quarta-feira, abril 02, 2008

Nenhum emergente foi afetado pela crise americana

Adelson Elias Vasconcellos

Alguns dias atrás, comentando a crise do subprime, e a forma como ela repercutiu nos Estados Unidos e nas principais economias da Comunidade Européia, afirmei que a crise estava, por enquanto, circunscrita a estas economias, cujos bancos centrais já haviam jogado no mercado financeiro, bilhões de dólares, como forma de conter o nervosismo e a instabilidade dos mercados.

Por muito tempo, e de certa forma ainda o faz, Lula cantou marra de que o Brasil não foi afetado pela turbulência, por conta de seus acertos na condução do país.

De certo modo, Lula acertou quando resolveu não mexer na economia herdada do governo anterior. Quem ganhou ?Todos nós, porque resolveu seu discurso de mais de 20 anos de militância política na oposição, sua ação xiita, neste tempo, se adotada, teve levado o país à ruína. Assim, conservando o que se via que produzia resultado positivos.

Só que os postulados sobre os quais se assentam os acertos que nos garantem a atual estabilidade econômica, não foram implantados por Lula coisa nenhuma. Quando o governo anterior fez o que precisava ser feito, e o resultado aí está, O Tinhoso se posicionou totalmente a qualquer coisa. Ironicamente, o maior beneficiado político de tudo o que combateu é ele mesmo...

Contudo, que vale ser destacado nem são estes detalhes: perguntei ali atrás, e torna a perguntar que me apontem, dentre os emergente, qual país foi atingido? Até agora, e rigorosamente, NENHUM. Sendo assim, os efeitos negativos não chegaram aqui (não,por enquanto e se espera que nem cheguem). E isto a quem devemos agradecer? Aos próprios países abalados pela crise, Estados Unidos e Comunidade Européia, com destaque para França, Alemanha e Reino Unido, incluindo-se neste bloco o Japão. Alan Greespan, ex todo poderoso do Federal Reserve, o Banco central americano, disse que a crise atual era pior do que a quebradeira de 1929. Não, ela passa longe disto e, entre um período e outro, há um diferença de quase 80 anos, nos quais o mundo mudou muito, e ficou mais fortalecido para enfrentar crises deste tipo. Além disto, as crises que, aí sim, de liquidez vividas pelos principais emergentes na segunda metade da década passada, a que se seguiu meia década de intensa prosperidade, em todos os mercados, também serviram para fornecer mais combustível que permitisse, agora, sofrer alguns arranhões, mas passando muito longe de um débâcle do sistema capitalista.

E,por detrás desta situação em que a crise não afetou os países emergente, há sim uma certa lógica. Ocorre que, todas as grandes economias que listamos acima, tem negócios e investimentos de vulto nos principais países emergentes. Diante de uma crise destas, se acaso não tivesse havido pronta ação dos bancos centrais, aí sim, o risco seria imenso, e todos seriam afetados. Como os investimentos nos emergentes produzem resultados positivos, melhor manter-se ativos tais ações, para que se possa com os lucros de um lado, cobrir os prejuízos de outro. Além disto, muitos emergentes são grandes exportadores de comoditties que continuam com seus preços elevados, como ainda se tornaram negócios atraentes para os investidores.

No caso brasileiro, além das comoditties, também os elevados juros internos, servem como forma de atração, e não de repulsão para atravessar turbulências. A partir da renegociação da dívida externa brasileira, levada a cabo pelo ex-ministro Pedro Malan, a comunidade financeira internacional passou a confiar no Brasil, já que seguimos um receituário ortodoxo, porém eficiente.

Assim, não fica muito honesto agora Lula querer cumprimentar com o chapéu alheio, já que a economia em seu governo,permanece exatamente com a mesma estrutura e obedecendo os mesmos postulados implementados a partir do Plano Real.

A reportagem que reproduzimos abaixo vem consagrar exatamente o que acabamos de afirmar. Ou seja, a crise não nos atingiu como de resto também não atingiu nenhum dos demais emergentes. E este se deve, fundamentalmente, a ação dos bancos centrais americano e europeus, que impediram que houvesse um alargamento da crise.

Claro que, se houver drasticamente redução nos preços atuais das comoditties, isto tende a provocar um turbilhão para países que se sustentam seu desenvolvimento, basicamente, a partir da exportação em grandes volumes de minérios, grãos (principalmente, soja) e petróleo. Neste caso, os investidores,não todos mas uma grande maioria, tenderiam a desviar suas aplicação para outros destinos que apresentarem, além do lucro, segurança às suas aplicações. E, novamente, o Brasil tende a se beneficiar, no curto prazo, em razão dos juros que pratica.

