quarta-feira, abril 02, 2008

O projeto de hegemonia socialista está em curso, e triunfando - 4

Adelson Elias Vasconcellos


Neste tópico precisamos abordar alguns aspectos do projeto hegemônico de poder dos petistas e congêneres, cujas evidências são bastantes visíveis, e que se encontram em pleno curso.

Dentro da ótica de se obter ampla base política nas eleições municipais deste ano, também é desejo que se sufoque de vez a voz da oposição, ou, quando menos, que se a reduza a um mínimo de importância tornando-a irrelevante no processo no cenário político do país.

O diabo é que aqui, se de um lado o DEM atua com grande vigor para evitar tal processo de desmonte, por outro, os tucanos acabam enfiando os pés pelas mãos, fornecendo assim mais munição ao PT no seu esforço de aniquila-lo. Simplesmente, a oposição ficou sem discurso, foi incompetente para capitalizar politicamente os grandes méritos dos oito anos do governo FHC. E olha que acabar com a inflação e garantir estabilidade econômica no ponto em que ela se encontra, não é nem foi pouca coisa.

Desde que Lula assumiu o poder e iniciou seus ataques mentirosos contra o governo anterior, os tucanos simplesmente paralisaram e emudeceram diante dos ataques. Não tiveram a fibra necessária para se contrapor as leviandades e os petardos desferidos por Lula e sua quadrilha. Rigorosamente, todas as lambanças, e não foram poucas, que sacudiram o país desde 2003, não se tem ou não se encontram digitais das oposições em nenhuma das denúncias. Teve a faca e o queijo na mão no episódio do mensalão e simplesmente foi incompetente para tirar proveito. Seu discurso se fia apenas no acusatório das lambanças que os próprios petistas se encarregam de trazerem à tona.

Cadê um projeto e um discurso em favor do país, que vai além do que o governo Lula oferece? Claro, e Lula tem sido inteligente politicamente, a associação de seu governo com o capital lhe dá uma sustentação importante com a parte elitista da sociedade. Aliás, esta foi a mesma estratégia empregada pela ditadura militar para se manterem no poder por mais de vinte anos. Enquanto elas ganharam muito, e sem serem importunadas pelo governo, não lhe criam obstáculos para lá permanecer. Portanto, a oposição, por tudo o que o governo tem colocado em pratica, caso permaneça nesta apatia, sem esboçar reação, tende de fato a se tornar irrelevante no cenário político do país. A ironia é que o capital político que Lula tem usado para sufocar a oposição, é exatamente a herança positiva que FHC lhe deixou, o que demonstra o quanto tucanos e democratas estão distantes de seu papel. Vejam que, retirando-se neste período, todos os postulados na economia e as ações no campo sociais, que foram implantados e semeados pelo ex-presidente, vocês não encontram uma única e miserável política ou programa de governo da lavra de Lula e que tenha dado certo. No terreno das obrigações do Estado para com a sociedade, tudo regrediu. Educação, saúde e segurança se deterioram cada dia mais. No campo de grandes obras de infra-estrutura o que se tem é um zero vezes zero. Se crescermos mais do que antepenúltimo colocado no ranking dos emergentes, faltará energia elétrica no país. As estradas ? Lastimáveis. Os portos, congestionados e sem darem conta das necessidades. O apagão aéreo foi abafado mas não resolvido. Política externa ? Não pode ser mais ridícula do que tem sido. Nada, absolutamente nada que não tenha advindo como conquistas do governo anterior, se pode atribuir ao governo atual. E diante de tal quadro as oposições não conseguem sair do lugar.

