terça-feira, setembro 25, 2007

Analistas vêem favorecimento da Argentina à Venezuela

Reportagem de Marcia Carmo para a BBC Brasil apresenta uma análise preocupante: a de que o fechamento parcial em uma unidade da Petrobrás na Argentina tenha a mão pesada de Chavez. E análise é feita por argentinos, portanto, com mais probabilidades de estarem, por estarem mais próximos do governo argentino.

Não há nenhuma surpresa nesta facada de Chavez no “amigo Lula”. O venezuelano sempre esteve por trás do índio boliviano Evo Morales na ação de expropriação da Petrobrás na Bolívia, como também comanda processo de eliminação da estatal brasileira no Equador. Isto não é novidade para ninguém, a não ser para Lula que faz tempo esqueceu-se, em sua política externa, de que o presidente do Brasil é ele mesmo, e que por isto, antes de fazer caridade com o chapéu alheio para quem quer mais que nos arrebentemos, deveria zelar pelo interesse do Brasil, e não ficar fazendo proselitismo com os vizinhos que sempre nos deram uma banana.

Talvez um dia, quando já estiver afastado da presidência e volte à realidade do mundo fora do poder, Lula se convença que, neste quesito, esteve muito longe de honrar a tradição histórica brasileira, ou seja, ser amigo de todos sem alinhamentos ideológicos com ninguém, preservando sempre o maior interesse do país.

Veja-se o caso do gasoduto Venezuela-Argentina. Em que ele nos beneficiaria? Em nada. Apenas utilizaria o território nacional, de ponta a ponta, para desaguar no país portenho. Se Chavez quer vender gás para os argentinos, que ele engarrafe e envie pelo correio. Inadmissível é o Brasil continuar levando pontapé no traseiro, enquanto Chavez vai restringindo cada vez mais a ação da Petrobrás em proveito de sua estatal petrolífera.

Segue a reportagem da BBC Brasil.

Dois analistas políticos argentinos disseram nesta terça-feira, em uma coletiva em Buenos Aires, que o governo do presidente Néstor Kirchner quer evitar o crescimento da Petrobras no país para “favorecer” a Venezuela.

Eles comentaram a decisão da Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do governo argentino, que decidiu na segunda-feira fechar de “forma parcial e preventiva” diferentes setores de um depósito de combustível da Petrobras na Província de Buenos Aires.

A decisão foi tomada quando a imprensa argentina informa que a Petrobras “disputa” com a estatal ENARSA a compra dos postos de gasolina da Esso no país.

A ENARSA entraria no negócio numa parceria com a petroleira venezuelana PDVSA, como informaram os jornais argentinos.

“A oposição do governo argentino a que a Petrobras compre a Esso é um fato político concreto”, disse Rosendo Fraga, da consultoria Nova Maioria. “E isso deixa claro que a Argentina, nos assuntos concretos e de seu interesse, está jogando a favor e com a Venezuela”, completou.

Para Graciela Römer, da Römer e Associados, a Argentina depende hoje dos “petrodólares” do governo do presidente venezuelano Hugo Chávez. “E o governo Kirchner fará de tudo para manter esta boa relação com Chávez.”

Comunicado
Segundo a agência oficial de noticias argentina, a Telam, a decisão da Secretaria argentina contra a Petrobras foi tomada por causa de "derramamentos de hidrocarbonetos e perdas visíveis em tanques de depósito".

De acordo com a agência, em "sucessivas inspeções" foram encontrados dez tanques de aproximadamente 20 mil litros cada um "sobre chão natural", além de 75 outros tambores que também estariam em situação irregular.

A Petrobras divulgou um comunicado, nesta terça-feira, limitando-se a informar que está garantido o abastecimento no mercado argentino e que está intensificando o plano de controle “periódico” no setor para resolver “o quanto antes” as observações das autoridades argentinas.

Para Rosendo Fraga, o episódio com a empresa brasileira confirma que “nos últimos meses” a Argentina está “mais perto” da Venezuela do que do Brasil. Na sua opinião, nos quatro anos e meio da gestão Kirchner, a Argentina manteve um “pêndulo” entre os dois países.

“Mas na hora das decisões concretas, a Argentina joga com a Venezuela”, completou, citando como exemplos as discussões sobre o Banco do Sul e do Gasoduto do Sul, além dos biocombustíveis.

“Hoje, a relação da Argentina com a Venezuela é menos ideológica e mais pragmática. Afinal, a Argentina depende dos petrodólares do governo Chávez”, disse Römer.

Desde que decidiu rejeitar as receitas do FMI (Fundo Monetário Internacional), recordam diferentes economistas do país, a Argentina vem “dependendo” da compra de títulos públicos realizadas pelo governo Chávez.