quarta-feira, abril 02, 2008

Lula inicia campanha: terceiro mandato

Pedro do Coutto, Tribuna da Imprensa

Ao afirmar em Recife, no lançamento de obras do PAC, que vai eleger seu sucessor - manchete principal na Tribuna da Imprensa e "O Globo", de ontem -, o presidente Lula claramente detonou a campanha eleitoral para as eleições de 2010, antes mesmo do início da campanha para o pleito municipal deste ano.

Como até hoje não vi presidente algum antecipar o debate em torno de sua própria sucessão, passo a acreditar que a busca de um caminho para o terceiro mandato ingressou no plano das cogitações do presidente da República. Antecipar o debate sucessório, não existisse pelo menos a perspectiva de um projeto, significaria o enfraquecimento político do atual ocupante do Palácio do Planalto. Nenhum antecessor seu fez isso.

Não antecipou. Ao contrário. Os presidentes sempre adiaram ao máximo a definição a respeito da disputa sobre quem os sucederiam. Juscelino protelou o quanto pôde o início do movimento. Eleito em 55, empossado em 56, só começou a tratar das eleições de 60 no início daquele ano, portanto período final de seu mandato.

Como para que se cumprisse a decisão do eleitorado, em 55, houve necessidade de dois movimentos político-militar (os impedimentos do presidente em exercício Carlos Luz e do presidente Café Filho, nos episódios de 11 e 21 de novembro), JK me disse - entrevista para o "Correio da Manhã" -_ que era necessário superar as rupturas ocorridas no sistema militar.

Estas rupturas sucederam em agosto de 54 com o suicídio de Vargas e o afastamento dos presidentes que imediatamente o sucederam. Kubitschek propunha uma unificação à base do apaziguamento, aliás como era de seu estilo. Foi um político extraordinário, um homem de visão, um contemporâneo do futuro, como o classificou em belo discurso na Câmara o deputado Paulo Pinheiro Chagas.

Nesse sentido, JK tentou a candidatura de Juraci Magalhães. Mas o governador da Bahia era da UDN. Para que pudesse se aliar ao PSD, partido do presidente, precisava derrotar Jânio Quadros na convenção udenista. Não conseguiu. No desfecho realizado no Palácio Tiradentes, atual sede da Alerj, Jânio Quadros, com o apoio vibrante de Carlos Lacerda, o derrotou por 70 por cento a 30. Juraci, com isso, tornou-se um nome inviável para o processo de coalizão. Até porque na convenção da UDN houve, isso sim, uma colisão.

O partido manteve sua tradicional postura de oposição a JK. Juraci Magalhães saiu de cena. Explodiram então pressões do segmento militar que levaram tanto o PSD quanto o PTB a escolherem como candidato o general Teixeira Lott, ministro do Exército. Passou a pasta ao general Odilo Denys, na realidade o principal líder dos movimentos de 11 e 21 de novembro de 55. Juscelino, que não desejava a candidatura Lott, procurou ganhar tempo e espaço. Chegou a colocar nos jornais notícias de que seria melhor Tancredo Neves, então diretor de Resseguros do Banco do Brasil. Mas o general Denys vetou a manobra. Tancredo foi disputar o governo de Minas. O PSD não teve outro caminho do que o de apoiar Lott.

A mesma coisa ocorreu com o PTB de João Goulart. Naquele tempo o poder central repousava fundamentalmente no suporte militar. Até porque a oposição era comandada pelo deputado Carlos Lacerda. Imaginem os leitores o que faria hoje Lacerda na oposição.

JK tinha certeza de que Lott perderia. Jango também. Goulart aliou-se parcialmente a Jânio Quadros, aceitando a chapa Jan-Jan principalmente em São Paulo e no Paraná. Juscelino me disse, outra vez para o "Correio da Manhã", que iria agir como magistrado. Retirou o time de campo.

O projeto de Juscelino, como todos sabem, era voltar em 65. Não conseguiu. Infelizmente para o Brasil. Se o exemplo de JK não for suficiente para o que estou sustentando, acrescento o de Vargas. Não no desfecho trágico de agosto de 54, mas em outros momentos. Um deles, por coincidência do destino, em agosto de 44. Mas há um primeiro. Eleito indiretamente pelo Legislativo presidente da República pela Constituinte de 34, Vargas protelou ao máximo sua opção pela candidatura José Américo de Almeida que enfrentaria Armando Sales de Oliveira em 38.

Em novembro de 37, deu um golpe de estado, com base na ameaça comunista de 35, e jogou para o espaço a sucessão de 38. A mulher, que iria pela primeira vez às urnas naquele ano, teve seu legítimo projeto adiado para dezembro de 45. Mas falei num segundo agosto. Pois é, também 24, mas de 1944.

Aproximava-se o final da Segunda Guerra e Vargas não podia mais, face ao contexto internacional, manter a ditadura absoluta que havia imposto ao País em 37. Crescia o movimento para as eleições e, com ele, a candidatura de Oswaldo Aranha, então ministro das Relações Exteriores. Vargas desejava ser, mais uma vez, o sucessor de si mesmo. O que planejou?

Aranha comparece a uma solenidade no Clube da América, entidade de apoio aos EUA, e o chefe de Polícia, Coriolano de Góes, suspende a solenidade e fecha o clube. Não podia fazer isso com, Aranha presente ministro de Estado. Mas fez. Oswaldo Aranha entregou o cargo.

Vargas manteve-se no poder até outubro de 45. Foi deposto no dia 29. Elegeu seu sucessor, Dutra, mas somente divulgou seu apoio duas semanas antes das eleições. Os exemplos da história - sempre ela em nossas vidas - mostram que nenhum presidente desencadeia o processo de sua sucessão antecipadamente. Se Lula o fez, é porque ele, Luis Inácio, é o candidato.

Difícil conseguir êxito. Mas vai tentar.