Claudio Schamis, Opinião & Notícia
Quando a esmola é demais, o santo desconfia.
Um Casino entre o Pão de Açúcar e o Carrefour
O grupo Pão de Açúcar fez uma proposta de fusão com a divisão brasileira do Carrefour. Acontece que o Pão de Açúcar é sócio do grupo Casino, o maior rival do Carrefour na França. O Casino não gostou nada da ideia de virar sócio do seu grande concorrente, ainda que longe da matriz, e já protestou.
Quando a esmola é demais, o santo desconfia. Pode até desconfiar, mas o que não tem aqui nessa história é santo. Santo sou eu.
Temos que mudar aquele ditado que diz que cada povo tem o governo que merece. Sim tem. Mas, além disso, tem também o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) que merece.
E não poderia ser diferente aqui no Brasil, não é mesmo? Depois que pensamos que já vimos de tudo nessa vida, não pense mais assim. Você está terminantemente proibido de pensar assim. Não num país onde praticamente tudo vale, mesmo sendo de nenhum valor para a maioria, mesmo sendo ilícito, errado, inconstitucional, mesmo sendo o que for. Mesmo sendo e acaba sempre sendo mesmo isso aí que muitos já estão carecas de saber: “O Brasil é um país de mil e uma facetas”. E aqui não tem nenhum patrocínio da Bombril, afinal palha de aço nunca serviu para lustrar madeira. Sacaram agora o trocadilho? Faceta, madeira, caras e palha de aço! Se não entenderam escrevam para mim, para o Opinião e Notícia, que terei o maior prazer em explicar. Sem custo nenhum.
Já a explicação que o BNDES poderá dar para justificar os parcos R$ 4 bilhões que resolveu doar — para ajudar no surgimento do que será a 3ª maior empresa de capital aberto do país – pode custar caro. E muito. Para os cofres do governo e para a sociedade como um todo, pois uma eventual fusão poderá gerar fechamento de lojas e claro, desemprego. O papo do lado de lá é que com essa fusão de Pão de Açúcar com Carrefour abrirá caminho para uma maior inserção de produtos brasileiros no mercado internacional. Mas cá pra nós, para abrir caminho tem um pai de santo que conheço que vai cobrar bem menos.
Mas quem sou eu para dizer “ai, ai, ai, BNDES? Não faz isso que é feio”. Nosso país precisa de tanta coisa mais importante em infraestrutura, e temos tanta carência de recursos, que vocês só podem estar viajando, e na maionese. Light de preferência, pois entrei na dieta.
Açúcar na minha, na nossa boca
E talvez se aproveitando dessa informação, de que estou de dieta, o governo venceu na Câmara e vai manter o sigilo para a licitação das obras da Copa. Seria muito açúcar na minha, na nossa boca, se o governo abrisse os livros para que toda a sociedade tivesse acesso às informações de forma cristalina. Mas eles não vão correr esse risco, até porque depois viriam com a desculpa de que os possíveis erros que pudessem ser encontrados seriam quase os mesmos encontrados nos livros do MEC e distribuídos para 37 mil escolas, onde 10 -7 = 4. E então iriam falar com o maior orgulho, que seria melhor abrir uma CPI para apurar os porquês de tudo isso. Só espero que esses porquês não sejam procurados nos outros livros do MEC. Esses mesmos que você pensou.
E se você pensou que essa história envolvendo a Delta Construções seria relegada ao limbo, ledo engano.
Não é que descobriram que a Delta tem contratos com a Cedae, sem licitação para a instalação e leitura de hidrômetros? Fora isso, o Tribunal de Contas do Estado concluiu um levantamento onde apurou que a Delta tem 51 procedimentos irregulares em obras de 2002 a 2007. Quanto dinheiro não foi perdido? Quanto dinheiro não se ganhou?
Só com os hidrômetros novos foram para os cofres do consórcio Novoperação (Delta e pela Emissão Engenharia e Construções) míseros R$ 377 milhões. Fora o resto. É o resto, pois depois de assumir quase 80% do sistema de medição, as contas de consumidores deram um salto quase que de varas, o que provocou uma enxurrada de reclamações em 2006.
E nada disso teria vindo à tona se não fosse um trágico acidente de helicóptero. Só podemos lamentar, e muito.
Salvem as baleias. Não joguem lixo no chão. Não fumem em ambiente fechado.