Revista Veja
Com a economia se expandido em ritmo acelerado, o país tem batido recordes sucessivos na geração de empregos com carteira assinada. De janeiro a agosto, 1,95 milhão de vagas formais foram criadas e a previsão para o ano que vem, de acordo com o Ministério do Trabalho, é de três milhões de novos empregos.
O ministro Carlos Lupi comemora os números com um alerta: a enorme demanda por trabalhadores deve fazer com que o Brasil sofra ainda mais com a falta de mão de obra nos próximos anos.
A 'novidade', destaca Lupi, é que os gargalos não mais se restringirão aos profissionais do topo da pirâmide de qualificação (já escassos no país pelas conhecidas deficiências do sistema educacional).
Deverá crescer a carência daqueles trabalhadores que desempenham tarefas que dispensam um elevado grau de instrução; algo que já se verifica na construção civil e alguns setores de serviços.
Na região da cidade de Ribeirão Preto, por exemplo, pólo produtor de cana de açúcar do estado de São Paulo, algumas construtoras estão contratando ex-bois frias para trabalhar como auxiliares nos canteiros de obras.
"É só andar por Ribeirão Preto para perceber a quantidade de obras em execução. A mão de obra especializada, como pedreiro, encanador e eletricista, está em falta faz tempo.
Estamos contratando todos que chegam com alguma experiência comprovada", avalia Francisco Galli, técnico de segurança do trabalho da construtora Pereira Alvim, que conta com trabalhadores egressos do corte de cana em seu quadro de empregados.
No segmento de serviços, a demanda é forte e também enfrenta escassez de trabalhadores. Um reflexo deste cenário é que as pessoas têm maior poder de barganha, exigindo salários maiores para aceitar uma proposta. A agência paulistana de recrutamento de empregadas domésticas Doce Lar comprova essa tendência.
A gerente Patrícia Bueno relata que enfrenta resistência de suas agenciadas em aceitar vagas que paguem o mínimo da categoria, de 560 reais. "Por 700 reais elas já se recusam", afirma.
A pesquisadora do Insper na área de mercado de trabalho, Regina Madalozzo, prevê que o comércio deve ser o próximo setor a sentir as pressões da falta de mão de obra. "Todo fim de ano, a demanda por trabalhadores no comércio aumenta, mas neste ano deve ser desproporcional", aponta.
A pesquisadora afirma que a indústria também está sendo afetada por falta de mão de obra "semi-especializada".
Segundo o economista José Márcio Camargo, da gestora de recursos Opus, a modificação no mercado de trabalho é estrutural. Após aquele primeiro momento em que os empresários correram para preencher suas vagas com funcionários mais qualificados, começou a faltar este tipo de profissional. Os postos de trabalho, contudo, não pararam de surgir.
Muitas empresas ficaram sem opção: ou 'flexibilizavam' seus critérios, aceitando contratar alguém menos qualificado, ou ficavam sem ninguém. Esse movimento de transferência tem sido visto em toda a pirâmide profissional. "Não existe 'apagão' de mão-de-bra. O que acontece é que, na medida que podem, os empresários vão contratando os trabalhadores, dos mais aos menos qualificados", explica.
Os especialistas concordam que este movimento reforça a tendência de aumento do rendimento médio do trabalhador, haja vista que, pela lei de oferta e demanda, há descompasso entre as necessidades de economia e o que mercado de trabalho consegue oferecer.
Essa 'curva' ascendente dos salários, que se verifica em todas as faixas, é ainda impulsionada pelos reajustes reais do salário mínimo e, em menor grau, pelos programas de transferência de renda.
Camargo alerta, por fim, para o risco de queda da produtividade da economia à medida que postos de trabalho que requerem qualificação são preenchidos com profissionais que não estão a altura.
Para o diretor da Faculdade de Administração da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), Tharcisio Souza Santos, este quadro mostra a urgência de investimentos públicos em educação. "Não estou falando apenas de nível superior, mas também do ensino médio e técnico”.