quinta-feira, dezembro 02, 2010

Jorge Gerdau: “O Brasil precisa de decisões próprias”

Instituto Millenium


Presidente do Conselho de Administração do Grupo Gerdau, Jorge Gerdau Johannpeter, defendeu, em entrevista ao jornal “Diário Catarinense”, que o Brasil crie seus próprios mecanismos de controle em relação à guerra cambial. O empresário cobra processos de eficiência de gestão para todos os setores, inclusive o público.

Leia a entrevista na íntegra:

Por Alesandra Ogeda

Diário Catarinense – Quanto o Brasil deverá crescer este ano?

Jorge Gerdau Johannpeter – Os números que estamos atingindo este ano são muito elevados porque são constituídos sobre patamares baixos. No ano passado, tivemos um crescimento um pouco negativo ou zero. O final de 2008 e o ano de 2009 foram difíceis. Então, os índices deste ano ficarão ao redor de 7% ou 7,5%. Mas são baseados em patamares baixos. A perspectiva para 2011, se tomarmos, agora, os números do terceiro trimestre e as perspectivas do quarto trimestre, são números que tendem para um patamar de 4,5% e 5%. Isso mantém, indiscutivelmente, o processo de economia dinâmica.

Diário Catarinense – O que poderia mudar isso?

Jorge Gerdau Johannpeter – Com o cenário de guerra cambial, temos aí fatores internacionais que não estão nas nossas mãos. Deve-se estar muito atento. O próprio fluxo de capitais internacionais que veio ao Brasil, por exemplo, nos ajuda na deficiência da balança comercial. São números globais, mas que influem e pressionam na valorização excessiva do real.

Diário Catarinense – Na questão cambial, qual seria uma margem adequada de juros para a indústria?

Jorge Gerdau Johannpeter – Eu gosto de olhar para um número absolutamente pragmático que eu acompanho há muitos anos que é o índice Big Mac. Ele (Big Mac) está, no Brasil, 42% mais caro do que nos EUA. O Brasil sempre teve um Big Mac mais barato. Tínhamos ele 20% a 30% mais barato do que o do dos EUA. Então, quando o Big Mac está 40% mais caro, querendo ou não, nós estamos com uma distorção.

Diário Catarinense – O senhor acredita em medidas em comum entre as principais economias mundiais?

Jorge Gerdau Johannpeter – Eu diria que o mundo não tem uma capacidade pronta no sentido de fazer entendimentos globais. Provavelmente, o Brasil vai ter que desenvolver decisões próprias para cuidar dos seus interesses.

Diário Catarinense – O senhor vê um risco de desindustrialização?

Jorge Gerdau Johannpeter – A queda do crescimento do produto industrial, com números estagnados ou tendo um pequeno crescimento, enquanto o resto do país está crescendo de forma significativa, são indicadores de que alguma coisa está acontecendo neste campo. Então, é preciso ter muita atenção e fazer os ajustes para enfrentar estes conflitos. O Brasil é nosso e nós que temos que definir o quanto dinheiro queremos que entre, e não Wall Street.

Diário Catarinense – O senhor defende uma ação mais efetiva no controle dos recursos estrangeiros no país?

Jorge Gerdau Johannpeter – Eu acho que tem que ajustar a taxa de juros. São macrodecisões que o governo já começou a tomar, mas provavelmente terão decisões mais enérgicas, sim.

Diário Catarinense – O senhor tem falado muito das reformas tributária e política. Agora há mais chance delas efetivamente acontecerem?

Jorge Gerdau Johannpeter -Uma reforma global, de uma vez só, acho difícil que aconteça. Eu diria que quando a equação global começa a apertar, o problema toma uma evidência maior, porque quando tudo está andando bem, o pessoal vai aguentando. Mas quando o cenário começa a ter complicações e os limites de competitividade começam a acontecer, os fatores de distorção tributária começam a crescer, a pressão empresarial e da coletividade, os próprios sindicatos de operários começam ver a necessidade e cria-se um consenso social.

Diário Catarinense – Qual deveria ser a base desta reforma tributária?

Jorge Gerdau Johannpeter -Tem que se olhar o que tem no mundo. No mundo não tem cumulatividade. Nenhum dos países que estão ao nosso redor tem um sistema obsoleto como nós temos. Estamos 10 ou 15 anos atrasados.