O Estado de São Paulo
Não se pode negar que a valorização do real constitui um grave obstáculo para o crescimento econômico do País. No entanto, nossas autoridades não se podem esconder atrás desse problema para evitar tomar medidas que amenizem os efeitos negativos da taxa cambial. Seria uma irresponsabilidade do governo, a quem caberia adotar medidas em outros campos para neutralizar os inconvenientes do real forte.
No congresso reunido pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), houve um alerta sobre a situação de "emergência cambial" que o País vive, mas houve também demonstrações de que o governo não pode ficar passivo diante de uma evolução da taxa cambial que tem origem em fatores que o próprio governo deveria corrigir.
Dois dos fatores citados são muito importantes: a excessiva carga tributária e uma taxa de juros muito alta. O que talvez não tenha sido destacado suficientemente é que os dois fatores só têm uma fonte: o excesso de gastos do governo.
O presidente da Alcoa, Franklin Feder, lembrava em entrevista ao jornal Valor que sua empresa escolheu o Brasil para produzir alumínio não só pela existência de grandes reservas de bauxita, mas por dispor de energia hidrelétrica barata, que hoje, no entanto, é a mais cara do mundo. Isso se deve apenas aos impostos inclusos no preço da energia. Num país com o potencial hidrelétrico do Brasil, a energia deveria dar uma grande vantagem comparativa, e não a dá por causa do apetite fiscal do governo.
A questão do custo elevado do crédito merece ser abordada nas suas verdadeiras dimensões. A taxa Selic é elevada não apenas para afastar possibilidades de retorno de pressões inflacionárias, mas também pelo fato de as autoridades monetárias não ousarem condenar com clareza a política de excesso de gastos correntes praticada pelo governo (sem falar dos truques contábeis), que está criando um excesso de liquidez que o Banco Central tem de procurar neutralizar para impedir a volta de uma inflação que tanto marcou a história econômica recente do País.
Assim, fica claro que a causa principal de nossas dificuldades não é a taxa cambial, mas o profundo desequilíbrio das contas públicas. Caberia às entidades de classe se mobilizarem mais firmemente para exigir maior seriedade na condução da política fiscal e na redução das despesas de custeio - como propõe o ministro do Planejamento -, que deveriam ser inferiores ao crescimento do PIB para que se forme uma poupança pública capaz de financiar os investimentos.