terça-feira, julho 05, 2011

Ministério dos Transportes: uma no cravo, outro na ferradura.

Adelson Elias Vasconcellos

Tem gente estranhando que neste escândalo do Ministério dos Transportes, a presidente Dilma não tenha demitido de imediato também o ministro Nascimento. As pessoas que foram afastadas eram tão próximas a ele que seria impensável se imaginar que fizessem qualquer coisa longe do seu conhecimento.

Creio que há neste episódio, duas considerações importantes a se fazer: a primeira é que auxiliares, de qualquer nível, podem ser substituídos sem causar embaraços tanto à administração federal, quanto provocar aborrecimentos na base de apoio político. Diferente, contudo, é a situação de um ministro de estado, ainda mais de um ministério tão importante em termos de ações de governo como é o de Transportes, que responde por grande parte das obras do tal PAC. Além do problema de gestão que a sua demissão causaria, antes há que se discutir, um substituto e isto deve ser negociado com os líderes dos partidos da base aliada. Dada a maçaroca que outras negociações tem se criado, substituir um ministro não pode ser feito de uma hora para outra. É coisa delicada que, se realizada de supetão, pode aumentar ainda mais as desavenças que são enormes. Portanto, neste caso, a presidente escolheu o caminho da cautela, da prudência. Dá para se dizer que agiu politicamente com correção.

Mas há outro aspecto que precisa ser considerado: ainda é recente o rolo em torno da senhora Erenice Guerra. Demitir Nascimento de chofre, poderia provocar na imprensa, opnião pública e oposição a lembrança daquele caso ainda muito mal resolvido. Porque, é bom lembrar, Erenice era braço direito de Dilma quando esta ainda era ministra da Casa Civil. Desde que o escândalo veio a público, sempre se cobrou de Dilma seu conhecimento e participação nas atrapalhadas feitas pelo seu braço direito, e Dilma sempre se escusou de dar maiores explicações dentro da filosofia lulista da vigarice, de negar que sabia de alguma coisa.

Ora, tivesse Dilma demitido, de imediato, o ministro Alfredo Nascimento, a ilação deste com o caso Erenice, seria imediata. Ou seja, se um simples auxiliar faz o que fez a turma do Ministério dos Transportes, seu chefe ou era conivente ou incompetente. E isto seria cobrado de Dilma em relação à Erenice.

Assim, agiu a presidente com dupla cautela: uma para preservar-se a si mesma, e a outra para não tornar ainda mais crítica a relação do Executivo com os governistas. Creio que, dada a natureza mesma da presidente, ela até que teria vontade de demitir seu ministro junto com os demais. Mas, se agiu com a prudência devida, ou foi muito esperta para antever o que o açodamento poderia lhe custar, ou teve um assessor ou alguém próximo a ela que lhe anteviu o prejuízo de uma demissão sumária do senhor Nascimento.

Contudo, destacar o ministro para abrir uma sindicância dentro do ministério e ele próprio conduzi-la, creio que não seja o mais recomendável, do ponto de vista ético. Assim, creio, que a presidente pode até deixar passar um certo tempo – talvez uma semana, quem sabe – mas não pode perder muito tempo em afastar Alfredo Nascimento do Ministério dos Transportes. Do contrário, o custo político acabará pesando sobre a credibilidade da presidente, e não de um político que se mostrou inapto para o cargo que ocupa.

Mas precisamos observar um detalhe curioso nesta lambança: primeiro, que papel afinal toca à ABIN dentro do Estado? Os caras não servem nem para descobrir uma simples operação de propina dentro de um ministério?

Outra coisa: por que se destacou apenas a CGU para a auditoria do tipo administrativa – revisão de contratos - e não se encomendou uma investigação arrastão pela Polícia Federal, que poderia, inclusive, apontar mais corrompidos e, principalmente, os verdadeiros corruptores envolvidos no escândalo?

Portanto, se a presidente agiu com correção em relação à demissão de quatro servidores, ficou devendo melhor resposta quando precisou escalar os órgãos e o nível de investigação que um caso desses requer.

Aparências, nada mais...
Na coluna Radar, de Lauro Jardim, Veja online, encontramos este texto primoroso, que revela bem os valores com os quais o país vem sendo “desgovernado”.

“A nova rodada da pesquisa CNI/Ibope ficou para a segunda quinzena de julho. Será divulgada, portanto, quatro meses após a última e não três meses depois, como de hábito. Com certeza uma mãozinha providencial da sempre solícita CNI para que o efeito Palocci suma na poeira”.

Sem dúvida, nossas instituições são ávidas em agradar o poder, enquanto ele as torna irrelevantes. Não é por este caminho sórdido que se constrói nem justiça social nem um país melhor. Não se vive de aparências eternamente...