Fabiano Maisonnave, Folha.com
Parecia combinado.
Na Folha de domingo, Rubens Ricupero advertiu de que o Brasil corre o risco de ficar refém da China caso não tenha uma política clara para lidar com o gigante asiático.
No mesmo dia, o “Estado de S.Paulo” trouxe ótima entrevista com o chanceler Celso Amorim. Em raríssima autocrítica, admitiu não ter desenvolvido “um conceito pleno de como vai ser nossa relação com a China”.
Para Ricupero, um constante crítico do governo Lula, o principal desafio do governo Dilma será fazer essa relação menos “assimétrica e passiva”. Sem isso, diz, “a demanda chinesa por commodities [minério de ferro, soja, petróleo] é que vai plasmar nosso futuro.”
De acordo com Amorim, chanceler de Lula há oito anos, “o relacionamento com a China será um dos maiores desafios do Brasil daqui pra frente”.
Até os problemas descritos pelos dois diplomatas se complementam.
Ricupero lembra “a impiedosa ação chinesa para roubar-nos setores em que fomos competitivos (...) e substituir-nos nos mercados para os quais exportávamos manufaturas, inclusive na América Latina e em nossa própria casa”.
Amorim, por sua vez, finalmente reconheceu que a China tem a moeda artificialmente desvalorizada. “Como estou de saída, dou minha opinião: se um país quer ser tratado como economia de mercado, não pode ter política cambial que não seja de mercado. Essa política de constante desvalorização nos atinge.”
(Bom lembrar que Lula e Hu Jintao assinaram, em 2004 um memorando pelo qual o Brasil reconhece a China como economia de mercado. Amorim já era chanceler. O acordo ainda não foi implementado.)
Pois é justamente a moeda desvalorizada que permite aos chineses empreender a “ação impiedosa” a que Ricupero se refere.
Se há um crescente consenso na diplomacia brasileira sobre a necessidade de uma política mais clara e ativa para a China, aparentemente isso ainda não chegou aos ouvidos de Dilma.
Na a cúpula do G20, em Seul, no mês passado, ela afirmou que não vê problemas na política monetária chinesa, e sim na americana: “A moeda chinesa está vinculada ao dólar, e o dólar está desvalorizado, e essa é questão.”
Ora, a principal crítica contra o yuan é justamente a de que atrelado ao dólar, portanto, não flutua livremente.
O fato é que o mea-culpa no apagar das luzes de Amorim e as declarações de Dilma mostram que o governo petista está bastante atrasado sobre uma estratégia para o principal parceiro comercial do país.