O perigo, porém, é que tal política não se sustenta no médio e longo prazos. Primeiro, porque eleva muito a divida interna do país, e face aos juros praticados, torna mais oneroso o serviço da dívida, obrigando o governo a elevar seu superávit primário que, em contrapartida, obrigará aos países a reduzirem seus recursos para investimentos. Imaginem a conseqüência disto num país com as carências imensas que enfrentamos !!!

Portanto, enquanto a crise permanecer atrapalhando a vida dos países desenvolvidos, nada há a temer. Nem o Brasil nem os demais emergentes. Mas é bom ficarmos atentos: períodos de instabilidade requer prudência de parte de todos. Isto representa dizer que, não faria mal algum nossos governantes se conterem um pouco em seus gastos correntes para fortalecer sua poupança (aqui excluídos os investimentos), porque a volatilidade dos mercados não permite a ninguém descuidar-se. O superávit comercial brasileiro vem perdendo terreno e se reduzindo com muita velocidade, o que abre um flanco perigoso, por nos deixar dependentes dos humores do mercado. Queda nos preços das comodities acabariam produzindo um efeito negativo no país que, novamente, se veria obrigado a pisar no freio do seu crescimento. Rezemos para que não cheguemos a tal ponto. Cautela é a melhor conselheira nestes tempos de total insegurança. Ninguém sabe que bicho vai dar esta maluquice toda... Até porque seria uma insensatez alguém imaginar que os países desenvolvidos ficarão de braços cruzados diante da turbulência atual, como também não existe blindagem 100% segura.

Recessão nos EUA não afetará emergentes, diz megainvestidor no "FT"
BBC Brasil

Os mercados emergentes, como o Brasil, deverão ser poupados dos efeitos da atual crise nos mercados financeiros internacionais e da possível recessão americana, na avaliação do megainvestidor Mark Mobius, que assina artigo sobre o tema na edição desta terça-feira do diário econômico "Financial Times".

"Parece que há uma grande dissonância entre o que está acontecendo nos mercados emergentes e as notícias assustadoras sobre o "subprime" (crédito imobiliário de alto risco) vindas dos mercados nos Estados Unidos e no Reino Unido", observa Mobius, que administra um portfólio de US$ 40 bilhões em investimentos em mercados emergentes.

Segundo ele, "a evidência até agora parece indicar que não somente a América Latina, mas os mercados emergentes em geral, não precisam necessariamente sucumbir à recessão americana".

O artigo comenta que os países emergentes deverão crescer em média 7% neste ano, enquanto que nos países desenvolvidos a previsão de crescimento é de pouco mais de 2%.

"Não será possível que o crescimento dos mercados emergentes faça um pouco de cócegas nos gigantes econômicos do mundo?", questiona o autor. "De fato, o aspecto mais animador do crescimento dos mercados emergentes é o fato de que os dois países mais populosos do mundo são os que mais crescem.

Curta duração
Mobius também argumenta que, qualquer que seja o desenvolvimento da atual crise, um eventual momento negativo nos mercados não deverá durar muito.

"Nossos estudos sobre os mercados emergentes indicam que os períodos de alta duram mais do que os períodos de baixa e promovem ganhos mais altos, em termos percentuais, do que as quedas nos períodos de baixa", afirma o megainvestidor.

Segundo ele, nos últimos 20 anos houve oito diferentes períodos de alta e de baixa. Os períodos de baixa duraram em média sete meses, com uma queda média de 33%. Mas cada um desses períodos teria sido seguido de um período de alta, com duração média de 24 meses e um crescimento de 124% em média.

Para Mobius, "com os fundamentos dramaticamente melhorados nos mercados emergentes, o futuro é brilhante".

"Então, quando as pessoas me perguntam quando é a melhor hora de investir em mercados emergentes, como nem eu nem ninguém pode prever o timing dos períodos de alta ou de baixa, eu recorro aos fatos: os períodos de alta vão além e duram mais do que os de baixa, e os fundamentos econômicos dos mercados emergentes são de fato impressionantes", afirma. O autor conclui dizendo que "o melhor momento para investir nos mercados emergentes é quando você tem dinheiro".