terça-feira, julho 05, 2011

Se o BNDES cumprir a palavra, Abílio pode perder o negócio

Lauro Jardim, Veja online

A atabalhoada entrada em cena da operação Pão de Açúcar-Carrefour completa uma semana amanhã com uma agenda delicada para Abíllio Diniz – a reunião entre o Casino e o BNDES, ou mais precisamente entre o presidente Luciano Coutinho e o presidente e controlador do Casino, Jean Charles Naouri. Tem tudo para ser o pior momento da guerra de Abílio até aqui.

Um “pior momento” que concorre com outras derrapadas de Abílio nesta disputa. Entre as várias, seguem três emblemáticas:

*A revelação de que já negociava com o Carrefour sem sequer avisar o Casino, seu sócio e principal concorrente do Carrefour;

*A artilharia que vem sofrendo por requerer dinheiro do BNDES para o negócio;

*A tentativa de fazer da fusão um negócio bom bom para o Brasil acima de tudo.

Além disso tudo Abílio perdeu a batalha da mídia. O noticiário está francamente negativo para ele e para sua oferta. Sobrou também para o governo, cujos ministros tentaram em vão explicar o negócio com argumentos frágeis.

No encontro de amanhã na sede do BNDES, no Rio de Janeiro, Coutinho repetirá o que o BNDES disse em nota oficial na sexta-feira: só dará os 3,9 bilhões de reais para Abílio se o Casino fizer um acordo amigável com o Pão de Açúcar. Mais do que uma declaração formal, o comunicado de duas linhas é um xeque-mate no Pão de Açúcar.

Abílio preparou-se para brigar, contratou um batalhão de advogados e está respondendo de modo feroz à acusação do Casino de que a proposta é uma quebra de contrato. Mas o que o BNDES disse na curta nota oficial bota o jogo agora nas mãos do Casino.

Se Jean Charles Naouri simplesmente disser que não topa nem conversar sobre a proposta, au revoir Abílio e suas pretensões. Se o comunicado do BNDES for seguido ao pé da letra, é exatamente isso que pode acontecer. E neste caso não adianta Abílio ter advogados e argumentos econômicos pró-fusão (e eles existem. São um dos poucos pontos incontestáveis de todo esse imbróglio).

Nouri pode também passar a pedir do BNDES, ou melhor, exigir, mudanças na oferta de Abílio. Que tipo de alterações? Não se sabe. Até porque o Casino, pelo contrato que assinou com o Pão de Açúcar em 2005, passa a ser o controlador da empresa dentro de seis meses. Então, pelo menos em tese, o próprio Casino mesmo poderia propor esse negócio ao Carrefour em 2012. Não precisaria ficar a reboque de Abílio.