Beatriz Ferrari, Veja online
Em fórum da revista The Economist, economistas alertam para as mudanças que o Brasil deve efetuar para continuar crescendo de maneira sustentável
"Se investirmos em infraestrutura, mudando a composição dos nossos passivos, talvez possamos sustentar um déficit maior. Mas se expandirmos demais no momento atual, criaremos um buraco no futuro” - Affonso Celso Pastore, presidente da A. C. Pastore & Associados
O que acontecerá com a economia global? Essa é a pergunta que os primeiros debatedores do fórum Brazil Summit 2010, Decolando: Como Sustentar o Sucesso, organizado pela revista britânica The Economist, tentam responder. O evento começou nesta terça-feira em São Paulo e reúne executivos, líderes empresariais e autoridades nacionais e internacionais. A falta de rigidez da política fiscal brasileira também é assunto de debate no fórum.
No primeiro painel, Nicolás Eyzaguirre, diretor do departamento do Hemisfério Ocidental do Fundo Monetário Internacional (FMI); Affonso Celso Pastore, presidente da A. C. Pastore & Associados; e Justine Thody, diretora editorial do Grupo Economist, discutiram como os países desenvolvidos podem sair da crise. O debate foi moderado pelo editor-chefe da Economist, John Micklethwait.
Justine iniciou o debate com um discurso pessimista. Ela acredita que a recuperação mundial da crise levará uma geração inteira, e que os países que se fortaleceram com base em exportações precisam encontrar outras maneiras de crescer, como alavancar o potencial doméstico. O economista brasileiro Affonso Pastore apresentou um discurso em linha com Justine. Ele enxerga como fraca a recuperação dos Estados Unidos, com consumidores e empresas endividadas e pouca perspectiva de aumento dos investimentos.
Para Pastore, a saída para os EUA seria depreciar o dólar para aumentar as exportações, já que a maior economia do mundo não pode recorrer a uma maior expansão fiscal e não há margem para reduzir os juros, que estão próximos de zero. “O dólar se depreciaria em relação ao euro. Mas isso vai reduzir o crescimento europeu”, avalia.
Nicolás, do FMI, foi um pouco mais otimista. O economista prevê que os países desenvolvidos investirão dinheiro público para resolver problemas internos. “Isso criará espaço para se recuperarem e tirará o peso dos emergentes na recuperação mundial”, explicou.
Sobre a questão cambial, Nicolás informou que o FMI não é contra os países controlarem o fluxo de capitais, mas antes disso é necessário acertar a política fiscal. “Se você colocar combustível demais no seu foguete, acabará não chegando ao destino”, metaforizou, fazendo referência à expansão fiscal demasiada.
Brasil - Os debatedores demonstraram preocupações com a trajetória fiscal brasileira. Justine avaliou que o Brasil deveria tomar como exemplo os problemas que o mundo desenvolvido tem enfrentado. “Vejo muita complacência no país. O Brasil vai bem, mas vai enfrentar as mesmas questões do mundo desenvolvido por conta de sua trajetória fiscal”, alertou.
Já Pastore chamou a atenção para a questão da poupança. Ele avalia que o crescimento atual é fruto do aumento da demanda doméstica, mas que essa expansão superou o crescimento do PIB e isso está aumentando nosso déficit externo. “Mas esses déficits seriam sustentados quando a situação externa mudar? Talvez. Se investirmos em infraestrutura, mudando a composição dos nossos passivos, talvez possamos sustentar um déficit maior. Mas se expandirmos demais no momento atual, criaremos um buraco no futuro”, avisou.
Nicolás compartilha a opinião de Pastore. Além de sugerir uma política fiscal mais rígida para manter as contas sustentáveis, o economista reconhece ainda a necessidade de aumentar a poupança pública. “Concordo com Pastore. Temos dois lados. Um é manter as contas sustentáveis. É preciso aumentar a poupança pública, com política fiscal mais rígida. Temos que analisar o crédito no setor privado”.