terça-feira, outubro 26, 2010

PT: um partido no banco dos réus

Um Estelionato Por Dia
Laura Diniz, Revista Veja

O tesoureiro do PT, João Vaccarti Neto, é denunciado à Justiça por enganar 3.495 famílias na fraude do BANCOOP

Parece ser a sina dos tesoureiros do PT. Desta vez, é João Vaccari Neto, o atual guardião das finanças do Partido dos Trabalhadores, quem está prestes a se sentar no banco dos réus.Na semana passada, ele foi denunciado à Justiça por formação de quadrilha, falsidade ideológica, estelionato e lavagem de dinheiro. Os crimes referem-se ao golpe que, segundo o Ministério Público (MP), ele aplicou juntamente com outros dirigentes da Bancoop, a Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo. Desde a sua fundação, em 1996, a Bancoop é dirigida por sindicalistas ligados ao PT. De 2004 a 2020, ela foi presidida por Vaccari. O trambique comandado pelo tesoureiro petista funcionava da seguinte maneira: a Bancoop lançava empreendimentos imobiliários a preços muito baixos. Com isso, atraía milhares de cooperados – pessoas que se cotizavam para financiar a construção de imóveis por meio da entidade. Só que, em vez de aplicar o dinheiro para erguer apartamentos, a Bancoop de Vaccari desviava parte dos valores para contas bancárias de seus diretores e para o caixa (dois, é claro) de campanhas eleitorais do PT. O desfalque chegou a 100 milhões de reais, entre 2001 a 2008, segundo o MP. Vaccari foi formalmente acusado de ter cometido estelionato contra 1.133 famílias. São pessoas que pagaram mensalidades à Bancoop, muitas vezes com sacrifício e ao longo de anos, e que agora não têm onde morar. Outras 2.362 vítimas conseguiram receber seus apartamentos, mas para isso tiveram que gastar muito mais do que havia sido combinado inicialmente. Como eram cooperados, tiveram que cobrir o rombo financeiro provocado por Vaccari e sua turma – se não fizessem isso seus prédios não ficariam prontos. Ao todo, é como se o tesoureiro do PT tivesse passado a perna em uma pessoa por dia, ao longo de oito anos.

Na última terça-feira, o caso foi discutido na Assembleia Legislativa de São Paulo, que abriu uma CPI para acompanhar o assunto. O deputado estadual Vanderlei Siraque, do PT (que acaba de ganhar uma vaga no Congresso na carona do palhaço Tiririca), saiu em defesa de Vaccari e acusou o promotor do caso, José Carlos Blat, de apresentar uma denúncia com “tintas tucanas” . Blat reagiu: “São tintas da Justiça”. As duas centenas de vítimas da Bancoop que estavam na plateia e acompanhavam a audiência concordaram com o promotor.

Se a denúncia for aceita e os culpados pelo desfalque forem condenados, as vítimas terão o alento de saber que se fez Justiça – mas dificilmente serão ressarcidas. Dado que uma cooperativa é como se fosse uma empresa cujos sócios são os cooperados, quando ela tem prejuízo, são os próprios “sócios” que têm de arcar com ele. Par os confiaram em suas promessas, Vaccari e sua turma mandam lembranças. E uma conta de 90 milhões de reais em dívidas.


VACCARI
Segundo o MP, sua quadrilha usava o dinheiro dos cooperados
 para bancar a eleição dos petistas


O GOLPE DA BANCOOP:

• Ligada ao Sindicato dos Bancários – por sua vez, ligado ao PT -, a BANCOOP, criada em 1996, oferecia aos seus cooperados apartamentos a preços 40% abaixo dos de mercado;

• A partir de 2001, o dinheiro dos cooperados passou a ser desviado, entre outras coisas para abastecer o caixa dois de campanhas eleitorais petistas;

• O desvio causou um romba nas contas da cooperativa; dos 55 empreendimentos lançados desde 1996, apenas 23 foram entregues;

• Para cobrirem o estouro, os petistas da Bancoop passaram a exigir pagamentos mais altos dos cooperados. Quem não conseguia pagar perdia o dinheiro investido. Hoje, 1.133 famílias brigam na Justiça para ter onde morar.