sábado, julho 14, 2007

PANdeguemos, pois

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa, Blog Noblat

Segundo tem sido apregoado aos quatro ventos, o Brasil nunca esteve tão bem. Nunca. Nem antes da chegada de Cabral, quando isto aqui devia ser uma das filiais do Paraíso. Mas hoje, que espetáculo: mesa farta, luz para todos, empregos com carteira assinada, nenhum menino sem escola, crédito à larga, a Caixa financiando moradias, montadoras com os pátios vazios, o mundo extasiado diante do Brasil, a polícia agindo sem parar, o povo voando ou relaxando e gozando. Hospitais, ainda não, mas com todas essas benesses, quem é que vai ficar doente?

Dá para compreender porque pipocam tantas greves? Será espírito de porco? Está tudo tão bem... Será que estão todos, como diz o Elio Gaspari, a fim de ‘esculhambar’ o PAN? Esse grande evento? Essa magnitude toda, que faz com que o mundo esteja de olho na gente? Será que estão mesmo? Ou do Brasil só lhes interessa o álcool que virá baratinho, mais que baratinho, conveniente, pois o grosso do trabalho, o desmatamento, o cansaço da terra, serão só nossos? Amigos, sim, mas em termos, como já deveríamos ter aprendido.

Insistem que está muito bem, porém o Banco Central declarou que nossa DLSP – Dívida Líquida do Setor Público – dobrou em quatro anos: passou de R$687,3 bilhões, em 2002, para R$1.299,3 bilhões, em maio de 2007. Será uma bela herança para o próximo governo...

Tenho a impressão que o Governo Federal acha que lida com uma cáfila de camelos, em vez de um povo. Lembram quando o ministro Mantega disse que o apagão aéreo era fruto do enorme crescimento econômico do país? Pois ontem, ao falar sobre o apagão energético na Argentina, ele disse que bem fez o Brasil em ter um crescimento moderado, de modo a não extrapolar nossa capacidade energética. Disse, sim. Está gravado.

Na mesma entrevista, o Ministro da Fazenda criticou nossa carga tributária muito alta. No entanto, no mesmo dia, o Presidente da República, chefe do ministro, disse que nós, brasileiros, reclamamos dos impostos altos que pagamos, mas vivemos elogiando os outros países. Que fôssemos lá ver quanto imposto eles pagam! Para ter o que eles têm, eles pagam sem reclamar! Fiquei sem saber: ele estava sendo irônico ou acha que somos todos Almeida Limas? Ou Wellington Salgados?

No Senado, Renan Calheiros se superou. A cada dia uma cena mais deprimente que a outra. Ontem, ele foi tão longe ao quebrar a palavra dada na véspera, que a oposição se levantou e tomou o caminho da rua. Fiquei entusiasmada. Finalmente, pensei. Contudo, é cedo para comemorar. Vou aguardar terça-feira que vem, data que promete... Afinal, um senador que nem sei quem é, levantou-se para dizer que ali e até alhures, não há quem possa falar em ética. É o ilustre ‘quem?’, mas a acusação é muito séria para ficar assim, no ar. Fez muito bem o senador Arthur Virgílio em cobrar explicações. Virão?

Renan, a guisa de um esclarecimento decente para a quebra da palavra, encerrou o dia com a seguinte frase: “marca reunião quem tem mais votos”. Coitado... Será que ele acha que ainda tem os mesmos votos do dia em que foi eleito? Como tudo é culpa da Imprensa, ele até andou olhando de cara feia para um repórter de O Globo. Zangado, chegou a dizer que um dos votos contra ele era do Gerson Camarotti. Eu, se fosse o jornalista, teria respondido: “O que é isso, Senador? E eu lá trabalho aqui?”.

Hoje à tarde começa a festa que nos custou três bilhões e meio. Apesar de o país ir muito bem, a segurança foi triplamente reforçada. Teremos 1200 câmeras vigiando nossas ruas, 1800 veículos constantemente em movimento, 12 helicópteros sobrevoando os locais das provas. Em serviço, 18 mil agentes. E mais 136 cães, sendo que 34 especializados na procura de explosivos. Até me assustei: a coisa deve estar pior do que eu pensava... mas não, o responsável pela segurança declarou á FSP que não há nenhum risco de ataque terrorista.

E não deve haver mesmo. Estamos mais preocupados em pandegar. O Ministro dos Esportes tem sido visto em clubes da Lapa, curtindo o que o Rio tem de bom. Os atletas já utilizaram uma quantidade expressiva de preservativos. A boate da Vila do PAN bombou. A farra está muito boa. A delegação argentina foi vaiada no ensaio geral, mais que a americana, nosso saco de pancadas favorito. Porém menos que o presidente Lula. Quarenta mil pessoas no Maracanã, é quase nada. Mas essas quarenta mil vaiaram o Lula.

PANdeguemos, pois. Enquanto a cidade está assim guardada e cuidada. Enquanto não desmontam o circo, PANdegar é preciso. Depois... veremos.