sexta-feira, dezembro 17, 2010

Educação: falta comprometimento com as reformas urgentes

Adelson Elias Vasconcellos

Sei que é chavão mais do que comum, mas nem sempre as pessoas se dão conta do óbvio: a vida nos ensina que todo o aprendizado é penoso, difícil, problemático, exige sacrifícios e empenho pessoal. Como também não existem conquistas fáceis, sem luta, sem disciplina, sem dedicação. Da mesma forma, no ensino não se pode achar que basta abrir a cabeça de um jovem e enfiar-lhe meia dúzia de conceitos e o trabalho estará pronto. Tanto quanto se exige do professor melhor qualificação para melhor ensinar, também se deve exigir dos alunos um mínimo de esforço pessoal para a tarefa de aprender. Claro que o ambiente doméstico é importante, mas não é o único fator a mover as crianças para o aprendizado. Há um instinto que brota naturalmente no sentido de aprender a ler, a escrever, porque isto representa-lhes um enorme universo de possibilidades para satisfazer sua sede de saber.

Deste modo, qualquer projeto destinado ou com objetivos voltados à qualificação do ensino no Brasil, jamais poderá prescindir destes princípios. Não pode eliminar o mérito, por ser o indutor capaz de mover as pessoas em aumentar seu interesse por suas próprias formações. Mas não pode jogar no lixo a cobrança, única maneira de aferir se há progressos individuais. Muitas vezes., o problema pode não estar na escola ou nos professores ou nos meios e sistemas pedagógicos. O problema pode estar na pessoa do aluno e, neste caso, deve buscar-se o melhor caminho para o ajuste indispensável.

Mas nem todos têm as mesmas capacidades e aptidões, ou demonstram os mesmos interesses e disciplina. Da mesma forma que se deve premiar o mérito daqueles que se esforçam mais, se dedicam mais, não se pode premiar o vagabundo, o desinteressado, o desajustado. Tentar recuperá-lo, sim, premiá-lo com os mesmos troféus, jamais. É nivelar por baixo e tirar o mérito e a motivação de quem merece mais por fazer mais e melhor.

A Revista Época publicou um estudo interessante (veja post abaixo) que vem de encontro à ansiedade nacional de se qualificar o ensino no Brasil, dando aos jovens e crianças, as ferramentas indispensáveis para enfrentar os desafios que, por certo, encontrarão na vida adulta. Sempre são válidas propostas que tenham por escopo estes propósitos. Porém, nem toda proposta é viável. Muitas pecam por entender que “facilitando” o caminho a coisa melhora. É o pior dos enganos.

No texto, vê-se várias questões ligadas ao magistério. Abordam-se três questões, mas nada se fala de um problema que considero grave e que, ao meu ver, mais contribuiu para perda de valorização do professor e da sua fuga ou perda do foco principal de sua atividade profissional. Quem lida com o conhecimento e tem por dever a função específica de o transmitir, deve fazê-lo longe dos holofotes do sindicalismo politizado. Não sou contra que o sindicato ou associações de docentes se unam em torno de uma busca de melhores condições de trabalho e de remuneração. Mas, a partir do momento em que tais entidades se associam a partidos políticos e passam a cumprir agendas político-partidárias, e defendendo bandeiras de ideologia política, bem, neste caso estamos diante de um total desvio de finalidade. Não por outra razão, a partir do momento em que este fenômeno passou a acontecer, a profissão de professor passou a se depreciar e perder prestígio.

Mas há na proposta, questões que julgo procedentes: a  valorização salarial dos professores sem se descuidar “...que o professor seja avaliado conforme o desempenho de seus alunos e seja passível de punição em caso de faltas recorrentes, o que não ocorre hoje”. Isto acho de suma importância. Que os melhores profissionais, sejam melhor remunerados também. E isto só é possível a partir do momento em que o professor é avaliado tanto individualmente, quanto pelo desempenho de seus alunos.

Outra questão que o estudo propõe é a adoção de um sistema de ensino integral ou, a exemplo da Inglaterra, semi-integral. Há poucos dias comentamos aqui as baboseiras circulando no Congresso Nacional sobre a inclusão de disciplinas esdrúxulas nos currículos escolares. Ora, se a carga horária permanece inalterada, a inclusão de novas disciplinas obrigará que se dedique menor carga horária para as disciplinas que realmente são importantes, como língua portuguesa e matemática, por exemplo.