Outro ponto que Lula vai capitalizando triunfos, e que acabam sendo a grande estrutura de seu apoio popular está no campo social. O paternalismo estatal está a mil, e muito pouco avanço dos indicadores sociais se pode atribuir exclusivamente a Lula. Tudo teve inicio lá atrás, através do Bolsa escola, Vale gás, Programa de erradicação do trabalho infantil, de um total de cinco grandes programas que colocaram a quase totalidade das crianças em idade escolar nas escolas, com redução gradual do trabalho infantil e que voltaram a crescer no governo Lula a partir de 2005, com a drástica redução da mortalidade infantil, tudo conquistas cujo começo está no governo de FHC, e os maiores avanços dos indicadores sociais coincidem justo com aquele período. Há avanços no período de Lula? Não se está dizendo que não, apenas que Lula com a manutenção do que já havia, não conseguir adicionar nada além. O maior mérito de Lula neste campo é haver capitalizado em seu favor programas e avanços que não foi ele quem criou e implantou. A partir da propaganda oficial intensa, como também com o crescimento vertiginoso e sem limites das doações de recursos do Tesouro para entidades sociais, ONGs, sindicatos e centrais, este pelotão se encarregou de anestesiar o povo beneficiado pelos programas sociais, vendendo a mentira de que tudo era “presente” do Lula. Simplesmente, apagaram da memória das pessoas de que toda a rede de proteção social existente foi produto do trabalho de FHC. E, considerando-se que este contingente hoje soma 25% da população brasileira, imagine o que isto acaba representando em termos de aprovação popular. O custo que isto trará para o futuro do país poucos ainda conseguem enxergar. As portas de saída do paternalismo estatal foram removidas, justamente para ampliar a quantidade de beneficiados e se poder, no curto prazo, capitalizar em votos nas urnas os benefícios concedidos e repassados. Poucos advertem para a eternização da pobreza. Porém, até que haja conscientização plena disto, o estrago já se terá produzido.

O golpe fatal é o que vem sendo feito deste o primeiro mandato. Primeiro, quebrar as resistências com cooptação da classe política , e aí se usa o fisiologismo imoral e indecente, e pela qual a classe política tem apreço total. Cargos, fundações, secretarias, ministérios, favores, mensalões, mensalinhos, libeação de emendas, tudo formam o caldeirão de imoralidades que se vão distribuindo para que a cultura política de que todos são iguais, e de que, em política, tudo é válido, desembocarão inevitavelmente na desmoralização completa da instituição política, conhecida como Legislativo. Para os resistentes, a estratégia é reduzi-los até a desimportância total.

Diante disto tudo, fica muito fácil de se criar ou modificar as leis de acordo com as conveniências do projeto de hegemonia, sem precisar pegar numa arma, sem derramar um só pingo de sangue. Ao povo se garante pão e circo, à classe política se concede o fisiologismo para os bolsos, alimentarem suas vaidades e fazerem pose para os holofotes da mídia e, à elite econômica, se garantem lucros fabulosos a partir de negociatas de porão e de ocasião.

Para aqueles que, olhando e vislumbrando o cenário do que se passa no Brasil, façam uma leitura diferente da que abordamos neste estudo, o espaço está e permanece franqueado. Impossível é ficarmos inertes diante do que se passa. Da mesma forma, é claro que há muitas saídas para impedir a depreciação das conquistas democráticas que nos garantem a liberdade e, se mantidas, serão o sustentáculo não apenas para a construção de um país melhor, até porque qualquer coisa a mais que se adicione já faz o amanhã ser melhor do que o presente. Mas, e principalmente, um país mais sério, mais justo, onde as conquistas e as riquezas sejam por todos usufruídas e não apenas pela parcela de salafrários no poder, além avançarmosde no campo moral, contributo indispenável para a redução da violência. E isto é exclusividade de países onde o estado de direito democrático vigora plenamente, onde as instituições se louvam nas suas interdependências, no respeito mútuo, e a ninguém é lícito colocar-se acima da legalidade que regula a convivência em harmonia. E não será possível atingirmos tal ponto de civilidade e progresso se continuarmos trilhando os caminhos do presente. Do contrário, lá adiante, precisaremos retomar todo o trabalho de novo, e além de lamentar as oportunidades perdidas, o preço a pagar será de muito maior custo e sacrifício.