sexta-feira, dezembro 17, 2010

Turismo recebeu o triplo de emendas da Educação

Gabriel Castro, Veja online

Recursos usados em promoção de eventos são fonte de desvios de verba pública. Presidente Lula vetou itens que dificultariam fraudes

Nas últimas semanas, a elaboração do Orçamento de 2011 gerou diversas denúncias de malversação dos recursos destinados por emendas parlamentares a entidades privadas. As suspeitas atingiram até mesmo o então relator do Orçamento, Gim Argello (PTB-DF), e a atual ocupante do posto, Serys Slhessarenko (PT-MT). Em muitos casos, as suspeitas são de difícil comprovação. Mas o resumo da destinação das emendas deixa claro que há algo errado.

No ranking das emendas individuais apresentadas por deputados e senadores, o Ministério do Turismo supera o da Saúde e o da Educação. Foram 1,3 bilhão de reais destinados à promoção de atividades turísticas, ante 1,1 bilhão de reais para a Saúde e 464 milhões de reais para a Educação. Esta pasta, aliás, foi agraciada com menos recursos do que o Ministério do Esporte – ao qual foram destinados 540 milhões de reais.

O Ministério da Cultura, que recebeu 288 milhões de reais por meio de emendas, ficou com uma fatia 14 vezes superior à do Ministério dos Transportes. Na divisão por programas de aplicação dos recursos, outro número curioso: a promoção do "turismo social" no Brasil aparece em segundo lugar, logo abaixo da assistência hospitalar.

Os números podem sugerir que os hospitais funcionam perfeitamente, as escolas têm estrutura invejável e as estradas não precisam de reparos no Brasil. Mas a explicação, claro, é outra: como VEJA demonstrou na edição desta semana, a promoção de eventos e de torneios esportivos facilita o sobrepreço e, consequentemente, o desvio de verbas. A falta de critérios objetivos para avaliar o preço justo por essas realizações abre caminho para o sumiço de parte dos recursos. Isso, claro, quando o dinheiro é aplicado de fato.

Em boa parte dos casos, as revelações recentes mostram que recursos públicos foram destinados a entidades fantasmas, que só existiam no papel. Um mal que poderia ter sido combatido com mais rigor não fossem duas canetadas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Brecha - A sequência de escândalos com a aplicação de recursos das emendas parlamentares ao Orçamento de 2011 ocorreu graças a uma brecha aberta por Lula. Orientado pelo Ministério do Orçamento, ele vetou, por dois anos seguidos, um item da Lei de Diretrizes Orçamentárias que aumentaria o rigor sobre as entidades às quais os parlamentares destinavam recursos públicos.

A medida previa que, para ser considerada apta a receber dinheiro das emendas parlamentares, a entidade deveria entregar a cópia das Declarações de Informações Econômico-Fiscais da Pessoa Jurídica, documento elaborado pela Receita Federal.

A Lei de Diretrizes Orçamentárias é reelaborada a cada ano, e traça os parâmetros para a aplicação dos recursos no ano seguinte. Em seguida, o Congresso discute a Lei Orçamentária, que estabelece a divisão do montante arrecadado pelo governo.

Na justificativa para o veto, o governo alegou que as exigências criariam entraves burocráticos que prejudicariam o repasse dos recursos. A decisão acabou facilitando o surgimento dos escândalos recentes. “O governo do PT premia os maus e pune os bons”, resume o deputado federal Raul Jungmann (PPS-PE).