Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia
Leiam o artigo a seguir. Retornamos depois para os comentários.
"O Brasil é o mais claro exemplo da recém-conquistada estabilidade financeira da América Latina." A frase resume a idéia central de matéria publicada ontem na revista britânica "The Economist", segundo a qual, investidores e analistas parecem compartilhar do ânimo positivo do presidente Lula em relação à crise financeira, apesar da queda de 17% no Ibovespa entre 23 de julho e 16 de agosto e de o real ter caído para a taxa simbólica de R$ 2,00. "O Brasil não teme essa crise. Ela é eminentemente americana", tem reiterado Lula, lembra a revista.
O artigo assume que a América Latina tem, há muito tempo, a reputação de ser um continente "subprime" que, de tempos em tempos, luta para pagar o dinheiro emprestado por 'credores irresponsáveis'. E lembra que o País passou por crises em 2002, 1999 e em 1998. Agora, a situação é diferente.
É claro, continua a revista, que há especuladores estrangeiros, muitos deles forçados a sair do Brasil para cobrir posições em outros lugares. Mas boa parte deles continua no País. E apesar das perdas no mercado de ações, o Ibovespa ainda acumula uma alta de 20% no ano. Isso se deve, sobretudo, ao superávit primário, que bateu a meta no primeiro semestre.
Graças à alta nos preços das commodities, o País também usufrui de superávit em conta corrente, com reservas da ordem de US$ 160 bilhões. "O Brasil é, agora, um credor de dólares, e isso significa que tem muito pouco a temer se o real se desvalorizar em relação ao dólar. Na verdade, um real mais fraco ajudaria os exportadores de manufaturados, que vêm reclamando do câmbio".
A "The Economist" ouviu Nuno Câmara, do Dresdner Kleinwort, que disse que assim que a poeira baixar, os países que fizeram a "lição de casa" verão os recursos retornarem. Esse grupo inclui ainda o Chile e o Peru. Entre os países de maior risco na região estariam Argentina, Equador e Venezuela, segundo os analistas ouvidos pela revista.
O artigo da The Economist é uma ótima oportunidade para reiterarmos aqui algumas posições: a primeira, e básica, é de o governo Lula não conseguiu fazer o “dever de casa” dos socialistas. Recebeu o país com os atuais postulados macroeconômicos, e os manteve. Se Lula tivesse adotado já no primeiro mandato tudo o que disse ser necessário enquanto foi oposição, estaríamos vivendo hoje o mesmo grau de risco que vivem Equador, Argentina e Venezuela, os três mais apegados à receita socialista, os quais efetivamente vivem turbulências internas na esfera econômica.
Segundo, é sobre o grau de risco. Ontem, Guido Mantega comemorava o fato do país estar a um passo do grau de investimentos. Contudo, esqueceu de olhar para o lado e ver que, neste patamar, já estão Chile, México, Índia, Rússia e China, os emergentes com os quais mais nos assemelhamos. E que, não por outra razão, estão vivendo estabilidades econômicas muito mais sólidas, e com índices de crescimentos muito mais robustos, a exceção talvez do México que ainda não sentiu os efeitos do tal grau de investimentos, muito embora, quando comparado a dez anos atrás, tenha crescido muito.
Terceiro, atingir o grau de investimento é um bom sinal, mas não é tudo. Há muito para ser feito para sermos alvo preferencial, ou em dosagem maior, de investimentos produtivos. A começar pela carga tributária perversa e surrealista – a burocracia – que está fora de compasso quando somos comparados exatamente aos mesmos parceiros em nível de “emergentes”, cuja média se situa em torno de 25%. Depois, a segurança jurídica. Precisamos discutir e adequar as agências reguladoras à uma visão moderna e não arcaica como presentemente se discute tanto internamente no Poder Executivo quanto no âmbito do Congresso Nacional. Precisamos entender que a agência reguladora serve não apenas para equilibrar as forças do mercado, mas também para dar a tal segurança jurídica tanto quanto a necessária transparência. Retroagir a influencia política sobre as agências não vai nos dar a abertura necessária para que os investidores se sintam seguros e atraídos.
