quarta-feira, outubro 01, 2008

Sobre a mudança no discurso de Lula sobre a crise

Adelson Elias Vasconcellos

Sempre se disse que a cultura de Lula podia ser pobre, porém sua inteligência (ou esperteza?), não. Durante muito tempo Lula insistiu na conversa mole de que o Brasil era uma ilha de tranqüilidade e que muito pouco seria atingido pela crise. Tivesse mais leitura e não praticasse com tanta intensidade o discurso eleitoreiro, não teria ido tão longe.

É claro que sua equipe econômica o abastece com notícias sobre o andamento da crise e suas conseqüência no Brasil. E, por isso, ele já sabe que o crédito para os exportadores, por exemplo, simplesmente, deixou de existir. Nem grandes empresas conseguem sequer um centavo. Tanto é verdade que ele próprio instruiu e ordenou que o BNDES estudasse a abertura de linhas especiais neste sentido. Ora, para quem se aproxima do vermelho em suas contas de comércio, ver-se diante da ameaça de drástica redução das exportações, é doloroso.

Além disso, e conforme questão levantada, com a queda das bolsas, quanto de valor as empresas brasileiras perderam em seus papéis? E quanto mais de fuga de capitais o país vem sofrendo nas últimas semanas?

Ora, manter o discurso de antes seria passar para si mesmo um atestado de burrice. E em nível mundial, pode-se dizer. Rigorosamente, todos estão sendo atingidos e, diante de uma séria ameaça de recessão americana, ninguém ficará imune à crise. Mesmo que tenhamos melhores defesas hoje, seremos bastante atingidos.

É interessante, por outro lado, duas afirmações do senhor Lula nesta terça-feira. Uma, a de que “... nós fizemos as lições de casa e eles não fizeram... ", e a outra a de que "... Vamos torcer para que os americanos resolvam o problema... ". Primeira questão: qual dever de casa, cara pálida, seria por acaso aquelas medidas todas adotadas no governo FHC, e contra as quais Lula e PT se opuseram com veemência, mas que hoje se vê seu acerto, além de serem o sustentáculo da nossa estabilidade e melhor defesa à crises? Ou, por outro lado, seria o tão demonizado PROER, mas que serviu para dar a estrutura consistente ao nosso sistema financeiro, e que hoje o senhor torce para medida semelhante ser adotada pelos Estados Unidos no sentido de preservar seu próprio sistema financeiro e evitar uma recessão da qual ninguém escapará?

Claro que, Lula sendo quem é, não deixa por menos na tentativa de empurrar para outro lado o ônus da crise, quando afirma “..."Os países emergentes e os países pobres, que fizeram tudo para ter uma boa política fiscal e fizeram tudo para fazer a economia ter estabilidade (...), não podem agora ser vítimas do cassino que eles montaram na economia americana". Certo, mas e o bônus, presidente, beneficiou a quem ? Não foram justamente os emergentes e países pobres, os quais graças a avalanche de crédito farto e barato, alcançaram vasto progresso em escala mundial, da qual se tirou da fome extrema milhões de seres humanos? Ou por acaso o presidente já esqueceu da recente elevação nos preços dos alimentos, fruto justamente do aumento do consumo pelos países pobres em volume muito maior do que o aumento de produção?

E para ficar apenas nas questões domésticas, seria bom que o presidente lembrasse o que ontem mesmo afirmamos : o Brasil foi um dos que mais receberam este estrondoso volume de dinheiro farto e barato produzido pelo circo, graças a sua política de juros altos (os maiores do mundo), e que serviram, de um lado, para financiar nossas crescentes exportações, e de outro, para financiamento do próprio poder público, razão pela qual nossa dívida interna pública saltou dos 600 bilhões de dólares, em 2002, para os atuais 1, 200 trilhões de dólares! De onde Lula acha que saiu toda esta montanha de dinheiro que ingressou no país nos últimos anos?

Tudo bem que os americanos falharam na regulação de seu sistema e que, agora, eles sabem de sua responsabilidade, o que, aliás, eles não a estão empurrando para ninguém. E vão tentar e vão resolver o problema, estejamos certos disto. Não se ouve de nenhuma autoridade americana a mínima tentativa de transferir responsabilidades para quem quer que seja, a não ser eles mesmos. Ao contrário do que acontece por aqui.

É bom ouvir de um Henrique Meirelles que o governo já tem algumas medidas listadas para evitar que a crise nos prejudique além do que seria suportável. Como também é bom ouvir que um rasgo de sensatez varreu o presidente ao adotar um discurso mais realista, pedindo ainda um pouco cautela ao povo brasileiro. Melhor seria se, em contrapartida, este discurso fosse carregado com um tom menos belicoso, aceitando o fato de que o circo tão condenado por ele da ciranda financeira, beneficiou enormemente o país para a conquista de certa tranqüilidade, e que ela é fruto da estabilidade econômica atingida. E melhor seria ainda se, publicamente, Lula admitisse que julgou injustamente o governo anterior ao seu, e que as medidas então tomadas e para as quais ele e seu partido tanto se indispuseram, foram acertadas e se tornaram as âncoras de sustentação de nossa estabilidade e tranqüilidade presentes. Bom, mas aí seria contar com um caráter que Lula definitivamente nunca teve.