Ariel Palacios, O Estado de São Paulo
A mascote da Copa América será o boneco de um “ñandú” (uma espécie de avestruz dos Pampas), batizada de “Suri”. Até o fim de semana passado a maior parte dos torcedores argentinos desconhecia a existência do símbolo da edição 2011 da Copa América. Os imbróglios do River Plate acabaram monopolizando as atenções desse setor da população. Os índios guaranis chamavam esta ave de “ñandú suri” ou “ñandú churi”. Esta simpática avezinha foi repasto dos gaúchos argentinos, que preferiam os petistos de suas asas e a picanha do ñandú. Acima, foto de ñandú matutando sobre assunto desconhecido com extrema atenção..
De olho no impacto político que o esporte preferido dos argentinos possui no país, a presidente Cristina Kirchner espalhou as doze seleções que participarão da Copa América 2011 em oito cidades. Coincidentemente, quando a Copa foi organizada, meses atrás, seis delas – La Plata, Mendoza, San Juan, Salta, Jujuy e Córdoba – eram capitais de províncias controladas por aliados leais ao governo. Outra delas, Santa Fé, é a capital da província homônima onde o governista Partido Justicialista (Peronista) confronta-se há meia década com os socialistas, que possuem o poder. Ao designar Santa Fé – a cidade do peronista ex-piloto de Fórmula Um Carlos Reutemann, que a presidente Cristina tentou convencer a passar às suas fileiras – o governo e a Associação de Futebol da Argentina (AFA) preteriram a terceira maior cidade do país, Rosário, controlada pelos socialistas (de oposição). Rosario está na mira da presidente Cristina desde 2008, quando tornou-se o foco dos protestos ruralistas contra o governo.
A última da lista é Buenos Aires, controlada pelo prefeito Maurício Macri, de oposição. No entanto, a capital argentina albergará apenas o jogo de encerramento.
Desta forma, além de Rosário e a realização de um único jogo em Buenos Aires, ficou de fora da competição internacional mais importante ocorrida dentro da Argentina em duas décadas o balneário de Mar del Plata, ponto costumeiro de eventos esportivos nacionais e internacionais.
A distribuição não é geograficamente equitativa, já que existe uma concentração de jogos no centro-oeste e noroeste do país. Na escolha das cidades tampouco pesaram os tamanhos de seus estádios (San Juan possui capacidade para apenas 25 mil pessoas, Jujuy conta com 23 mil cadeiras e Salta somente 20 mil).
POPULISMO ESPORTIVO –
Analistas políticos acusam a presidente Cristina de aplicar “populismo esportivo” em pleno ano eleitoral. Esse é o caso do think tank Rosendo Fraga, diretor do Centro de Estudos Nueva Mayoría, que afirmou ao Estado que “não há dúvida de que o torneio foi encarado com olhos políticos pelo ex-presidente Nestor Kirchner (marido da presidente Cristina e considerado, até sua morte em outubro passado, o verdadeiro poder no governo da mulher), que pensava que um triunfo esportivo argentino nesta Copa reforçaria o governo do ponto de vista eleitoral”.
Ricardo Gotta, editor de esportes no jornal “Tiempo Argentino”, considera que a distribuição das cidades “é algo peculiar, mas está pensada com espírito federalista. Por um lado não é nada prático, pois os times precisarão viajar de um lado para outro continuamente em poucos dias”.
No entanto, Gotta disse ao Estado que “o lado positivo é que esta distribuição permitirá que as pessoas do interior tenham acesso às grandes seleções da região, coisa que costumeiramente não poderiam ver. Além disso, a Copa América levou à modernização de velhos estádios. Sem ela, essas obras talvez nunca teriam sido feitas”.
Fraga argumenta que “desde a Copa de 1978 (organizada pela ditadura e usada politicamente para respaldar o ditador Jorge Rafael Videla) vivemos na época de maior utilização política do futebol. O governo coloca publicidade oficial com fins eleitorais no meio dos jogos, financia as dívidas dos clubes de futebol e organiza e paga as torcidas”.
