Julio Gomes de Almeida (*), Terra Magazine
Certas notícias não encontram repercussão no noticiário econômico dado o momento de quase euforia que vive a economia brasileira. É exemplo o cancelamento do projeto de expansão da única empresa que fabrica papel de imprensa no país. O anúncio mereceu apenas uma pequena nota no caderno de negócios de um jornal de grande circulação. O motivo foi o aumento do custo do investimento. Para muitos, a forte valorização do Real como ocorreu no ano passado (e que vem ocorrendo nesse ano) favorece o investimento porque reduz o seu custo, mas essa é apenas uma meia verdade. O que a valorização causa é uma redução do custo em Reais da importação de bens de capital, um item do custo do investimento, mas não o único dado da questão a ser considerado.
Todos os itens do investimento que não são importados, como os gastos com construções e instalações e os equipamentos de fornecimento local, têm seus custos em dólar ampliados com a valorização, o que pode levar a um grande aumento do custo global da inversão, dependendo da composição do investimento entre fornecimento local ou externo. Em setores intensivos em capital essa possibilidade ganha vulto e pode fazer com que a opção pelo investimento não recaia sobre o Brasil que nessa hipótese perde o investimento e a produção e o emprego a ele associados para outro país de destino do projeto.
O maior valor do Real, portanto, pode reduzir o atrativo de inversões, chegando a inviabilizar um investimento e afugentá-lo do país. É claro que tudo dependerá do setor ao qual se refere o investimento, das alternativas da localização do projeto e se é possível destinar exclusivamente para o mercado interno a sua produção. Em dólar, esta também encarece com a valorização do Real, retirando competitividade do produto nacional a menos que se trate de um produto de grande valorização nos mercados internacionais ou, se é destinado ao mercado interno, não haja concorrência com a importação.
Investimentos não tão intensivos em capital, com vantagens comparativas naturais inequívocas ou voltados para o mercado interno e para a produção de bens não comercializáveis, eis para onde nos leva a excessiva valorização da moeda. Delimitar assim os investimentos produtivos é tudo o que os países emergentes de industrialização mais agressiva não fazem em um mundo globalizado.
Quanto à redução de custos dos bens de capital importados, que inegavelmente é favorecida pela queda do dólar, com menor ônus para o setor o público, o mesmo resultado poderia ser obtido com a desoneração de impostos que recaem sobre os investimentos, incluindo os itens importados. No Brasil as inversões ainda pagam impostos que somente são recuperados ao longo do tempo como nos casos do ICMS e do PIS/Cofins. A alternativa de desoneração teria a vantagem de baratear não só os itens do investimento que podem ser importados, como também os de origem doméstica, retirando o viés do câmbio em prol da substituição da produção interna de bens de capital pela importação que já está ocorrendo em larga escala embora com efeitos amortecidos pelo grande crescimento do setor.
Essa face do câmbio em um momento em que a economia brasileira apresenta um crescimento maior e níveis mais elevados de investimento pode não ser tão evidente como os benefícios de barateamento dos produtos importados, dos investimentos no exterior e das viagens internacionais propiciadas pela valorização da moeda. Mas nem por isso deveria deixar de merecer total atenção das autoridades. Do contrário, podemos estar moldando uma especialização a longo prazo da economia contrária a uma industrialização mais plena. Passado o presente ciclo de expansão conduzido pelo mercado interno, uma especialização como essa pode se revelar um caminho equivocado para a economia do país e de reversão muito difícil e custosa.
(*) Júlio Gomes de Almeida é professor da Unicamp e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.
Certas notícias não encontram repercussão no noticiário econômico dado o momento de quase euforia que vive a economia brasileira. É exemplo o cancelamento do projeto de expansão da única empresa que fabrica papel de imprensa no país. O anúncio mereceu apenas uma pequena nota no caderno de negócios de um jornal de grande circulação. O motivo foi o aumento do custo do investimento. Para muitos, a forte valorização do Real como ocorreu no ano passado (e que vem ocorrendo nesse ano) favorece o investimento porque reduz o seu custo, mas essa é apenas uma meia verdade. O que a valorização causa é uma redução do custo em Reais da importação de bens de capital, um item do custo do investimento, mas não o único dado da questão a ser considerado.
Todos os itens do investimento que não são importados, como os gastos com construções e instalações e os equipamentos de fornecimento local, têm seus custos em dólar ampliados com a valorização, o que pode levar a um grande aumento do custo global da inversão, dependendo da composição do investimento entre fornecimento local ou externo. Em setores intensivos em capital essa possibilidade ganha vulto e pode fazer com que a opção pelo investimento não recaia sobre o Brasil que nessa hipótese perde o investimento e a produção e o emprego a ele associados para outro país de destino do projeto.
O maior valor do Real, portanto, pode reduzir o atrativo de inversões, chegando a inviabilizar um investimento e afugentá-lo do país. É claro que tudo dependerá do setor ao qual se refere o investimento, das alternativas da localização do projeto e se é possível destinar exclusivamente para o mercado interno a sua produção. Em dólar, esta também encarece com a valorização do Real, retirando competitividade do produto nacional a menos que se trate de um produto de grande valorização nos mercados internacionais ou, se é destinado ao mercado interno, não haja concorrência com a importação.
Investimentos não tão intensivos em capital, com vantagens comparativas naturais inequívocas ou voltados para o mercado interno e para a produção de bens não comercializáveis, eis para onde nos leva a excessiva valorização da moeda. Delimitar assim os investimentos produtivos é tudo o que os países emergentes de industrialização mais agressiva não fazem em um mundo globalizado.
Quanto à redução de custos dos bens de capital importados, que inegavelmente é favorecida pela queda do dólar, com menor ônus para o setor o público, o mesmo resultado poderia ser obtido com a desoneração de impostos que recaem sobre os investimentos, incluindo os itens importados. No Brasil as inversões ainda pagam impostos que somente são recuperados ao longo do tempo como nos casos do ICMS e do PIS/Cofins. A alternativa de desoneração teria a vantagem de baratear não só os itens do investimento que podem ser importados, como também os de origem doméstica, retirando o viés do câmbio em prol da substituição da produção interna de bens de capital pela importação que já está ocorrendo em larga escala embora com efeitos amortecidos pelo grande crescimento do setor.
Essa face do câmbio em um momento em que a economia brasileira apresenta um crescimento maior e níveis mais elevados de investimento pode não ser tão evidente como os benefícios de barateamento dos produtos importados, dos investimentos no exterior e das viagens internacionais propiciadas pela valorização da moeda. Mas nem por isso deveria deixar de merecer total atenção das autoridades. Do contrário, podemos estar moldando uma especialização a longo prazo da economia contrária a uma industrialização mais plena. Passado o presente ciclo de expansão conduzido pelo mercado interno, uma especialização como essa pode se revelar um caminho equivocado para a economia do país e de reversão muito difícil e custosa.
(*) Júlio Gomes de Almeida é professor da Unicamp e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.