terça-feira, fevereiro 15, 2011

Chaves e Irã na América do Sul

Irã segue a pista do urânio na América Latina

Diplomatas americanos confirmaram a presença de técnicos iranianos em mineração venezuelana e desconfiam das promessas de cooperação nuclear entre Teerã e Bolívia

Pelo menos desde 2006, o Irã está investigando em campo as possibilidades de obtenção de urânio em vários países da América Latina, nomeadamente a Venezuela e a Bolívia, de acordo com as comunicações entre as embaixadas dos EUA na região e o Departamento de Estado. Este interesse é ainda apoiado por uma ofensiva diplomática do regime de Teerã na região, que não só despertou as suspeitas da diplomacia dos EUA mas também de terceiros países, como Israel.

Durante os últimos três anos, Washington tem estado a receber relatórios periódicos das diferentes delegações sobre a possibilidade de que essa produção passe a um estado operacional.

Evitando o tom alarmista, os americanos têm recolhido toda a informação que chega até seus ouvidos a respeito do “yellow cake”, denominação do óxido de urânio concentrado. E não há detalhe pequeno que não mereça ser escutado: desde um acordo com uma empresa canadense - a maior produtora de urânio do mundo - para aumentar a produção em Puno (Peru), até um comentário do ministro das Relações Exteriores israelense, Avigdor Lieberman, durante uma visita oficial ao Peru em julho de 2009, sobre o "desmedido tamanho" da missão diplomática do Irã na Bolívia e sua relação com a busca de urânio no país andino.

É entretanto na Venezuela que os iranianos estão desenvolvendo uma maior atividade relacionada com a produção de urânio, atividade esta que conta com o apoio aberto do Governo de Hugo Chávez. Assim é que, em outubro do ano passado, Rodolfo Sanz, ministro venezuelano de Minas, afirmou à imprensa local que o Irã havia ajudado a realizar levantamentos geofísicos e reconhecimentos aéreos para estimar o montante das reservas venezuelanas de urânio.

A embaixada americana em Caracas reagiu a essas declarações. Pouco antes havia contatado de forma confidencial a um físico nuclear local para avaliar até que ponto estava avançada esta colaboração. A fonte além de salientar que "Chávez não confia nos cientistas", descreveu os comentários dos ministros de Chávez como "não muito inteligentes." Ainda assim, os americanos decidiram tranquilamente solicitar o parecer de outro cientista local, que confirmou que, mesmo que quisesse a Venezuela "não possui cientistas qualificados para realizar um programa nuclear."

Com essa perspectiva sobre a capacidade técnica de Caracas, Washington foi capaz de avaliar o acordo nuclear assinado em outubro passado entre Chávez e o presidente russo, Dmitry Medvedev. No entanto, os despachos diplomáticos de Caracas insistem em "não desprezar os rumores sobre o urânio".

Testemunhos recolhidos pela Embaixada em Caracas confirmaram a presença em diferentes períodos, com início em 2004, de um total de 57 técnicos iranianos - "que não respondem à liderança da Venezuela" - que trabalharam em agências relacionadas à mineração e geologia.

A atividade iraniana na América Latina está na mira de Israel, que em maio de 2009 vazou um relatório de três páginas que afirmava que o Irã estava a ajudar a Bolívia e a Venezuela no que seria um programa nuclear. O ministro boliviano da presidência Juan Ramón Quintana, saiu a afirmar publicamente que "só um tolo acredita em besteiras como essa." No entanto, os americanos enviaram uma mensagem confidencial para Washington indicando que em Potosí as autoridades bolivianas pretendem produzir urânio no futuro próximo. E em outubro passado, o presidente Evo Morales, revelou ao público durante uma visita em novembro de Mahmoud Ahmadinejad, que Teerã ajudaria La Paz a construir uma central nuclear em troca de “yellowcake”.

A presença de urânio, em qualquer estado natural ou processado, é cuidadosamente examinada pelas embaixadas dos EUA na região. Por exemplo, em um relatório secreto se adverte para a descoberta de munições de urânio empobrecido em um armazém das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) ou a existência, no norte do Brasil, perto da fronteira com a Colômbia, de campos ilegais de exploração de diversos minérios, incluindo urânio, nas mãos de grupos como as FARC. A este respeito, os relatórios confirmam as declarações do presidente colombiano, Juan Manuel Santos, que, segundo averiguado por este jornal, nas últimas semanas tem expressado, em reuniões privadas, preocupação sobre as minas ilegais existentes no lado colombiano da fronteira com o Brasil.

Este estado de alerta contra qualquer presença iraniana na indústria nuclear americana contrasta com a naturalidade com que se informa de iniciativas nucleares em países estáveis ou considerados aliados de Washington. Assim, um extenso relatório confidencial explica como o Brasil começou a instalar centrífugas em cadeia para enriquecer urânio. No mesmo documento se destaca que funcionários do governo brasileiro querem trabalhar com Washington "para melhorar a segurança das instalações nucleares e ajudar a formar a próxima geração de técnicos e especialistas".

Fonte: El País / Tradução: Vader