terça-feira, setembro 07, 2010

Copa de 2014: o país não está levando a sério a sua responsabilidade

Adelson Elias Vasconcellos

A Copa do Mundo em 2014, marcada para ser realizada no Brasil, parece que ainda não teve o dom que despertar nas autoridades o seu real significado e grandeza. Passa da hora de darmos o pontapé inicial para colocar o país para funcionar se o que se deseja é apresentar este evento de modo a nos orgulharmos, dando um sinal claro ao mundo de que somos, sim, um país sério.

Uma das muitas razões que me fez contrário a escolha do Brasil é o fato de que, dentre todas as condições e exigências cobradas pela FIFA para a escolha do país sede, é de que nossa infraestrutura deveria estará bem mais avançada do que a que se tinha quando apresentamos nossa candidatura. Ou seja, deveríamos ter uma situação tal em termos de aeroportos, transportes público terrestre, rede hoteleira, etc, de tal monta que a nossa escolha seria apenas consequência natural. Diferente, é querermos fazer e montar esta estrutura de país sede por “causa” da copa, e não “apesar da copa”.

A escolha, feita já há mais de dois anos, e depois desse tempo, analisando-se o que já fizemos, comprova que o Brasil periga não atender aquilo que se comprometeu fazer quando apresentou sua candidatura. Para que se tenha uma ideia precisa do que significa minha crítica, Londres, que sediará a Copa de 2018, já tem hoje muitos avanços e realizações do que o Brasil, responsável pela copa de 2014.

Já disse vária vezes que a escolha da FIFA não é feita somente a partir de belos e modernos estádios de futebol. Leva-se uma série de outros aspectos e para os quais o Brasil, definitivamente, ainda não se deu conta. E ér precisa sempre lembrar um fato importantíssimo: se a copa do mundo será em 2014, a Copa das Confederações acontecerá, justamente, um ano antes, e será aqui também. Ela será um pano de amostra do que o Brasil tem pronto e do que ainda deverá realizar para estar no “ponto” como país anfitrião. Portanto, não é 2014 – que parece assim tão distante – que devemos mirar, e sim 2013. Considerando que o governo se acha engessado neste resto de ano que ainda temos, por conta das eleições, teremos a partir de janeiro próximo, apenas dois anos e meio para realizar tudo aquilo que ainda não fizemos. Convenhamos, considerando o tamanho da obra a ser feita, o tempo será escasso demais para ficarmos na “ponta dos cascos”, como se diz na minha terra, para dar conta do desafio.

Desde que fomos escolhidos, já passei por Brasília, São Paulo, Rio e Porto Alegre, além de conhecer bem a cidade de Cuiabá, onde resido. A única movimentação que se tem nestes preparativos diz respeito aos estádios, ainda assim em ritmo muito lento. E a se observar que ainda não definimos onde se realizará a abertura e o jogo inicial, que, em princípio, será São Paulo, mas ainda não conta com um estádio definido. Se for o projeto do Coríntians, este, em seu projeto inicial, tem capacidade inferior ao mínimo que a FIFA exige. Portanto, é um projeto que precisará ser revisto.

Claro que o anúncio da FIFA escolhendo o Brasil para país sede, tem e teve para o governo brasileiro, um fato político de enorme repercussão. Contudo, mais do que o fato político é darmos conta do recado que o desafio colocou à nossa frente.

Na apresentação que fizemos, havia um orçamento de gastos muito mais fantasioso do que real. Por exemplo: o trem bala, ligando São Paulo / Rio de Janeiro, já teve seu orçamento revisto (para mais, claro) pelo menos, três vezes. E ainda há aspectos nebulosos quanto a viabilidade econômica do empreendimento e dados de sua concepção mal resolvidos.

Um dos gargalos que o Brasil apresenta hoje, em condições normais de temperatura e pressão são seus terminais aeroportuários. Imagine-se o tamanho da encrenca que será se tudo permanecer como está se nada for feito, o feito de forma impensada!!!

