Adelson Elias Vasconcellos
Lula passou oito anos tentando arranjar briga com os tucanos e, mais especificamente, com FHC. De certa forma, o discurso vigarista até aqui tem sido triunfante. Deu certo em 2006 e agora, em 2010. Pena que jamais conseguiu esconder das pessoas mais esclarecidas e informadas que o seu sucesso é fruto do sucesso do outro, muito embora quem tenha bancado o prejuízo político tenha sido o ex-presidente. Lula só surfou nas ondas do trabalho alheio.
Como certas batatadas de seu mandato não podem mais ter a culpa transferida a terceiros, internamente, agora tenta arranjar um inimigo lá fora para se justificar. Foi neste sentido que ele desceu o porrete no governo Obama. É evidente que a política americana afeta o mundo todo. Mas o grande culpado pela guerra cambial não são os Estados Unidos, é a China, mas aí Lula prefere calar.
Olha, gente, um dia o brasileiro deixará de ser o desinformado que é hoje e, se tiver um pouco mais de nível intelectual, este tipo de discurso terá endereço certo: a lata do lixo. Lula é o que é e o que sempre foi, mas seu sucesso, não se tenha dúvida, é calçado a partir da ignorância, do analfabetismo e da desinformação de praticamente 80% da população brasileira.
Quando Obama anunciou que despejaria 600 bilhões de dólares na economia americana, dez em cada dez especialistas e analistas de mercado concluíram que grande parte da bolada seria despejada no Brasil. Isto elevaria ainda mais a nossa moeda, tornando cada vez menos competitivos os produtos brasileiros no exterior, além de permitir que os importados praticamente tomem conta nas gôndolas dos mercados no Brasil, das prateleiras do comércio, sufocando dia após dia nossa indústria. Caso nada seja feito, estamos à beira de uma rápida desindustrialização, com todas más consequências sociais e econômicas que este desastre possa provocar.
Ora, a quem culpar? Não, não são os americanos os culpados como Lula agora tenta colar. Somos nós mesmos em grande parte, e os chineses na outra ponta. Este blog existe há quatro anos e meio, e desde 2007, outra coisa não fazemos, quando falamos de câmbio e de política industrial, senão alertar para os malefícios que a supervalorização da nossa moeda frente ao dólar têm provocado. Esta atração fatal para os investidores externos se deve unicamente pelos juros praticados aqui, internamente. Noventa por cento do mundo pratica taxas próximas de zero, no Brasil estamos perto de onze por cento. Convenhamos é um atrativo e tanto. Com o ingresso volumoso é natural que o dólar despenque e o real se eleve.
Algum apressadinho saca logo daquela ideologia bestialógica e fulmina: baixem os juros JÁ. A pergunta é: como? São os juros que sustentam o equilíbrio dentro dos limites da nossa inflação. E boa parte desta inflação é provocada pelo próprio governo. Os gastos excessivos além do total que arrecada, provoca desequilíbrio orçamentário, e para fechar a conta, o governo emite títulos para captar o montante necessário para cobrir o rombo. Mas para que seus títulos sejam atraentes, ele precisa remunerar mais do que os outros, daí uma das razões para os juros extorsivos praticados aqui dentro.
Mas vai se falar, seja para Lula ou até para Dilma, da necessidade de um aperto fiscal, com a obrigatória contenção de gastos? Assim, desprezando e ignorando a única regra capaz de conter este processo de sangria da indústria nacional, é preciso encontrar “culpados” externos para se justificar frente ao eleitorado.
Em 2007, fizemos um cálculo que apontava, naquele ano, uma perda em torno de 15 bilhões de dólares em exportações, fruto da gastança e o rosário de consequências que ela produzia.
E não fosse o país ser excelente na produção de commodities agrícolas e minerais, e a situação interna estaria a beira de um colapso. É o agronegócio, tão demonizado pelos petistas, quem tem sustentado a estabilidade econômica interna, seja pela excelente e cada dia mais crescente produção de alimentos, que mantém baixa e sob controle nossa inflação, ou pelos excedentes que exportamos e que ajudam a manter nossa balança de comércio exterior superavitária, além de inflar nossas reservas internacionais nos atuais níveis, mais de 280 bilhões de dólares.