A estabilidade econômica alcançada pelo país tem um custo que, no longo prazo, pode melar o jogo. A velocidade de crescimento da dívida interna. Em princípio ela não compromete a estabilidade na medida em que o superávit primário for sendo obtido, contudo, quanto maior a dívida, maior serão as capturas de recursos que o governo precisará provocar no Orçamento para cobrir o montante a pagar. Isto representa dizer que menor serão os recursos para investimentos públicos em educação, estradas, aeroportos e portos, segurança, saúde, saneamento básico, etc. Para manter os programas que o governo têm lançado precisará manter a arrecadação em seus atuais níveis, não deixando assim espaço algum para a redução da carga tributária, justamente o entrave maior para que os investimentos produtivos ocorram de forma natural e em maior quantidade.
E estes, já se sabe, são imprescindíveis levando-se em conta que o país historicamente tem um índice de desemprego muito alto, em torno de 10%, e precisa gerar a média de 1,5 milhões de novas vagas por ano, apenas para suprir a mão de obra nova que chega ao mercado de trabalho.
E já que falamos de mercado de trabalho aqui temos outro entrave que precisa ser olhado com mais carinho: estamos insistindo em continuar tributando excessivamente capital produtivo e trabalho. Sem desonerar ambos, fica cada vez mais difícil para o país formar uma poupança interna mais robusta para fortalecer seu próprio mercado. Não se pode contar com expansão e fortalecimento do mercado interno apenas contando como arma a oferta de crédito interno subsidiado. Isto é bom mas não é o melhor. O ideal é sempre a opção da expansão da massa salarial. E neste quesito estamos empacados e, sem mexer na desoneração não apenas das folhas de pagamento, mas também do próprio capital produtivo, fica inviável. Como tal desoneração também implica que o governo federal reduza custos correntes, para que possa ter espaço para redução da carga tributária, estamos entrando neste círculo vicioso cujo dano maior é manter a estabilidade econômica que é ótima, mas sem expansão do PIB, cujo crescimento permanecerá apenas vegetativo, sem adição nada além das novas forças que ingressam no mercado a cada ano.
Precisamos ver um pouco mais além, porque chegar à estabilidade e conseguir mantê-la foi um penoso trabalho iniciado ainda no governo Itamar Franco e depois sedimentada inteiramente nos oitos do governo Fernando Henrique, apesar de toda a oposição desencadeada por Lula e seu partido. Já no governo, Lula não teve nem coragem muito menos competência para avançar no projeto. A virtude foi manter o que encontrou. Porém, chegará o momento em que adiar mais o processo de reformas nos fará regredir em termos de qualidade de vida da população. Basta ver o colapso nas áreas da saúde, segurança e infra-estrutura, além da péssima qualidade de ensino que se constata nos exames de avaliação feitos pelo MEC.
Olhar para frente significa garantir às futuras gerações um país melhor. Porém, imprescindível que a ideologia política não interfira na agenda de reformas econômicas necessárias de serem feitas. Ou isto, ou estagnação. Se o que se deseja é um país melhor, não se pode concebe-lo tendo um em cada quatro brasileiros beneficiados pelo Bolsa-Família. Este clientelismo precisa oferecer uma ou mais portas de saída, porque se, do ponto vista político isto tem lá suas vantagens, do ponto de vista econômico, entretanto, é um verdadeiro desastre, seja pela manutenção do mercado interno pobre, seja pelos recursos humanos que deixam de se oferecer ao mercado em condições de competir. Isto, em um mundo de alta tecnologia, significa um terrível obstáculo à modernidade, e em conseqüência, à melhoria no padrão de vida de todos os brasileiros. Continuaremos desiguais como sempre fomos com o agravante de deixar escapar as oportunidades de nos melhorarmos por conta de nossa própria teimosia e incompetência. Se o preço político no presente é a popularidade alta de Lula, no futuro, este preço tende a se reduzir a zero. Ninguém o perdoará ter jogado no lixo o momento histórico de avançarmos. Por quê? Porque o progresso faz parte da essência humana.
