Sebastião Nery
RIO – Em agosto de 1955, a Argentina sangrava numa das mais dramáticas historias da America Latina no século. Fui a Buenos Aires. De ônibus para Porto Alegre, de lá para a Argentina. E vi o mundo pela primeira vez. Muitos jornalistas brasileiros, sobretudo gaúchos, entre europeus e latino-americanos. Os fins de tarde no bar do hotel Plaza pareciam uma redação enlouquecida.
Os boatos se multiplicavam. Todos os dias o Exercito e a Marinha aderiam à Aeronáutica e derrubavam Perón. Mas Peron continuava, como continuava nas ruas, em furiosas manifestações, a Confederação Geral dos Trabalhadores, a CUT peronista. Até que uma manhã era mesmo verdade.
Buenos Aires
Em um pequeno hotel perto do Plaza e da rua Florida, ouvi bombas a cada instante mais continuadas. Corri para a Casa Rosada, com seus balcões cor de terra-cota avermelhada. Perón e Evita já não estavam mais lá, falando ao povo, como em outros tempos. Evita havia morrido desde 1952. De Perón não se tinha noticia. O Exercito já havia cercado a praça.
Ninguém passava. Ainda bem. Assim nos livramos, outros jornalistas e eu, das pesadas bombas da Aeronáutica jogadas sobre os jardins do palácio, por seus aviões de caça dando rasantes. Passavam sobre nossas cabeças, nos cantos da praça, mergulhavam, soltavam as bombas, subiam.
Algumas caiam pertinho de nós, protegidos atrás das colunas dos edifícios. Foram três dias de furor, de 16 a 19 de setembro. Exercito, Marinha, Aeronáutica exigiram que Perón renunciasse. Numa canhoneira paraguaia, fundeada no porto,Perón foi-se embora para o exílio,em Madrid.
Borges
A imprensa foi entrevistar o poeta-genio Jorge Luis Borges, que havia sido por ele demitido da Biblioteca de Buenos Aires, e estava na varanda de sua casa, lendo. Borges disse apenas:
- O Exmo Senhor general e ex-presidente da Republica, Juan Domingo Perón, é um canalha.
Quase vinte anos depois, em 1974, já cego, Jorge Luis Borges estava na varanda de sua casa ouvindo a secretaria ler para ele, quando a
imprensa chegou para ouvi-lo sobre a morte de Peron. Borges disse apenas.
- O Exmo Sr. General e ex-presidente da Republica, Juan Domingo Perón, era um canalha.
O general Aramburo, adido militar no Brasil em 1951, assumiu o governo. Em maio de 70, foi sequestrado e encontrado morto nos arredores de Buenos Aires. E durante quase 30 anos, com os intervalos civis de Arturo Frondisi, José Maria Guido e Arturo Ilia, os generais, inclusive Perón, ensanguentaram a Argentina e mataram mais de 30 mil argentinos.
Evita
Peron era capitão em 1930 e ajudou a derrubar o presidente Hipólito Yrigoyen. Foi adido militar no Chile e Itália de 39 a 41: - “Mussolini é o maior homem do século, mas cometeu erros que não cometerei”.
Com ele, um grupo de jovens militares criou o GOU (Grupo de Oficiais Unidos), simpático ao nazismo e fascismo da Alemanha e da Itália. Em junho de 43, derrubaram mais um presidente, Ramon Castillo. Em 44, o já coronel Perón foi nomeado secretário do Trabalho. Depois, vice-presidente e ministro da Guerra. Em 45, fim da guerra, preso e logo solto.
Casou com Evita Perón. Em 46, elegeu-se presidente da República. Em 49, reformou a Constituição para poder reeleger-se. Fechou o jornal “La Prensa”, interveio nas Universidades, brigou com a Suprema Corte. E em 51 se reelegeu. Governava com os sindicatos. Era o ovo da serpente.
Incendiou a Argentina e jogou-a nos quartéis dos militares.
Isabelita
Em 1973, os militares não tinham mais como sustentar sua sangrenta ditadura. Peron lá da Espanha elegeu seu laranja Hector Campora, que logo renunciou para ele voltar, candidatar-se e ganhar, tendo como vice a nova mulher, Maria Estela, a Isabelita. Durou um ano, morreu em julho de 74 e a Isabelita assumiu o governo. Agravou-se a tragédia argentina.
Medíocre, despreparada, pau-mandado, sem experiência política e administrativa anterior, Isabelita entregou o governo à direita negocista e terrorista, a Tríplice A, e à pelegada sindical da CGT (Confederação Geral dos Trabalhadores), a CUT deles, cheia do dinheiro do FAT deles.
O pais caiu na baderna. Era inevitável. Os militares voltaram mais uma vez e a Argentina caiu numa nova rodada de violência e assassinatos.
Dilma
A sorte do Brasil é que Lula não é Perón, não é Hugo Chavez, que sempre tiveram grupos militares atrás deles, sustentando suas loucuras. O Peronismo tinha canhões. O Chavismo tem. Lula, para tentar implantar seu Lulismo, teve que sustentar-se na corrupção, cevando o Congresso nos cochos do Mensalão, comprando centrais sindicais, movimentos sociais, jornalistas e intelectuais de aluguel, até nossa outrora gloriosa UNE.
Quando vejo a Dilma na TV, com aquele atravessado sorriso botox, repetindo sempre o que mandam dizer, penso logo na Isabelita, marionete ventríloqua como a nossa, uma Isabelita falando português e fazendo tudo que Lula, Franklin,Dirceu, Palocci, Eduardo Cunha,Gim Argelo ordenam.
A Erenice, aquele charme de anta de óculos, instalou uma fabrica de corrupção dentro da Casa Civil. O perigo é Dilma ser dominada pela gula insaciável dos cuequeiros aloprados do PT e virar uma Isabelita sem Perón.