Entendo que, quanto maior tempo o aluno permanecer na escola, melhor tende a ser seu desempenho. O aluno brasileiro médio não apenas é um dos que começa mais tarde a frequentar os bancos escolares, como também é um dos que menos permanece dentro da sala de aula.

Também se toca no tema, mesmo que indiretamente, da função principal da escola. Ela nem deve ser apenas para “entrar na faculdade a qualquer custo”, tampouco serve para a obtenção de um diploma qualquer para um emprego com salário melhor. A educação deve ser encarada, não apenas pelos profissionais que nela atuam em todos os seus níveis, não só pelos governantes, não só por alunos e pais, mas por toda a sociedade como um valor humano, capaz de formar cidadãos dotados de princípios e valores morais elevados. Não se constrói uma nação sem valores. A escola não serve apenas para matar a fome dos alunos na hora da merenda escolar. Não serve apenas para o governante se desincumbir de uma tarefa obrigatória. Nem para que os professores consigam uma boquinha no sindicato com vistas a se mostrarem como candidatos a cargos eletivos.

E, infelizmente, esta tem sido esta a cultura condutora do processo educacional brasileiro durante os últimos 30 anos. A proposta tem em si várias virtudes, sendo que ali não identifica nem ufanismos exagerados, nem depreciações além da conta. É equilibrado e pode servir como um primeiro passo para alargar o horizonte das reformas indispensáveis para que o ensino no Brasil, finalmente, saia do seu analfabetismo crônico e doente e se torne na principal alavanca virtuosa do nosso desenvolvimento.

Minha preocupação em relação à educaçãovai mais longe, e se dá por um aspecto relevante: com a manutenção do ministro Haddad no Ministério da Educação, não creio seja ele a pessoa mais indicada a promover as mudanças necessárias. Para este senhor, o fato do Brasil estar dentre os dez piores, apesar da quase insípida melhora, parece já representar uma verdadeira revolução.

Creio que a verdadeira mudança começaria por mudar todo o escalão do MEC. Para muitos que lá estão, parece que vai tudo bem, se tudo ficar do jeito que está. Eles não tem comprometimento nenhum com a substancial e necessária melhora que a qualidade do ensino brasileiro necessita operar.

E interessante: ao apagar das luzes de seu segundo mandato, Lula lança um novo plano nacional de educação, contendo 20 metas para serem alcançadas. Em resumo, ao invés de um plano, temos uma nova carta de intenções, e isto, vejam bem, após oito anos de governo. O que intriga é se, o tal plano de metas, é apenas uma resposta para o péssimo resultado na avaliação internacional obtido pelos alunos brasileiros, ou será que somente agora, depois de tanto tempo, é que o o governo Lula despertou para os problemas da área?

Seja como for, fica visto e provado que, definitivamente, nem Lula nem seu ministro da Educação, que permanecerá no próximo governo, tem ou tiveram a menor noção do que deveriam realizar no campo da educação. Inclusive muitas das metas alinhadas neste último plano, poderiam ter sido alcançadas pelo atual governo.

Até pelas tentativas de planos anteriores, e pelos resultados obtidos – pífios, diga-se de passagem – ao invés de plano, deveriam é ter apresentado um programa não apenas contendo metas pretendidas, mas com medidas corretivas capazes de, efetivamente, permitir um salto de qualidade na educação brasileira. Tentando fazer notícia e criar IBOPE, aplicaram foi mais um conto do vigário e se expuseram ao ridículo. A questão não pode ser apenas intencional: tem de mostrar como serão alcançadas as metas propostas.

Mesmo que o ministro seja o mesmo, quem deveria apresentar o tal plano, deveria ser a futura presidente, a duas semanas de assumir seu mandato. Ou seja, e para finalizar, a educação brasileira, pelo que se vê, continuará na rabeira dos interesses políticos. Enquanto assim for, não dá para esperar coisa melhor do que continuar nas últimas colocações em termos de educação de qualidade.