Carlos Brickmann
Sim, aconteceu: a mãe de uma aluna com catapora pediu que sua filha fizesse o Enem em sala isolada, para não contaminar outras pessoas. O Ministério da Educação rejeitou o pedido, por escrito, alegando que somente seriam oferecidas condições especiais para quem, "no ato da inscrição", tenha informado "a deficiência reconhecida em laudo médico ou o elemento que motiva o atendimento diferenciado". Só que a inscrição se realizou dois meses antes. Fica combinado, então, que quem souber que vai ficar doente, ou que vai sofrer um tombo e quebrar uma perna, ou que possa de alguma forma prever o futuro, em vez de comprar os números que vão dar na Mega-sena acumulada se dedique a fazer requerimento (três vias, firma reconhecida) ao Enem, informando o que vai ocorrer.
O Inep, ligado ao MEC, que organiza o Enem, disse que a confusão foi pequena, já que os erros atingiram uma percentagem pequena dos estudantes. Fica combinado, então, que se a família do cavalheiro que disse essa bobagem comer camarão num restaurante que serve centenas de pratos, e só na sua mesa a comida estiver estragada, ninguém terá culpa: percentualmente, o erro foi pequeno.
Alguns aloprados do twitter e da Internet, dos que só lamentam não ter entrado no MEP e aproveitado alguma oportunidade, dizem que a culpa é dos cursinhos (e da imprensa, claro). Ou seja, dizem que os cursinhos dominam o Ministério, já que o erro só existiu por falta de cuidado. E a imprensa só será livre para divulgar o problema se o erro não for do Governo. Fica combinado assim?
Ameaças oficiais
Eis um texto de twitter ameaçando as vítimas: "Alunos q já ‘dançaram’ no Enem tentam tumultuar com msgs nas redes sociais. Estão sendo monitorados e acompanhados. Inep pode processá-los."
Coisa que não pode
Um dos erros do exame do Enem tem tudo para se tornar um clássico: uma pergunta que se refere ao livro 1808, de Laurentino Gomes. A resposta correta, segundo os luminares que organizaram a prova, é 1810.
É preciso repetir o exame. Pelo menos, que o repitam até aprender.
Juízes na praia
Uma reunião de juízes no Hotel Comandatuba, em Ilhéus, BA, paga majoritariamente por empresas que têm grande número de causas na Justiça, já é esquisita. Mais esquisito é achar, entre os patrocinadores, a fábrica de cigarros Souza Cruz, que responde a centenas de processos de famílias que perderam parentes por causa do fumo. Segundo o médico Dráuzio Varella, na Folha de S.Paulo, "os fabricantes de cigarros não têm o menor escrúpulo, são capazes de tudo. Usaram atores, compraram médicos, esconderam pesquisas, fizeram comerciais dirigidos aos adolescentes, corromperam políticos (...)". Este colunista é do tempo em que juiz não aceitava nem carona. Aceitar patrocínios (e desse tipo), nem pensar.
Relembrando
A propósito, a PM paulista concedeu o título de Amigo da Rota a algumas empresas "pelas contribuições dadas ao grupo". As empresas amigas do letal grupo da PM incluem quatro cervejarias: Ambev (Brahma, Antarctica, Skol), Schincariol (Nova Schin, Devassa), Femsa (Kaiser) e Heineken. Dúvidas: quais foram as "contribuições dadas ao grupo"? Estarão devidamente registradas?
Socialistas rachados
O candidato socialista ao Governo paulista, Paulo Skaf, reage duramente contra a posição do seu PSB em favor da recriação da CPMF, o Imposto do Cheque: promete lutar duramente contra mais esse imposto. Skaf, presidente da Fiesp, a Federação das Indústrias de São Paulo, foi um dos líderes do movimento que derrubou a CPMF e não aceita, por imposição política, trair suas posições.
Primeiro os meus
Há quatro meses, oficialmente, o Congresso nada faz por causa das eleições. Na verdade, neste ano não se trabalhou por lá. Mas, só entre agosto e outubro, período que o Senado chama de "recesso branco", os senadores gastaram R$ 1,5 milhão do seu, do meu, do nosso dinheirinho com a tal "verba indenizatória" - consultorias, alimentação, locomoção, combustível, hospedagem. Os senadores que fizeram campanha em seus Estados gastaram R$ 673 mil em "atos relacionados à atividade legislativa". Mas os senadores não devem ser crucificados: os deputados, que também só agora voltam a se submeter à maldição bíblica de ganhar o pão com o suor de seu rosto, começaram a trabalhar pedindo aumento. Só 15 salários de R$ 16.512,00, mais verba de passagens, assessores, secretárias, motoristas, Correios, interurbanos, celulares (o que eleva a despesa mensal por deputado a mais de R$ 100 mil) é pouco, coitados: querem equiparação aos ministros do Supremo. Só que os ministros do Supremo são 11, e os deputados 513.
Pedra na água
Outro problema é que os salários de Suas Excelências se multiplicam por todo o país. Os deputados estaduais ganham 75% do salário dos federais (e, portanto, se sobe um, sobem todos os outros). A única coisa que não muda, caro leitor, é o seu bolso. Ele continua do mesmo tamanho e os gastos continuam subindo.