É preciso que passemos a gastar menos nos supérfluos, elevar o investimento público com os excedentes de arrecadação para criar duas condições indispensáveis para um crescimento sustentável: redução rápida dos juros internos e redução gradual da carga tributária. E aí, meus amigos, não há mágica: não há espaço para se manter o gigantismo do Estado, gigantismo este que tem se acelerado além da conta nos dois mandatos de Lula. Se de um lado o governo incentiva o consumo interno com a inserção cada vez maior de novos consumidores, estes por certo não olharam para a origem do que consomem. Neste caso, os importados lentamente vão substituindo os produtos nacionais por não carregarem o oneroso custo Brasil, nossa indústria cada vez mais ampliará sua capacidade ociosa até o ponto em que, não havendo volta, precisará desempregar para se manter. Neste sentido, inclusive, e quase na impossibilidade política de se provocar uma reforma tributária digna do nome e na velocidade que se faz necessária, há muito tempo que sugerimos que o governo, em qualquer de seus níveis, ampliasse os prazos de pagamentos de impostos, permitindo que as empresas pudessem fortalecer seu capital de giro, sem a necessidade de recorrerem ao mercado financeiro para financiarem sua produção. E para isto o governo não precisa aprovar absolutamente nada no Congresso. Bastar querer fazer, tem instrumentos adequados para isto. Só isto, uma medida bastante simples, já aliviaria a pressão por crédito internamente, e, forçaria uma pequena redução dos encargos financeiros, colaborando, de bônus, para a estabilidade dos preços. Só que isto tem um custo: melhor racionalidade dos gastos públicos que, como se percebe, há muito perderem o controle de vez.
Quem não se der conta destes princípios, está condenando o futuro do país, está jogando por terra todo o esforço despendido nos últimos 16 anos para nos ajustarmos e voltarmos a crescer. A fórmula lulista de crescimento, como há bastante tempo alertamos aqui, tem prazo de validade bastante curto e uma vez vencido, e sem as providências que urge tomar, ela provoca suicídio em massa. E recuperar o terreno que se vai perdendo, demandará remédios bastante amargos para a nação como um todo.
É com base nesta análise que acusamos o governo atual de agir apenas em proveito próprio, isto é, devotado às urnas, porque pilota um projeto de poder, e não um projeto de governo que é o que de mais precisamos. O correto seria começar as ações de correção de rumos já, ainda neste curto espaço de tempo do mandato de Lula. Quanto mais demorar o governo para agir, mais dificuldades estenderemos à frente e, claro, mais o prejuízo tende a se acrescer. Mas o primeiro passo, sem dúvida, está em enxergar o problema e ele não está lá fora, está aqui dentro mesmo. Resta saber por quanto tempo nos manteremos cegados e transferindo a terceiros nossa própria responsabilidade.
Qual a melhor solução? Bem, compete ao governo decidir qual a melhor para o país, e não para o apetite eleitoral de seu presidente. Mas há coisas que, certamente, não podem ser feitas, tipo a trapaça com que o governo quer tocar a qualquer custo o trem-bala, conforme vimos abaixo. E, em reportagem da Veja, vimos também 32 obras que o TCU condenou por irregulares. Não há interesse público que justifique o assalto aos cofres do Tesouro sendo feito com obras que alimentam o desvio, a corrupção, a safadeza.
Aliás, o título do excelente editorial do jornal O Estado de São Paulo resume bem o que pensamos sobre o tema: O governo se abriga atrás do problema cambial. Com efeito, é exatamente isto que se passa: como na política conduzida por Lula gastar e torrar dinheiro público mesmo que sem a menor necessidade para o país, mas importantíssimo para sua excelência praticar seu proselitismo de botequim, não há espaço para racionalidades. É de se esperar que sua sucessora não seja tão tolerante com esta política: o que está em conta é a própria estabilidade econômica do país, cujos benefícios sociais são inegáveis. E não é uma conquista deste governo, deve-se acrescentar. É fruto de muito sacrifício de todo o país durante muito tempo. Deste modo, e para concluir, é preciso deixar claro que Lula não pode colocar seus interesses pessoais à frente dos interesses do país. Afinal, não foi eleito para isso. Portanto, que trate de cumprir com sua obrigação de governar o país, mas por inteiro, e não para beneficiar apenas a companheirada. Afinal de contas, eles não pagam impostos melhor que o restante da sociedade.