Fernando Mello e Igor Paulin, Revista Veja
O programa do governo Lula ajudou a encher os bolsos da família Valter Cardeal, diretor da Eletrobrás e homem de confiança de Dilma Rousseff
INSEPARÁVEIS
Valter Cardeal e Dilma Rousseff se conheceram
nos anos 90 e nunca mais
deixaram de trabalhar em parceria
O Programa Luz Para Todos é a versão petista do Luz no Campo, criado no governo FHC. Desde 2003, ele já levou energia para 2,5 milhões de famílias que dependiam de lamparinas ou geradores. Seria uma boa notícia, não fosse o fato de o Luz Para Todos estar, desde o início, imerso em sombras – ao menos quando o assunto é a administração de suas verbas. Na semana passada, VEJA descobriu mais um fio desencapado no programa sob responsabilidade da Eletrobrás. Seu diretor de engenharia é o já bastante enrolado Valter Cardeal, homem de confiança da ex-ministra e candidata à Presidência da República Dilma Rousseff. Como um dos principais responsáveis pelo Luz Para Todos, ele tem o poder para liberar pagamentos e chancelar os contratos feitos com as empresas que executam o programa. Pois Cardeal achou que, se a luz era para todos, poderia também ajudar a energizar os negócios de sua família no Rio Grande do Sul. Por intermédio da AES Sul – concessionária de energia que atua no Estado -, a Eletrobrás contratou para trabalhar no programa uma firma chamada ... Cardeal Engenharia! É isso mesmo que você leu. Fundada por Valter Cardeal, em 1999 ela passou a ser tocada por dois de seus irmãos, Edgar e Fernando José. O contrfato da Cardeal Engenharia com o Lua Para Todos, que terminou no ano passado, não envolvia a execução de obras físicas, apenas o “desenvolvimento de projetos”. Por ele, os Cardeal embolsaram 50.000 reais por mês, ao longo de 54 meses, totalizando uma bolada de 2,7 milhões de reais.
Valter Cardeal foi nomeado diretor da Companhia Estadual de Energia Elétrica do governo gaúcho e, 1999, ano em que se afastou da Cardeal Engenharia. O governador do Estado era, então, o petista Olívio Dutra, e a secretária de Energia, Dilma Rousseff. Cardeal e Dilma se conheciam por terem atuado juntos no PDT. A partir daí não mais se largaram. Passaram a trabalhar sempre próximos um do outro e assinaram suas fichas de filiação ao PT no mesmo dia: 18 de março de 2001. Enquanto isso, a empresa dos Cardeal patinava. Nem sequer conseguia manter uma sede própria. Tanto que seu endereço comercial ficou registrado por cinco anos como sendo o mesmo da casa de Edgard Cardeal. Em 2003, com o início do governo Lula, a vida dos Cardeal mudou – e para muito melhor. Valter Cardeal havia conquistado a afeição de Dilma e, quando ela assumiu a Pasta de Minas e Energia, foi um dos primeiros técnicos que a nova ministra convidou para ingressar no governo. Ganhou a vaga na Eletrobrás, a maior holding de energia da América Latina – e, no ano seguinte, a Cardeal Engenharia já era uma das prestadores de serviços de dos principais programas da empresa. Procurada por Veja, a AES Sul garantiu que o contrato firmado com a Cardeal Engenharia foi legal e se deu por meio de concorrência privada. Esse tipo de concorrência não segue os parâmetros da Lei de Licitações, que regula o setor público. Embora o processo esteja sujeito a auditorias internas, é a própria companhia que o controla.
Não é a primeira vez que a relação de Cardeal com o Luz Para Todos resulta em curto-circuito. Em 2008, ele foi denunciado pelo Ministério Público por participar de fraudes milionárias envolvendo o programa. Cometidas no estado do Piauí. Segundo a acusação, Cardeal, entre outras improbidades, auto0rizou aditivos irregulares que multiplicavam o valor dos repasses da Eletrobrás para obras de instalação de luz. A denúncia cita um caso que dá a medida do descalabro: um dos contratos recebeu um aditivo de 235.000 reais para incluir um único consumidor na rede elétrica. Uma das empresas que se beneficiavam era a Gautama, do empresário Zuleido Veras, que chegou a ser preso pela Polícia Federal e a passar treze dias na cadeia, apesar das amizades célebres (era chapa da família Sarney e até emprestou sua lancha de 3 milhões de reais para um passeio do governador Jacques Wagner e da então ministra Dilma Rousseff). Depois do escândalo do Piauí, a Procuradoria-Geral da República recomendou que Valter Cardeal fosse afastado do serviço público. A Eletrobrás, porém, se recusou a puni-lo, e ainda contratou – com dinheiro do contribuinte e sem licitação – o advogado carioca Nélio Machado para defendê-lo, ao preço de 1 milhão de reais. Mais recentemente, descobriu-se que, depois de que o governo decidiu investir na energia eólica no Rio Grande do Sul, a família Cardeal passou a tentar emplacar inúmeros projetos nessa área. Edgard Cardeal oferecia “serviços” para facilitar a entrada de empresários nesse mercado, mediante o pagamento de uma “taxa de sucesso”.
Na lancha de Zuleido Veras, dono da Gauatama preso pela PF,
passearam Dilma Rousseff e Jacques Wagner, em 2007
A história tem um roteiro igual ao de Erenice Guerra. Funcionário da confiança de Dilma Rousseff, por ela nomeado, Valter Cardeal vale-se do poder do cargo para beneficiar parentes diretos – que, além de ganhar cargos ou contratos públicos, oferecem a empresas privadas intermediações em negócios com o governo mediante pagamento de propina. O presidente Lula vive elogiando a “firmeza” da candidata petista. Pelo jeito, a ex-ministra tem mesmo é um coração mole...


