sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Esse Jabor e seu entusiasmo juvenil

Adelson Elias Vasconcellos

Amigo meu me segurou pelo braço e perguntou sem pestanejar: que tal o comentário do Jabor sobre a Dilma presidente?

Não, não sabia do comentário do Jabor sobre a Dilma. Preferi responder que Dilma representava uma continuidade do governo Lula, que o governo era PT e que, 2011, representava seu nono ano no poder. E, que por isso mesmo, não podia concordar com a demora em se tomar certas decisões no campo da economia, já que a política era a mesma, o ministro também era o mesmo, mas os problemas eram velhos.

Como também a herança recebida cobrada medidas urgentes não apenas por interesse do governo em si, mas pelo interesse do país poder saber a direção pretendida e, em consequência, quais providências deveríamos tomar em nossas vidas.

Mais tarde, iniciando a preparação da edição do blog, que nesta precisou ser adiada várias vezes por precisar atender outros compromissos profissionais e familiares, fui em busca do comentário do Jabor. E, sem me surpreender nenhum um pouco, constatei que Jabor apenas ecoou a posição de certa parte da imprensa que, no vácuo da verborragia lulista tem agido mais como certo alivio do que propriamente por pura admiração em relação à Dilma.

Claro que o país vive melhor sem aqueles ataques de ódio que lula vociferava diariamente. E vivem melhor aquelas pessoas, pobres ou ricas, não importa, que já atingiram certo grau de civilidade e que se sentiam como que ofendidas com tantas mentiras e mistificações diárias, afora os ataques à história e às pessoas que não pactuavam com seu ideário político.

Poder respirar um ar mais saudável provoca nas pessoas, pelo menos no início, um alívio tão grande que, diante de personagens que representam o extremo oposto, são capazes de conceder atributos a estes personagens que, no fundo, nunca tiveram. Leva, sim, um certo tempo, para a gente se refazer e retornar à racionalidade.

Agora imaginem para aqueles que vivem da pescaria diária de notícias! Portanto, não me estranha Jabor se sentir admirado por Dilma representa o vácuo de Lula, muito embora ela seja mera criação e continuidade de seu tutor. A fala, ao contrário, ou a sua falta, não pode, contudo, ser lida e tida como sinônimo de competência. Aliás, é neste aspecto que a marquetagem mais aposta com o silêncio imposto a Dilma. O mistério em torno de sua figura, busca criar um personagem dotado de competência.

Durante a campanha, toda a vez que Dilma tentou traduzir em palavras algum pensamento próprio, tropeçou miseravelmente. Não conseguia unir com coerência e clareza dois pensamentos. Para usar uma expressão muito própria da própria presidente, Dilma tergiversava em tempo integral. Passada a eleição, e para apagar a imagem rústica que plantou durante a campanha e até antes dela, a marquetagem investe em mostrar uma criatura dotada de frieza, racionalidade, capacidade de gestão, etc. De certa forma, tentam até lhe emprestar uma aura de intelectual.

Aquele tanque de guerra que chefiou a Casa Civil desde 2005, está sendo polido para se transformar, no imaginário da sociedade, numa espécie de realeza da coisa pública.

Contudo, e conforme analisei aqui seus primeiros trinta dias de governo, Dilma Presidente assumiu o poder, mas não começou a governar ainda. O que de fato se passa é a construção de uma imagem em torno de sua figura.

Primeiro, a avaliação que faço de governantes não está centrada em discursos, em intenções, e sim em resultados concretos frutos do ato de governar. Neste sentido, ainda aguardo medidas de governo e suas repercussões. Olhem o campo econômico: a política econômica é a mesma, os problemas que herdou de Lula são os mesmos, mas o país ainda espera medidas que ataquem de frente estes problemas. No campo dos serviços, tirando-se o discurso de boas intenções da posse e o que ela discorreu ontem sobre o tema educação, quais medidas foram tomadas? Quais programas foram lançados?

Segundo, o tempo em que esteve no governo, a passagem de bastão entre a eleição e a posse, eram suficientes para que, ainda no primeiro mês, algumas ações tivessem sido tomadas. Se na campanha deu um chute no traseiro na necessidade de um ajuste fiscal, por entender coisa antiga e ultrapassada, levar mais de um mês para anunciar um corte de 50 bilhões afirmando que o tal PAC versão 1.0 não será atingido, é acharmos que “todos somos otários”. É impossível podar cinquenta bilhões sem tocar no PAC. Além disto, o tal corte precisa ser melhor explicado onde vai ser aplicada a tesoura. Até aqui, e sem melhor clareza, o corte continua sendo apenas uma intenção. Sem transparência de como será aplicado, o país fica a espera das definições para ele, o país, poder se planejar.

A questão cambial, por outro lado, permanece em aberto, e o que é pior, provocando os prejuízos que, tantas vezes, já enumeramos.

Assim, Jabor pode sentir, como de resto o país todo, um enorme alívio pela ausência de Lula no noticiário. Mas a presença envolta em um manto de mistério e silêncio de Dilma, não deve ser entendida como motivo para cantos e prosas de admiração. Até pelo contrário. A senhora Dilma Presidente precisa dizer o que pretende fazer, definir seus projetos, anunciar suas medidas e programas, para que a sociedade possa planejar-se a partir da direção proposta.

Se a aparência causa em Jabor esse deleite todo, melhor esperar pelo conteúdo do verdadeiro governo Dilma. Enquanto isto não acontecer, o país segue esperando ter um presidente para chamar de seu e a partir daí avaliar sua performance. Esta admiração juvenil seja do Jabor ou de alguns outros analistas políticos, não passa de uma admiração juvenil a espera de um amadurecimento para melhor ser avaliado. O espaço vazio, portanto, não está apenas na ausência dos discursos diários: ele também se encontra na governança que, afinal, é isto que interessa, com muito, com pouco, ou até com nenhum discurso. Se alguma coisa se pode valorizar no comentário do Jabor é que, apesar da idade e dos tempos digamos “modernosos” em que vivemos, ele não perdeu sua admiração pelo sexo oposto...

Mas, caro Jabor, devagar com este andor: o que você avalia como começo de “um bom governo”, de prático, não resultou em nenhum benefício em favor do povo brasileiro. Até pelo contrário: a dualidade salário mínimo versus imposto de renda na fonte, vai é aumentar o confisco sobre os trabalhadores ainda mais. E até agora, não se anunciou nenhuma medida capaz de preservar a renda dos assalariados diante da inflação presente e futura.