José Paulo Kupfer, Estadão.com
Os efeitos do aperto no crédito para pessoas físicas, inclusive no financiamento de bens duráveis, já começam a aparecer, poucos dias depois do seu anúncio. Também rapidamente vão se dissipando as dúvidas a respeito da eficácia delas.
Mais esquisito na história toda é que houvesse tantas dúvidas. Foi, realmente, estranha a reação de conhecidos economistas de mercado ao retorno do compulsório dos bancos aos níveis pré-crise e às restrições aos financiamentos pessoais e de bens duráveis com prazos exagerados.
Teve gente que, do alto de sua “ciência” econômica, tentou desqualificar a aplicação de recolhimentos compulsórios como instrumento válido de contenção da liquidez. O uso do compulsório foi classificado de “démodé”, sob o argumento de que nenhuma economia relevante o esteja aplicando, exceto a China.
É verdade que compulsórios bancários estão fora de moda nas economias relevantes. Afinal, as economias relevantes – e seus bancos - estão sendo mantidas vivas, respirando com aparelhos das injeções maciças de liquidez. Na moda está o instrumento clássico – e este sim deixado de lado há tempos - da emissão de moeda. Emitir moeda voltou à moda com o nome mais elegante de “quantative easing” (afrouxamente quantitativo de moeda) – QE para os íntimos.
Parênteses: as teorias sobre a economia chinesa são moeda de alta circulação no mercado de argumentos econômicos sem consistência. Servem tanto para incensar, apontando-a como modelo a ser seguido, como para desprezar, indicando-a como exemplo de exotismo e hetedoroxias só seguida pelos tolos ou ignorantes.
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O fato é que, num mundo em que a circulação financeira quebrou quase todas as barreiras e fronteiras, os regimes de câmbio flutuante foram passando por adaptações substantivas. Nos tempos em que a circulação financeira acompanhava e se nutria da circulação comercial, câmbio flutuante era aquele regime em que a cotação da moeda local refletia os termos de troca com o exterior. Acumular reservas seria, em teoria, algo dispensável, pois os ajustes das cotações seria automático e em linha com a trajetória das contas correntes.
Com o ziguezague dos capitais, que rondam os mercados como zumbis em busca de sangue novo, os ajustes cambiais automáticos do regime de câmbio flutuante ficou, ele mesmo, demodé. Uma política monetária digna do nome não pode ficar dependente apenas do instrumento das taxas básicas de juros. Ainda mais na vigência de sistemas de metas de inflação.
Isso é que está totalmente fora de moda.