sexta-feira, agosto 17, 2007

A poltrona do ministro

Villas-Bôas Corrêa, Jornal do Brasil
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Parece razoável o cuidado do ministro da Defesa, Nelson Jobim, com o conforto dos passageiros da nossa frota aérea reclamado pelas suas dimensões avantajadas. Pelo visto, não é a altura de 1,90m a responsável pelo aborrecimento ministerial, mas o embaraço para o encaixe do quadril, proporcional ao talhe acima dos padrões nacionais.

O que soa como nota dissonante a ferir os tímpanos é a prioridade de um problema secundário, uma irrelevância no painel da crise que apenas amenizada, continua a desafiar a dureza das cobranças do exigente ministro e que pode desviar a sua atenção do principal para o detalhe, que deveria esperar a sua vez no fim da fila.

E, forçando a mão, é como começar a construção de um edifício pelas portas e janelas penduradas no espaço. Depois, francamente, com a cota indispensável de bom senso, não é tão difícil negociar, por exemplo, uma ou duas filas de cadeiras especiais para os passageiros de 1,90m para cima, como os campeões do vôlei e a turma dos espanadores do céu.

Pois, com ou sem o caso das poltronas na agenda das urgências, com o ministro batendo na mesa e falando com energia, a crise do sistema aéreo, dramatizada com as duas tragédias com mais de três dezenas de vítimas, ainda está muito longe de deslizar pelos aeroportos sob suspeita.

Como peteca em roda de aprendizes, a reforma do Aeroporto de Congonhas continua empacada no atoleiro das dúvidas. Inconformadas, as empresas aéreas apelaram ao ministro da Defesa para que atenue as restrições ao seu uso, reivindicando a fixação do espaço de uma hora entre o desembarque e o novo embarque para a segunda etapa da viagem.

O ministro Jobim adiou a resposta. Receia que as companhias tentem burlar a proibição terminante de conexões, responsáveis pelos engarrafamentos dos pousos e decolagens.

Prudência compreensível: o Aeroporto de Congonhas, com a sistemática degradação pelo excesso de vôos e de passageiros, não suportaria a reação indignada da opinião pública diante de um novo acidente. E as reformas corretivas das pistas ainda não terminaram.

Ninguém se entende em meio à balbúrdia. No centro do tiroteio de críticas e cobranças ao seu desempenho ao longo dos anos, o presidente da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Milton Zuanazzi, reclamou do tratamento injusto e discriminatório que lança todas as culpas pela crise do apagão aéreo ao setor sob a sua responsabilidade.

Recebeu o troco do senador Garibaldi Alves (PMDB- RN):

- A quem então vamos responsabilizar? Não se trata de fazer a Anac de bode expiatório, mas de dar a César o que é de César.

Não perece fácil nem conveniente desviar a atenção para a caça às bruxas, que continuam soltas, à espreita da fresta para salvar a pele e o cargo. Pois o que a barafunda do sistema aéreo está demonstrando, de alto a baixo, da cúpula ocupada por sucessivos ministros, é que nenhum jamais perdeu o tempo dedicado à ociosidade burocrática para examinar, analisar, debater, buscar soluções de uma crise que levou anos para explodir.

Buscar culpados é desperdiçar a oportunidade de fazer alguma coisa. Em princípio, todos são culpados na cadeia de irresponsabilidade. E para ir à ponta do fio, a criação do Ministério da Defesa, no governo de FH, é pelo menos questionável.

O presidente Lula cultiva a manhosa astúcia de atribuir aos antecessores a responsabilidade por tudo que desanda nos quatro anos e sete meses dos dois mandatos. Não fugiu do louvável costume.

Por tal atalho não iremos a lugar nenhum. Como o novo ministro da Defesa desfruta da fama de eficiente e enérgico na cobrança das suas ordens, merece o crédito de confiança com que vem sendo acompanhada a sua agitada movimentação.

Mas não vamos exagerar. A implicância com as poltronas é um bom tema para piadas.

E a hora não está para gracinhas.