sem contar a novidade que apareceu: a quadrilha dos "revolucionários" que atacaram o Estado para roubar, com o pretexto de um socialismo psicótico, santo Deus! Esse papo de "mensalão" que houve, sim, mas que foi café pequeno, perto do mais de 3 bilhões que estão aí pelas Bahamas, vindo de fundos e de pensão e estatais que os sindicalistas do mal roubaram...Antigamente, o comuna tinha orgulho da miséria. Andava esmolambado pelos cantos, filando ponta de cigarro..Nós, os ladrões clássicos, nunca precisamos de uma ideologia para absolver nossos roubos...Tínhamos a coragem do cinismo altaneiro, com a verdade crua do interesse em nossas caras, sem brados de falsas utopias.

Sim, claro que multiplicávamos nossos patrimônios em poucos anos, sim, tudo bem, conquistávamos propriedades, dignos pés-de-meia, sólidos palacetes. Agora não; só pensam em ilhas, iates, amantes louras, fazendas com falsos papeis, bois imaginários, usam "laranjas" e pobres diabos, enquanto fazem cursos para entender de vinhos e charutos. São uns cafajestes!...Nós, não. Tudo era registrado, tudo dentro das regras das brechas da Lei, tudo para ter a tranquila solidez de bons estadistas...

Sempre amamos um outro Poder mais profundo que o partido A ou B. Amávamos um poder que se entrevê nos gestos seculares da elite, na fronte alta, no perfil de medalha, nos ternos bem cortados, nos sorrisos conciliatórios, no autoritarismo egoísta disfarçado de tolerância democrática. Era uma delicia secreta não ceder ao sentimento de culpa diante das traições e injustiças que cometíamos. Era bela a coragem da boca fechada, com a consciência muda, fria, como diante de um mal necessário. Havia um grande prazer em prometer e não cumprir, em trair de cara limpa. Havia uma doce volúpia em nos vingarmos de ex-inimigos arrependidos com um humilhante perdão..

Era tão poético o amor servil dos puxa-sacos nos lambendo a alma, o ronco dos helicópteros, a preciosa presteza dos ajudantes-de-ordens, dos seguranças, dos negrões fieis ás nossas costas.

Pensávamos nos netos, em consolidar uma imagem para a posteridade contrária a tudo que realmente éramos. E não só para os outros, agora e no futuro, mas para nós mesmos. Hoje esses moleques nem sabem o que são esses rituais...

Nós acreditávamos que éramos bons para o Brasil. Na mentira, o essencial é o auto-engano.

E tínhamos, na época, um obliquo amor pelo país , sim. Tínhamos um carinho misturado com gratidão por tantos privilégios, nos sentíamos misturados com as florestas, com as cachoeiras, havia uma simbiose consentida entre nós e o povo.

Hoje não há mais nada disso. Aumentou muito o numero dos desonestos. Veja o Senado. Quase todos... nosso prazer também advinha de nos sabermos a minoria esperta, o clã perverso, nossa volúpia era alimentada pela "superioridade" que sentíamos pelos ridículos homens de bem, que nem as esposas respeitavam.

Nós, sim, éramos o Brasil. Esta gentalha aí não presta. Traiu a grande beleza secular da roubalheira nacional".