Ricardo Setti, Veja online
A morte, aos 60 anos, do ex-presidente Néstor Kirchner atropela dois fenômenos em curso na Argentina: a consolidação dos Kirchner no poder com candidatura do marido à sucessão da mulher, a presidente Cristina Fernández de Kirchner, que por sua vez o havia sucedido no final de 2007 e deixa a Casa Rosada em dezembro do próximo ano, e o projeto autoritário francamente em curso na Argentina sob a inspiração do casal.
Apesar de sua saúde visivelmente frágil, de que foram sinais só no último ano duas intervenções cirúrgicas ligadas ao coração, o ex-presidente era candidatíssimo, a despeito da queda de prestígio de Cristina. Agora, o candidato do “kirchnerismo” à Presidência é uma interrogação, e desata-se uma briga interna no Partido Justicialista (peronista) que nem os mais experientes analistas argentinos se animam a prever como terminará.
Uma divisão do peronismo pode favorecer a possível candidatura do líder oposicionista Ricardo Alfonsín, deputado pela União Cívica Radical e filho e sósia quase perfeito do falecido presidente Raúl Alfonsín (1983-1989).
ESCALADA AUTORITÁRIA — Exceto pela condução da economia, em situação razoavelmente estável, a presidente vive uma escalada autoritária que pretende sufocar os dois principais conglomerados de mídia do país, críticos a seu governo — o grupo do jornal Clarín e o do centenário jornal La Nación –, tem oposição cerrada e militante do setor produtivo mais importante da argentina, a agroindústria, mantém difíceis relações com o empresariado industrial, apresenta crescentes dificuldades em aprovar medidas no Congresso e, como se não bastasse, anda às turras com a Suprema Corte em razão de decisões que contrariaram os interesses da Casa Rosada.
Colaboraram também consideravelmente para erodir seu prestígio fatos impensáveis na Argentina até há pouco tempo, como um surto de dengue ocorrido no verão passado, e um brutal, inédito aumento da criminalidade, em especial na capital e na grande Província de Buenos Aires, que a envolve.
A tentativa de sufocar o Clarín e La Nación passa por episódios tipicamente autoritários e sórdidos, como a montagem de uma história falsa destinada a provar que as famílias controladoras dos dois grupos adquiriram a maioria das ações da maior fornecedora de papel de imprensa do país, a empresa Papel Prensa — em que o governo argentino detém posição minoritária –, graças ao favorecimento da ditadura militar.
Os generais teriam pressionado, inclusive submetendo a prisão e a torturas, integrantes da família Graiver, que então controlava a Papel Prensa, a vender suas ações aos dois grupos de mídia. A história, desmentida por testemunhas que incluem integrantes da família Graiver, não se sustenta, mas Cristina ainda não desistiu. Recentemente, sem esclarecer em detalhes de que se tratava, defendeu a “nacionalização” da imprensa argentina, em grande parte crítica a seu errático governo.