sexta-feira, agosto 24, 2007

Caso Renan: defesa superficial não convence relatores

Tribuna da Imprensa

Sem apresentar novos documentos de defesa, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), se limitou ontem a rebater superficialmente as inconsistências apontadas pelos peritos da Polícia Federal (PF) na evolução de seu patrimônio. Depois de duas horas de depoimento aos relatores do Conselho de Ética, Renan conseguiu convencer apenas um de que é inocente, seu aliado Almeida Lima (PMDB-SE). Os outros dois, Renato Casagrande (PSB-ES), e Marisa Serrano (PSDB-MS), se mostraram descrentes com as suas explicações.

Renan chegou ao gabinete do presidente do Conselho, Leomar Quintanilha (PMDB-TO), escoltado por 14 seguranças e acompanhado do perito José Appel. Na saída, afirmou estar convencido na isenção dos senadores, tanto do Conselho como do plenário. Ele tentou desqualificar o laudo pericial, que desmonta todos os argumentos que apresentou até agora para justificar o rendimento de R$ 1,9 milhão.

Na perícia, por exemplo, é atestado que Renan operava com "laranjas". O documento cita a ligação dele com seu primo Tito Uchoa na Locadora Costa Dourada Veículos Ttda. Tito e Bianca Uchoa aparecem como sócios da empresa, mas quem fazia as retiradas em dinheiro, em valores elevados, era Renan, na maior parte das vezes.

Em 2004, de acordo com o laudo, Renan recebeu empréstimo de R$ 78,8 mil, em 19 parcelas; os sócios pegaram apenas R$ 22 mil. Em 2005, o senador fez um empréstimo de R$ 99,3 mil, em 24 retiradas. Já os sócios, diante do lucro de apenas R$ 71,49 mil, não tiraram nada.

Renan Calheiros disse aos relatores que não declarou à Receita Federal os empréstimos que disse ter feito para evitar a exposição de questões pessoais. Ou seja, quis dizer que não queria publicidade na pensão que pagava à filha que teve fora do casamento. Casagrande e Marisa Serrano afirmaram que o presidente do Senado não conseguiu tirar as dúvidas sobre a evolução de seu patrimônio.

Sobre a acusação existente no laudo da PF, de que teria mantido sua família nos anos de 2002 e 2004 com renda mensal, respectivamente, de R$ 2.329 e R$ 8.517,17 - dado aos investimentos sem retorno que declarou no período, Renan disse que sobreviveu graças ao empréstimo que fez da empresa Costa Dourada, pertencente a seu primo Tito Uchoa, justamente o primo que é apontado como um dos seus principais laranjas na sociedade com o usineiro e ex-deputado João Lyra.

"Pode ser que até o dia 30 (prazo previsto para votação do parecer) ele me convença (que é inocente), mas hoje (ontem), não me convenceu", afirmou a relatora Marisa Serrano. Ela e Renato Casagrande avisaram que vão passar o final de semana analisando os termos do depoimento de Renan, que hoje receberão em forma de notas taquigráficas.

Apesar da perícia apontar várias vezes que na defesa de Renan há uma série de alegações inconsistentes, o senador disse mais de uma vez que não há "ilegalidade ou irregularidade". "O laudo fala de incongruência, ou seja, desencontro de informações. Não há nada de quebra de decoro, estou absolutamente convencido que vai prevalecer no plenário a isenção de senadores e senadoras", alegou.

Ao tentar explicar porque na contabilidade de seu patrimônio agropecuário não aparece nenhum sinal de pagamento a empregados, Renan - segundo os relatores - afirmou que essa despesa era bancada pelo espólio de seu pai. O mesmo pai que, ao longo de sua vida, ele disse ser um homem simples, desprovido de posses.

Na contramão de Casagrande e Marisa, Almeida Lima disse que o depoimento só serviu para "ratificar a inocência de Renan". "A mim, confesso, ele já convenceu de sua inocência", alegou. Casagrande disse ter combinado com os outros relatores o esquema de trabalho dos próximos dias. "Combinamos que cada um fará sua avaliação no final de semana e na terça-feira, vamos tentar fazer um só relatório", informou.