quarta-feira, outubro 24, 2007

Atrás de apoio, governo quer mudar LRF

Leandro Beguoci, Folha de São Paulo

Planalto estuda ampliar limite de endividamento dos Estados no momento em que precisa dos governadores para aprovar CPMF
Medida tem o apoio dos especialistas; "Mudança separa e responsabiliza cada poder", afirma o Economista Raul Velloso

O governo federal pretende mudar a LRF (Lei de Responsabilidade Fiscal) para ampliar o limite de endividamento dos Estados. A proposta vem em momento no qual o Palácio do Planalto precisa de apoio dos governadores e da oposição para prorrogar a CPMF no Senado. A medida é bem-vista por especialistas.A mudança desejada pelo governo pretende separar o limite de gastos com pessoal por poder, conforme a Folha noticiou no início deste mês. Hoje, essas despesas nos Estados não podem ultrapassar 49% da receita líquida corrente no caso do Executivo, 6% no Judiciário, 3% no Legislativo e 2% no Ministério Público.

Receita líquida corrente é tudo o que é arrecadado menos o que deve ser repassado aos municípios e a contribuição dos servidores para o custeio do seu sistema de previdência e assistência social.

Os tetos específicos compõem o teto geral. Se um deles ultrapassar o limite total, ninguém pode pedir novos empréstimos -o que atrapalha principalmente o Executivo, que precisa de dinheiro para tocar obras e projetos. "A mudança separa e responsabiliza cada poder", afirma Raul Velloso, especialista em contas públicas. "Se o Judiciário não cumpre e estoura o limite, prejudica o Executivo, como no Rio Grande do Sul."

Sergipe poderia tomar emprestados R$ 500 milhões se a regra fosse alterada. No Estado, o Ministério Público e o Legislativo não cumprem a lei.

AnáliseGeraldo Biasoto Jr., professor licenciado da Unicamp e atual presidente da Fundap (Fundação do Desenvolvimento Administrativo) do Estado de São Paulo, diz achar a mudança legítima (pelos mesmo motivos de Velloso), mas destaca um problema.

"Isso também vai permitir que os outros órgãos aumentem seus gastos", afirma Biasoto. "Além disso, há o problema de enviar a proposta em ano eleitoral. Na hora em que você manda uma medida para o Congresso, todo mundo se sente autorizado a discutir tudo e a lei pode ser mal flexibilizada, pelo momento político."

Para o especialista em contas públicas Amir Khair, que foi secretário na gestão petista de Luiza Erundina (hoje no PSB), a medida também é positiva, mas não ataca o essencial.

"A mudança procede porque quem está sendo punido é quem cumpre a sua parte [o Executivo]", diz Khair. "O problema é que as punições são muito brandas. Se a punição fosse mais dura contra o governante, o juiz ou o deputado que viola a lei, talvez não fosse preciso mexer no endividamento."

O economista José Roberto Afonso, ligado ao governador de São Paulo, José Serra (PSDB), acha que há outros itens importantes que podem ser aperfeiçoados. "Seria bom o governo federal aproveitar pra aprovar limite para a dívida federal, perdido no Senado, e projeto para reduzir gasto pessoal, abandonado na Câmara."

Câmara aprova MP que permite repasse a Estados
A Câmara dos Deputados aprovou na noite de ontem a medida provisória que permite ao governo federal repassar às unidades da federação recursos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) mesmo que a decisão esteja em desacordo com as regras da LRF (Lei de Responsabilidade Fiscal).

A oposição tentou derrubar o ponto central da medida, apresentando uma emenda, mas foi derrotada por 249 votos a 90.

O texto segue para o Senado. Pela MP, o Executivo passa a tratar como "obrigatórias", e não "voluntárias", as transferências de recursos do PAC. As "voluntárias" estão sujeitas a regras da LRF.