Temos que considerar alguns aspectos relevantes: primeiro fator a considerar é o fato do país ter tamanho continental, onde os deslocamentos demandam viagens longas e demoradas. Segundo fator, são doze cidades-sedes, portanto, quanto mais cidades abrigando o evento, maior a quantidade de problemas a resolver e recursos para alocar. Não temos geração de riquezas que comporte e abrigue todas as necessidades neste sentido. Terceiro fator, há uma questão se natureza legal que precisará ser removida. Pela legislação atual, as companhias aéreas nacionais não podem ter participação estrangeira acima de 30% de seu capital social, me parece. Pelas atuais condições, nenhuma delas tem suporte financeiro para atender, por dois anos seguidos, a demanda que teremos. Além disso, somente companhias nacionais podem operar internamente no país. Quarto, tanto a construção do trem bala, quanto a construção de corredores exclusivo de transportes urbano, sejam para ônibus ou metrôs requerem tempo de projeto, desapropriações e construções. Considerando-se o ritmo de tartaruga com que as obras públicas são construídas no Brasil, é possível perceber que o desafio é imenso. E as rodovias? No estado atual, nem remendo serve. E a rede hoteleira? Falo, por exemplo de Cuiabá. Se aqui realizar-se num mesmo final de semana, dois eventos de porte nacional, tipo seminários, congressos, faltam vagas nos hotéis atuais. E hotel, comportando conforto e segurança, não se constrói da noite para o dia. Já nem quero tocar no assunto das condições do aeroporto local, que é para não passar raiva aos leitores.

Poderia continuar nesta linha de raciocínio abordando outras questões, mas creio que os pontos acima já nos dão a dimensão exata do quanto é preocupante o ritmo com que as obras necessárias e indispensáveis estão sendo realizadas. Quando fui contra, o fui justamente por ver que o projeto que o Brasil apresentou se tratava apenas de uma carta de boa intenções. Não tínhamos projetos claro e definidos do que se iria, caso a escolha fosse a nossa favor. Até porque, muito do que se iria ou se pretendia construir, já deveriam estar realizados, prontos para uso. O caso dos aeroportos é bem significativo: deveríamos, já naquele momento, ter aeroportos dotados de condições para atender de forma satisfatória não apenas a demanda interna presente, mas também um afluxo maior no futuro. Não tínhamos nem uma coisa nem outra.

Além do mais é precisa considerar que, no caso da África do Sul, por exemplo, já se teve muitos problemas, por conta dos atrasos nas obras. Eram apenas três cidades-sedes e a África do Sul não tem as dimensões territoriais que o Brasil possui!!!

Claro que a gente tem esperanças de que se resolva a tempo, para que o evento resulte com brilho e majestade, que sejamos elevados no conceito internacional pela capacidade e competência para abrigar eventos de tamanha envergadura. Porém, pelo quadro visto até aqui, temos muito mais motivos para preocupação do que para nos sentirmos seguros de que tudo sairá bem.

O altíssimo investimento se aplicado em áreas bem mais carentes como saúde, por exemplo, se justificariam mais racionais. Mas reclamar do alto custo agora é tarde. Já que a Copa de 2014 é para ser realizada no Brasil, cabe-nos arregaçar as mangas e não medir esforços para, ao menos, não termos do que nos envergonhar.

E, acima de tudo, seria conveniente que, tanto as autoridades políticas quanto desportivas, adotassem posturas mais transparentes. Divulgassem com mais empenho e frequência o que de fato está sendo realizado. Porque o que até aqui ressalta, é que se discute, se discute, e se discute, e não se define coisa alguma, nem no campo de projetos tampouco de ações. Os Jogos Pan-Americanos no Rio, em 2007, por exemplo, envolvendo menos recursos, projetos e obrigações, já não foi lá grande coisa. E a gente sabe, sabe-se até o alto custo financeiro final, até hoje não totalmente esclarecido.

E melhor fariam as autoridades brasileiras se ao invés de se amuarem com as críticas dos dirigentes responsáveis em cobrar o cumprimento tanto dos cronogramas quanto dos compromissos assumidos pelo Brasil, se adotassem o critério de assumir com seriedade e responsabilidade seu papel. Os dirigentes da FIFA estão absolutamente corretos em cobrar. O nosso não é agindo feito menino mimado, e sim, executar o que lhes compete fazer.

Não são apenas o tamanho do desafio, o escasso tempo que temos para colocar a casa em ordem e os atrasos significativos no cronograma de ações a que estamos sujeitos que me preocupam: ela diz muito mais com o comportamento de descaso que se nota por parte do governo brasileiro. Está mais do que na hora de sermos sérios e maduros. Um mau resultado dentro do campo, sempre será possível, no futuro, recuperarmos. Fora dele, contudo, talvez não tenhamos outra oportunidade como essa.