Leiam o artigo a seguir. Retornamos depois para os comentários.
"O Brasil é o mais claro exemplo da recém-conquistada estabilidade financeira da América Latina." A frase resume a idéia central de matéria publicada ontem na revista britânica "The Economist", segundo a qual, investidores e analistas parecem compartilhar do ânimo positivo do presidente Lula em relação à crise financeira, apesar da queda de 17% no Ibovespa entre 23 de julho e 16 de agosto e de o real ter caído para a taxa simbólica de R$ 2,00. "O Brasil não teme essa crise. Ela é eminentemente americana", tem reiterado Lula, lembra a revista.
O artigo assume que a América Latina tem, há muito tempo, a reputação de ser um continente "subprime" que, de tempos em tempos, luta para pagar o dinheiro emprestado por 'credores irresponsáveis'. E lembra que o País passou por crises em 2002, 1999 e em 1998. Agora, a situação é diferente.
É claro, continua a revista, que há especuladores estrangeiros, muitos deles forçados a sair do Brasil para cobrir posições em outros lugares. Mas boa parte deles continua no País. E apesar das perdas no mercado de ações, o Ibovespa ainda acumula uma alta de 20% no ano. Isso se deve, sobretudo, ao superávit primário, que bateu a meta no primeiro semestre.
Graças à alta nos preços das commodities, o País também usufrui de superávit em conta corrente, com reservas da ordem de US$ 160 bilhões. "O Brasil é, agora, um credor de dólares, e isso significa que tem muito pouco a temer se o real se desvalorizar em relação ao dólar. Na verdade, um real mais fraco ajudaria os exportadores de manufaturados, que vêm reclamando do câmbio".
A "The Economist" ouviu Nuno Câmara, do Dresdner Kleinwort, que disse que assim que a poeira baixar, os países que fizeram a "lição de casa" verão os recursos retornarem. Esse grupo inclui ainda o Chile e o Peru. Entre os países de maior risco na região estariam Argentina, Equador e Venezuela, segundo os analistas ouvidos pela revista.
O artigo da The Economist é uma ótima oportunidade para reiterarmos aqui algumas posições: a primeira, e básica, é de o governo Lula não conseguiu fazer o “dever de casa” dos socialistas. Recebeu o país com os atuais postulados macroeconômicos, e os manteve. Se Lula tivesse adotado já no primeiro mandato tudo o que disse ser necessário enquanto foi oposição, estaríamos vivendo hoje o mesmo grau de risco que vivem Equador, Argentina e Venezuela, os três mais apegados à receita socialista, os quais efetivamente vivem turbulências internas na esfera econômica.
Segundo, é sobre o grau de risco. Ontem, Guido Mantega comemorava o fato do país estar a um passo do grau de investimentos. Contudo, esqueceu de olhar para o lado e ver que, neste patamar, já estão Chile, México, Índia, Rússia e China, os emergentes com os quais mais nos assemelhamos. E que, não por outra razão, estão vivendo estabilidades econômicas muito mais sólidas, e com índices de crescimentos muito mais robustos, a exceção talvez do México que ainda não sentiu os efeitos do tal grau de investimentos, muito embora, quando comparado a dez anos atrás, tenha crescido muito.
Terceiro, atingir o grau de investimento é um bom sinal, mas não é tudo. Há muito para ser feito para sermos alvo preferencial, ou em dosagem maior, de investimentos produtivos. A começar pela carga tributária perversa e surrealista – a burocracia – que está fora de compasso quando somos comparados exatamente aos mesmos parceiros em nível de “emergentes”, cuja média se situa em torno de 25%. Depois, a segurança jurídica. Precisamos discutir e adequar as agências reguladoras à uma visão moderna e não arcaica como presentemente se discute tanto internamente no Poder Executivo quanto no âmbito do Congresso Nacional. Precisamos entender que a agência reguladora serve não apenas para equilibrar as forças do mercado, mas também para dar a tal segurança jurídica tanto quanto a necessária transparência. Retroagir a influencia política sobre as agências não vai nos dar a abertura necessária para que os investidores se sintam seguros e atraídos.
