quarta-feira, outubro 24, 2007

O padre que só perdoa bandido

Augusto Nunes, Jornal do Brasil

Vítima de extorsão se irrita com quem quer saber a origem da bolada que sumiu
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O Padre Júlio Lancellotti mandou dizer aos repórteres, na tarde de segunda-feira, que não é hora de entrevistas. "Ele está muito triste", explicou o portador do recado. Razões para entristecer-se é o que não lhe falta. Havia quase três anos, o religioso, que lidera a Pastoral do Povo da Rua e a Pastoral do Menor, dirige a ONG Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto e defende incansavelmente os direitos humanos dos delinqüentes juvenis vinha sendo sangrado, na alma e nas contas bancárias, por um ex-interno da Febem que sempre tratara com o carinho de amigo de infância.

Lancellotti contou à polícia que, em 2005, um assassino mirim chamado Anderson Batista ameaçou acusá-lo de abusar sexualmente de seu enteado, um menino de 8 anos, se não recebesse um bom dinheiro do antigo protetor. Embora protestasse inocência já na primeira conversa, o padre não procurou a polícia. Preferiu procurar o talão de cheques.

Além do R$ 1 mil que recebe da Igreja, desde 1975 Lancellotti ganha R$ 2.480 por mês da antiga Febem. Não é muito. Mas extorsão é extorsão, e a vítima acabou pagando o aluguel de uma casa, uma bicicleta, uma moto, um terreno, uma viagem à praia e uma Mitsubishi Pajero. Tudo somado, calcula ter desembolsado pouco mais de R$ 50 mil. A polícia acha que a bolada passou de R$ 80 mil.

Na segunda-feira, os jornalistas acharam natural o estado de ânimo do padre até que o mensageiro revelou os motivos de tamanha infelicidade. Lancellotti não está triste com o extorsionário e seus cúmplices. Nem com a queima de muitos milhares de reais no altar do satã capitalista que induz ao crime os meninos de Deus. O padre está triste só com jornalistas e policiais que insistem em saber a origem do dinheiro.

"Você pega o padre Júlio e bota ele para cuidar de criança, ele vai cuidar melhor do que qualquer aparelho de Estado", ensinou há pouco tempo o presidente Lula. Pelo menos com Anderson, os métodos do religioso não deram certo. E a conta da gastança acabou espetada na ONG Bom Parto, abastecida com R$ 500 mil mensais pela prefeitura de São Paulo.
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A versão piorada de Jim das Selvas
Se tivesse um punhado de anos e algumas arrobas a menos, Nelson Jobim provavelmente teria aparecido na Amazônia fantasiado de Tarzan. A passagem do tempo e o excesso de peso sugeriram ao ministro da Defesa conformar-se em ressuscitar Johnny Weissmuller já na sua fase crepuscular.

Proibido pela idade de viajar por cipós, o mais célebre Tarzan de Hollywood trocou a tanga pelo slack para virar ­ a contragosto ­ Jim das Selvas. Proibido pela obesidade precoce de sonhar com Janes e wambesis, o artista gaúcho criou por conta própria uma versão brasileira do personagem. E pousou na Amazônia o Jobim das Selvas.

Aventuras protagonizadas por heróis sessentões provocam sono na platéia. Foi por isso que Jim das Selvas reassumiu a identidade de Weissmuller e voltou para casa. É por isso que Jobim das Selvas terá de voltar ao local de trabalho e retomar o expediente. Passou da hora de encerrar a comédia na mata e enfrentar o drama do apagão. A aviação civil continua uma áfrica. Que não precisa de heróis, mas de ministros mais aplicados. E menos exibicionistas.