O denominado “populismo esportivo” do governo também teria ficado evidente no ano passado quando aliados da presidente tentaram convencer o ex-técnico da seleção argentina, Diego Armando Maradona, a integrar as listas de deputados nas eleições de 2011. Embora tenha declinado uma entrada direta na política, Maradona tornou-se ativo cabo eleitoral de Cristina.
Os analistas afirmam que a pedra fundamental do “populismo esportivo” é a estatização das transmissões dos jogos de futebol – batizada pela presidente de “Futebol para todos” – implementada dias após a derrota do governo nas eleições parlamentares de 2009.
Na ocasião, em troca de US$ 150 milhões anuais até 2019 à AFA e aos clubes, o governo ficou com o controle total das transmissões dos jogos, veiculados pelo canal estatal TV Pública. Durante os jogos transmitidos pelo canal, as únicas publicidades consistem na divulgação de obras e leis feitas pelo governo Kirchner.
Ainda dentro da utilização política do futebol, Fraga destaca que o chefe do gabinete de ministros, Aníbal Fernández, esteve por trás da criação do movimento das “Torcidas Unidas Argentinas”, que organizou os temidos “barrabravas” (hooligans) em uma entidade formal. Seus integrantes são costumeiramente usados nas manifestações políticas do governo.
PERFIL DE GRONDONA, O ALIADO DE CRISTINA PARA O “POPULISMO ESPORTIVO”
Cartola que comanda futebol argentino sobreviveu
a nove presidentes civis e quatro ditadores
Julio Grondona, presidente da Associação de Futebol da Argentina (AFA) é o principal aliado do governo da presidente Cristina Kirchner em sua política de conseguir dividendos eleitorais por intermédio do esporte favorito dos argentinos. Grondona foi a peça crucial para que o governo Kirchner implementasse o “Futebol para todos”.
Em 2009 o cartola convenceu os falidos clubes argentinos a aceitar um suculento contrato de US$ 150 milhões anuais até 2019 oferecido pelo governo para ficar com todos os direitos de transmissão do futebol do país.
Peça inestimável para a presidente Cristina, Grondona controla a AFA com mão de ferro há 32 anos, desde que foi designado pela ditadura militar (1976-83) para ocupar o posto. Grondona sobreviveu ao longo de mais de três décadas com apenas uma Copa do Mundo conquistada (México 1986), oito greves de jogadores, três paralisações de árbitros, mais de 40 casos de doping dos jogadores da seleção, além de acusações de corrupção e de vínculos controvertidos com o poder e empresários amigos que possuem negócios comerciais com a AFA. Grondona costuma relativizar os contratempos pronunciando sua frase preferida: “tudo passa”.
“Tudo passa, menos Grondona”, afirmam seus inimigos, já que desde 1979 a AFA teve um único presidente. Mas, a República Argentina está no décimo-terceiro presidente desde aquela época (os generais e ditadores Jorge Rafael Videla, Roberto Viola, Leopoldo Fortunato Galtieri e Reynaldo Bignone, os presidentes civis constitucionais Raúl Alfonsín, Carlos Menem, Fernando De la Rúa, Ramón Puerta, Adolfo Rodríguez Saá, Eduardo Camaño, Eduardo Duhalde, Néstor Kirchner e a atual Cristina Kirchner).
Desde que Grondona está no comando, a AFA teve oito técnicos da seleção (César Luis Menotti, Carlos Salvador Bilardo, Alfio Basile, Daniel Passarella, Marcelo Bielsa, José Pekerman, novamente Alfio Basile, Diego Maradona e o atual, Sergio Batista).
Os críticos de Grondona afirmam que ele montou uma estrutura que permitiu a consolidação de “uma AFA rica e clubes pobres”.
O poder de Grondona – que preside a Comissão de Finanças da FIFA – não é apenas nacional, pois possui grande influência internacional. Segundo o analista esportivo Ezequiel Fernández Moores, autor de livros sobre negociatas no futebol argentino, Grondona “foi elemento crucial na reeleição de Joseph Blatter, presidente da FIFA, em 2002”.