A estabilidade econômica alcançada pelo país tem um custo que, no longo prazo, pode melar o jogo. A velocidade de crescimento da dívida interna. Em princípio ela não compromete a estabilidade na medida em que o superávit primário for sendo obtido, contudo, quanto maior a dívida, maior serão as capturas de recursos que o governo precisará provocar no Orçamento para cobrir o montante a pagar. Isto representa dizer que menor serão os recursos para investimentos públicos em educação, estradas, aeroportos e portos, segurança, saúde, saneamento básico, etc. Para manter os programas que o governo têm lançado precisará manter a arrecadação em seus atuais níveis, não deixando assim espaço algum para a redução da carga tributária, justamente o entrave maior para que os investimentos produtivos ocorram de forma natural e em maior quantidade.
E estes, já se sabe, são imprescindíveis levando-se em conta que o país historicamente tem um índice de desemprego muito alto, em torno de 10%, e precisa gerar a média de 1,5 milhões de novas vagas por ano, apenas para suprir a mão de obra nova que chega ao mercado de trabalho.
E já que falamos de mercado de trabalho aqui temos outro entrave que precisa ser olhado com mais carinho: estamos insistindo em continuar tributando excessivamente capital produtivo e trabalho. Sem desonerar ambos, fica cada vez mais difícil para o país formar uma poupança interna mais robusta para fortalecer seu próprio mercado. Não se pode contar com expansão e fortalecimento do mercado interno apenas contando como arma a oferta de crédito interno subsidiado. Isto é bom mas não é o melhor. O ideal é sempre a opção da expansão da massa salarial. E neste quesito estamos empacados e, sem mexer na desoneração não apenas das folhas de pagamento, mas também do próprio capital produtivo, fica inviável. Como tal desoneração também implica que o governo federal reduza custos correntes, para que possa ter espaço para redução da carga tributária, estamos entrando neste círculo vicioso cujo dano maior é manter a estabilidade econômica que é ótima, mas sem expansão do PIB, cujo crescimento permanecerá apenas vegetativo, sem adição nada além das novas forças que ingressam no mercado a cada ano.
Precisamos ver um pouco mais além, porque chegar à estabilidade e conseguir mantê-la foi um penoso trabalho iniciado ainda no governo Itamar Franco e depois sedimentada inteiramente nos oitos do governo Fernando Henrique, apesar de toda a oposição desencadeada por Lula e seu partido. Já no governo, Lula não teve nem coragem muito menos competência para avançar no projeto. A virtude foi manter o que encontrou. Porém, chegará o momento em que adiar mais o processo de reformas nos fará regredir em termos de qualidade de vida da população. Basta ver o colapso nas áreas da saúde, segurança e infra-estrutura, além da péssima qualidade de ensino que se constata nos exames de avaliação feitos pelo MEC.
Olhar para frente significa garantir às futuras gerações um país melhor. Porém, imprescindível que a ideologia política não interfira na agenda de reformas econômicas necessárias de serem feitas. Ou isto, ou estagnação. Se o que se deseja é um país melhor, não se pode concebe-lo tendo um em cada quatro brasileiros beneficiados pelo Bolsa-Família. Este clientelismo precisa oferecer uma ou mais portas de saída, porque se, do ponto vista político isto tem lá suas vantagens, do ponto de vista econômico, entretanto, é um verdadeiro desastre, seja pela manutenção do mercado interno pobre, seja pelos recursos humanos que deixam de se oferecer ao mercado em condições de competir. Isto, em um mundo de alta tecnologia, significa um terrível obstáculo à modernidade, e em conseqüência, à melhoria no padrão de vida de todos os brasileiros. Continuaremos desiguais como sempre fomos com o agravante de deixar escapar as oportunidades de nos melhorarmos por conta de nossa própria teimosia e incompetência. Se o preço político no presente é a popularidade alta de Lula, no futuro, este preço tende a se reduzir a zero. Ninguém o perdoará ter jogado no lixo o momento histórico de avançarmos. Por quê? Porque o progresso faz parte da essência humana.