quarta-feira, abril 02, 2008

O projeto de hegemonia socialista está em curso, e triunfando - 1

Adelson Elias Vasconcellos

Se alguém tiver alguma dúvida de que o projeto de poder dos petistas em relação ao Brasil é o de provocar uma ruptura institucional, para então vingarem o sonho de seus sonhos, com a adoção de um regime socialista, de esquerda, autoritário, bastará lerem o espaço sideral das falanges do mal, que é o blog de ex-deputado José Dirceu, cuja cassação ele se diz injustiçado, mas que lhe permite viver hoje como “milionário” consultor de empresas, no Brasil e no Exterior. A regra é angariar clientes lá fora, que tenham alguma forma de interesses aqui dentro, para, na escuridão por onde ele se rasteja no submundo montado pelo governo atual, poder agir livremente e, assim, abrir as portas no país para que os interesses de seus clientes possam consumar-se, mesmo que tais interesses, é sempre bom acrescentar, nada digam em relação ao interesse público.

E não se imagine ele como um “alienado” em relação ao poder no Brasil, apenas porque tenha sido cassado. Até pelo contrário. Não tendo os holofotes da mídia a seguir e vigiar seus passos, por não ser mais um “homem público”, ele prefere a liberdade conquistada para poder agir como um “homem do poder”. E, pelo visto, a remuneração até é melhor. Aliás, bem melhor. Afinal, ninguém rifa a própria alma ao diabo, sem justa compensação...

Dirceu nunca escondeu de ver triunfar no país a ideologia que sempre defendeu. Dizer-se que ele, e seus companheiros de partido, sejam sobreviventes da resistência do regime militar é forçar um pouco a barra. A turma da esquerda, na verdade, era resistente a qualquer regime democrático. Eles lutavam antes quando havia democracia. E se rebelaram depois quando uma ditadura de direita lhes tomou o poder. Esta chegada dos militares antecipada, frustrou as expectativas desta turma. Contudo, aproveitaram a onda dos que resistiram, mas por motivação democrática, e por serem oportunistas por excelência, embarcaram na caravana da cidadania e passaram a se alinhar na luta pela queda dos militares. Reparem: havia dois movimentos a pedir a derrubada dos militares. Um lado, era dos democráticos. Para esta gente, não importavam se ditadura de esquerda ou de direita, o ideal era o retorno do país ao regime de liberdades. A este grupamento se juntaram o outro "lado" os das "trevas", os oportunistas, porém, seu viés era outro. Queriam substituir uma ditadura por outra.

E nem se precisa ler José Dirceu para se concluir o que se passa nas alucinações de Lula. Basta atentar para os seus discursos, porque o recado lá está bem estampado. Em várias ocasiões ele cita aquele período até com certo respeito e admiração. Até a inflexão de sua voz, estridente para caluniar e atacar adversários políticos, assume ares de doce nostalgia. Várias foram as vezes em que elogiou o governo Geisel, por exemplo, criticando apenas, não a ditadura imposta, mas uma melhor distribuição de renda. Em relação a Médici, por exemplo, ele critica apenas uma certa "dificuldade política”. Raríssimas foram as vezes em que Lula se referiu aos militares-presidentes no período 64-85 como “ditadores”. Confesso, não mel lembro de ouvi-lo referir-se aos militares da ditadura, como eles realmente eram, ou ditadores.

E, muito provavelmente, aquele deve ser o ideal de poder alimentado por Lula. . Sem essa de governar em harmonia com Poderes Legislativo e Judiciário, precisando dividir sua autoridade e precisando dar satisfações. Até porque, basta ver seu comportamento na Presidência da República, especificamente na sua relação com os dois outros poderes. Primeiro, que ele se coloca acima das leis. Entende que elas devem ser feitas de acordo com a sua vontade. Segundo, observem que ele como que “governa” o Legislativo, hoje totalmente submisso, muito mais até do que no primeiro mandato. E, quanto ao Judiciário, ele simplesmente fica amuado e reage de forma muitas vezes grosseira e intempestiva, para se dizer o mínimo, quando é advertido e repreendido por algum magistrado em suas tentativas de infringir a legalidade vigente, como recentemente, quando travou um bate-boca com o ministro Marco Aurélio de Mello, presidente do TSE. E, no melhor estilo ditatorial, seu batalhão de polícia política, atendendo os caprichos do chefe contrariado, saiu em seu socorro: o PT simplesmente entrou cm uma ação contra o ministro Marco Aurélio, e isto que ele apenas expressou uma opinião desagradável e contrária aos interesses de Lula. Imagine-se se o ministro tivesse, sei lá, concedido alguma liminar, ou tomado alguma decisão, ou lavrado alguma sentença condenatória...

Assim, sequer precisaríamos recorrer a leitura do que pensa e do que sonha o José Dirceu. O comportamento na presidência por parte de Lula nos dá sinais claros do que está sendo feito neste exato instante nos subterrâneos do poder em Brasília, e do que está em jogo como estratégia eleitoral, já em curso, mirando as eleições municipais deste ano. O desespero desencadeado pelo Planalto quanto a recriação da CPMF, no final de 2007, não tinha por foco garantir recursos para a Saúde pública. Uma ova se disserem ao contrário. E a prova do que afirmo está em que, por cinco anos, Lula pode contar com os recursos da CPMF e, nem por isso, a saúde pública no Brasil melhorou, até pelo contrário: o Rio de Janeiro é uma prova inconteste disto. Lula pouco está se importando com estes “detalhes’ insignificantes. O bolo todo da CPMF tinha por destino, abastecer e irrigar as campanhas políticas dos aliados do governo nas eleições municipais. E qual o interesse? Sonha Lula em que criar (e festejar) e ainda poder contar com uma ampla fortaleza política capaz de pôr em ação a estratégia para 2010. É lá que ele mira o tempo todo, lá reside o seu ponto de chegada.

Ele sabe perfeitamente bem, até porque tem sensibilidade política bastante aguçada, que o petismo, além dele próprio, não tem alternativas à sua sucessão. E, pelo rigor da lei vigente, 31 de dezembro de 2010 será seu último dia no poder. Dele e de mais uns 20 e poucos mil companheiros que ficarão desempregados. Imaginem as conseqüências olhando tanto pelo lado de poder político quando de poder econômico. No campo político, será uma perda sensível, apesar de que Lula poderia concorrer em 2014, ou quando a legislação se for mudada determinar. Apesar da enorme popularidade e aprovação junto ao povo, que garantias poderia ter de ser eleito? E se, a exemplo do que ocorreu com ele mesmo, a oposição de hoje, instalada no poder, conquistar simpatia, apoio e aprovação popular, acabe lhe fechando as portas? É preciso considerar que aos tucanos e democratas não faltam bons candidatos para enfileirarem várias administrações consecutivas na presidência da república. Descartar 2010, no entendimento tanto de Lula quanto José Dirceu é perigoso por demais para eles correrem o risco em apostar num provável e incerto retorno para 2014, deixando até lá o caminho aberto para PSDB e DEM.

Portanto, dentro de suas óticas, as eleições de 2010 passam obrigatoriamente pela ampla vitória em 2008. Sempre que se refere às eleições municipais deste ano, Dirceu destaca a necessidade de se conquistar e garantir a tal “hegemonia”. E sabem por quê? Trataremos disto no próximo post.