terça-feira, maio 27, 2008

PT SDS

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa, Blog do Noblat

Ou “Desordem e Retrocesso”, foram os dois nomes que me ocorreram para este texto. Estamos caminhando para trás com velocidades supersônicas. Fixei-me no PT SDS por variados motivos, um dos quais justamente o atraso em vez do progresso. Até a década de 70 do século passado, como todos sabem, além de não haver a parafernália eletrônica de hoje, as comunicações telefônicas eram extremamente precárias. Se quiséssemos enviar uma notícia urgente, boa ou má, tínhamos que recorrer aos serviços telegráficos.

Quando eu era jovem, a chegada do entregador da Western Telegraph Co, em seu uniforme caqui, numa reluzente bicicleta Phillips, aro fino, era um acontecimento memorável. “Telegrama! Chegou um telegrama! Ai, Meu Deus! Que não seja nada de ruim”... E abríamos os telegramas tomados das mais variadas emoções.

Normalmente, eram notícias graves. Raramente notícias boas, como nascimento de um bebê, ou a chegada em breve de um grande amigo. Podia haver uma outra função para os telegramas: namorar. Pelo menos no meu caso. Claro que falo aqui de telegramas trocados entre amigos e parentes, e não de telegramas comerciais.

As tarifas eram altas. Todos os usuários logo aprendiam a usar a linguagem telegráfica para baratear o custo. Havia, ainda bem, a “night letter”, ou carta noturna, 22 palavras por um preço fixo, muito mais em conta. Mas experimenta escrever uma carta de amor, ridícula como todas, com apenas 22 palavras. Não é fácil.

A concisão era importante, pois. Há histórias engraçadas por causa da economia de palavras, como a célebre anedota do “Papai mande dinheiro”. A linguagem abreviada de hoje não adiantaria de nada, já que “abs” ou “bjs” seriam cobrados como palavras. Havia exceções, como VG ou PT, usados em telegramas comerciais ou funcionais. Significavam “virgula” e “ponto”. Tenho certeza de que aqui no blog há quem saiba mais sobre isso do que eu, pode é não querer revelar a idade, revelando sua proficiência em telegrafar...

O fato é que “PT Saudações” virou bordão para encerrar um assunto, ou uma discussão mais acalorada. Você dizia isso para alguém e não havia mais dúvidas: estava encerrado o papo. Ainda hoje essa expressão é usada. Há até um samba, de Jorge Aragão, com esse nome: PT Saudações: “Vá com seus botões que eu fico com os meus. PT Saudações, adeus. PT saudações, adeus”.

Foi por isso que engasguei com um copo d’ água ao ver o deputado Luis Sergio (PT-RJ), indignado com o depoente André Fernandes porque ele usara um código para se comunicar com o vazador Aparecido. Qual o código? Sds. Pois é. Era o fecho do e-mail, como qualquer usuário de computador podia perceber. Menos aquele deputado. Mas esse não foi o único espanto da sessão de terça feira da CPI dos Cartões Corporativos. Houve outros, como o deputado Carlos William (PTC-MG). Entre as coisas interessantes que disse: “cartões corporativistas”, “defamar o presidente” e a pergunta do mês, “O senhor estava há muito tempo no percalço dessas informações?”.

Toda a sessão foi um espanto. Não creio que o Fernandinho Beira Mar, quando vem ao Rio depor, às nossas custas, diga-se de passagem, seja tratado como foi tratado o assessor do senador Álvaro Dias. Com toda certeza os defensores dos Direitos Humanos já teriam reclamado muito. Mas o funcionário do Senado Federal, esse pode ser tratado por dona Perpétua Almeida (PcdoB), senadora acreana, furibunda, com uma agressividade e grosseria ímpares.

De CPI em CPI, caminhamos céleres para a palhaçada e para uma falta de compostura inacreditáveis. Pior, procura-se tudo ali, menos fazer Justiça. Os governistas só faltaram açoitar o assessor do senador. Mas acreditaram piamente que o desatento Aparecido envia planilhas com “banco de dados seletivos”, inconscientemente. A oposição tateia, faz perguntas que ficam suspensas no ar, não dá continuidade ao que motivou as perguntas, parece insegura ao inquirir.

Não culpo a senadora que presidiu a CPI. Ela se esforçou ao máximo e foi até firme na defesa do que é correto e certo. Mas deu uma enorme saudade de homens como Santiago Dantas, Pedro Aleixo, Tancredo Neves, Adauto Lucio Cardoso, Carlos Lacerda, Afonso Arinos, e tantos outros. Essa CPI foi das piores. Foi triste. Foi decepcionante. Será que haverá uma conclusão? Ou vamos ficar no “CPI dos Cartões Corporativos: PT Saudações”?

Nossa caminhada rumo ao passado não ficou só nisso. Apesar do anúncio institucional, e caro, repetido à exaustão nos jornais, rádios, TVs e revistas, assinado pelo Ministério da Cultura, propagar “Brasil, Um País de Todos”, isso é cada vez menos verdade. O Brasil agora é dos quilombolas e dos índios. Dos descendentes dos escravos, dos índios que já estavam aqui quando Cabral chegou e, claro, dos felizes remanescentes da “geração 68”. O resto de nós, ao que parece, não somos Todos.

O que aconteceu esta semana no Pará e em São Paulo, foi uma vergonha. Em Altamira (PA), índios pintados para a guerra, portando facões, agrediram e feriram um engenheiro, funcionário da Eletrobrás, que ali fora explicar a hidrelétrica de Belo Monte. Não me venham dizer que os índios são verdadeiramente inimputáveis, são como criancinhas ingênuas, não sabem o que é uma palestra, não sabem o que é um debate. Em Altamira, havia até um representante do MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens.

Em São Paulo, não muito longe da capital, os índios seqüestraram quatro funcionários da Funai. Não admitem o seqüestro: dizem que só impediram os quatro de sair da aldeia. É o tal negócio: mentir, e fingir, virou hábito nacional. Também fizeram tudo inconscientemente, não foi por mal, são ingênuos, são inimputáveis. Pintam-se para a guerra, andam com machadinhas nas mãos, mas não esquecem os celulares, claro.

O que aconteceu com esses cidadãos criminosos? Nada. Eles libertaram os reféns depois de muita conversa, e com a promessa que sua reivindicação seria atendida. PT Saudações.

Já para a Raposa do Sol, aquela vastidão de terra que eles querem dominar, quase cinco vezes a Inglaterra, a explicação é deliciosa. Como são muito poucos para tanta terra, eles alegam que precisam de espaços diferentes para caçar, rezar, dançar, transar, dormir, sei lá o que é que fazem os índios, eu ia dizer brasileiros, mas não sei mais como me referir a eles.

O pior é o estrago que isso anda fazendo em nossos corações e mentes. Ando com birra do pobre Padre Anchieta. Pior, gostei de saber que aqui no bairro onde moro, há uma rua Antonio de Salema (Governador do Rio de Janeiro, entre 1575/1578). Estou orgulhosa de mim? Claro que não. Mas o sentimento começa a se impor. Sou neta de italianos, o que é que posso fazer, além de dançar a tarantela? O Ministério da Cultura, aparentemente, não me inclui no País de Todos.

Pensei em escrever sobre assuntos que passam semanas nos jornais, depois desaparecem. Cheguei a pedir a ajuda de alguns amigos, com memória melhor que a minha. Fica para a semana que vem. Não sei se enviarei via e-mail ou por mensageiro a cavalo. O ontem está chegando tão rápido...