terça-feira, julho 05, 2011

Um senador em cima do muro

Adelson Elias Vasconcellos

Comentando a carta que a presidente enviou à FHC, cumprimentando-o pelos seus 80 anos e tecendo-lhe elogios a ponto de reconhecer o seu legado em benefício do pais, afirmei e até agora não tive razões para desconsiderar aquela posição, que a carta mais parecia uma armadilha, uma espécie de isca jogada à vaidade tucana com o propósito de arrefecer os ânimos de que são tomados os membros de um partido de oposição. Claro que a carta é um agrado e tanto. Para um partido que foi atacado e caluniado ao longo de quase duas décadas, apesar do enorme legado e contribuição dada ao país, forjando-lhe os fundamentos de sua estabilidade, única base sobre a qual é possível recuperar o desenvolvimento do Brasil, tratava-se de algo realmente inusitado.

Porém, não poderia a tal carta ter o dom de tirar da oposição o papel que lhe cabe representar numa democracia como a nossa, ou seja, a de fazer oposição. Você pode até escolher entre a alternativa belzebu e xiita do PT de fazer oposição, negando tudo, e não participando de nada, nem de um mínimo esforço de reconhecimento ou até de participação, ou algo mais leve, menos irresponsável, menos caluniosa, menos imprudente, menos mentirosa, que foi o caminho que de início o PSDB tentou seguir na base da “oposição responsável”.

Porém, por um ou outro caminho, a oposição, e a democracia lhe assegura este direito e lhe impõe este dever, deve exercer seu papel com absoluta normalidade e ninguém lhe pode torcer o nariz por conta disto. Já se disse que é a oposição que garante a existência da democracia em qualquer parte do mundo. Nas ditaduras é fácil dizer sim ao tirano da hora, o não é que é punido com prisão ou morte.

Já bem antes da carta da presidente, não foram poucas as vezes que criticamos aqui a posição de absoluta passividade e omissão praticada pelos tucanos. Não importa o quanto sua minoria é minoria, até porque fosse o contrário ela é quem estaria no poder, não é mesmo? Porém, tucanos mais do que democratas, passaram um bom tempo como que envergonhados das reformas que o governo FHC implantou no país e que nos asseguraram tanto a estabilidade econômica quanto a institucional.

E esse foi um erro indesculpável. O outro foi ter permitido que Lula roubasse a boa obra erguida e construída para o Brasil, tendo que lutar contra o próprio Lula e o PT. Nenhum dos fundamentos macroeconômicos implementados pelo Plano Real foi modificado por Lula. Ele seguiu a mesma política econômica do governo FHC. Da mesma forma, o Bolsa Família tão festejado, nasceu no governo FHC e creio que as provas estão todas aí para quem quiser conferir, inclusive a própria lei sancionada por Lula é clara em dizer que o seu bolsa substituiria outros cinco programas sociais vindos do governo anterior.

Porém, de um certo tempo para cá, o comportamento da oposição, que já era ruim, tornou-se medíocre. E gostem ou não, ele coincide com a postura “bunda-mole” de Aécio que se via como um sucessor de Lula. O discurso foi perdendo consistência, foi pondo de lado a crítica e o trabalho de fiscalização das ações do governo foi sendo posta de lado. A cada novo escândalo parido dentro do ventre do próprio poder, e que a sociedade tomava conhecimento não pela ação da oposição, mas pelo profissionalismo da imprensa, ou de parte dela, mais a oposição fugia da raia, mais se escondia, mais se sentia como que constrangida em cobrar do governo investigação e punição.

Procurando no arquivo do blog, o leitor se defrontará com inúmeras críticas que fiz e tenho feito, na qualidade de cidadão que goza de seus direitos constitucionais, sendo a livre expressão apenas um deles, às declarações e atitudes do senador Aécio Neves e sua personalidade de querer parecer simpático a gregos e troianos.

Sua indisposição ao manifesto publicado na semana passada após a reunião do colégio partidário dos tucanos, é de um primarismo doloroso. Se o senhor Aécio se sente incomodado de ser oposição, que mude de lado e procure um partido da base – há tantos - e a ele se filie. Porém, se deseja permanecer no PSDB, que é oposição, deve ele colaborar com a estratégia do partido de tentar reconquistar o eleitorado e retornar ao poder. E a única forma de fazê-lo é sim vigiar, fiscalizar as ações de governo, criticá-las abertamente sem medo ou constrangimentos – porque soaria falso junto ao eleitor – e ajudar a construir com seus companheiros de sigla um projeto moderno e alternativo de país que privilegie as virtudes e as principais ideias contidas no programa do PSDB. E mais: deve perder o medo de ser desagradável se tal for imperativo no exercício do seu papel de oposição.

Creio que os tucanos, a partir do manifesto que divulgaram, onde não pouparam críticas ao atual governo, onde diagnosticaram a falta de projeto, os desmandos e até o brutal autoritarismo com que o país vem sendo governado, e demonstraram aberta preocupação com a fragilização dos órgãos de controle do Estado e o contínuo e descabido processo de desinstitucionalização a que o Brasil vem sendo vítima por parte das esquerdas.

Assim, está na hora do senhor Aécio Neves dizer a que veio: ou se junta à sua turma e trabalha de forma incansável em favor do partido, ou busque outro caminho que se coadune melhor com seu pensamento. Ficar em cima do muro numa hora dessas é trair o voto dado por mais de 40 milhões de brasileiros. E isto fica muito claro diante de sua reação em relação ao manifesto feito por Serra, sim, mas com conhecimento e aprovação dos demais líderes do partido. Até porque, indo-se ao texto, analisando com profundidade o seu conteúdo, não se encontra ali uma vírgula fora do lugar. Se a o texto pareceu duro pelas posições e críticas nele espelhados, não invalida, porém, serem verdadeiros os diagnósticos sobre a ação do governo petista, com Lula ou Dilma.

Portanto, ao senador cabe decidir-se se vai querer ser oposição ou situação. Ser uma coisa com a cara da outra, é uma ação híbrida que não leva a nada. Aécio precisa aprender que, oposição que não faz oposição, não ganha eleição. Chega de lamber os beiços dos adversários, ou que mude de lado logo e pare de enganar o eleitorado.

Gleisi e o BNDES da fusão do Pão de Açúcar/Carrefour
"Essa é uma operação enquadrada pelo BNDES. Não é operação de crédito do BNDES, não tem recurso público envolvido, nem FGTS nem Tesouro. É o BNDESPar que vai fazer isso. É ação de mercado, portanto, não tem nada a ver com decisão de governo", foi como se justificou a ministra Gleisi sobre a participação do BNDES na pretendida fusão Pão de Açúcar/Carrefour. Inclusive já comentamos que a ministra precisa é se informar melhor sobre o que vem a ser BNDES e sua subsidiária integral, o BNDESpar .

Pois bem, sabemos que o BNDESPar tem liberado fortunas para determinadas empresas alavancarem seus negócios, o que tem contribuído para elevar a dívida pública. Nesta operação tentada por Abílio Dinis porque, ao invés do BNDES continuar contribuindo para o aumento da dívida pública, e considerando que todas suas operações tem sido apenas técnicas, que tal o BNDESPar colocar na Bolsa de Valores parte das participações que ela detém destas operações miraculosas? Seria um bom teste para sabermos que as tais operações são de fato lastreadas em critérios absolutamente técnicos, não envolvendo nenhum privilégio para A ou B. Através desta venda, o BNDESPar levantaria uma boa receita para operações semelhantes.